Crítica | Vovô Sem Vergonha

estrelas 3

Apesar de trazer o nome da turma Jackass em seu título original, Vovô Sem Vergonha (quem escolheu a tradução, definitivamente, adora Sessão da Tarde) pouco tem a ver com Johnny Knoxville e sua trupe de tresloucados. De fato, o personagem principal, o velhote Irving (interpretado pelo próprio Knoxville debaixo de uma irreconhecível maquiagem) já havia marcado presença na finada série da MTV que deu origem ao grupo Jackass, mas desta vez ganha sua própria aventura solo no primeiro filme do grupo que mistura filmagens convencionais com filmagens reais.

Politicamente incorreto do início ao fim, o filme nos traz ao momento em que a esposa de Irving falece, o que traz motivos de comemoração para o velhote. Mas antes disto, Irving precisa levar seu neto Billy (Jackson Nicoll, carisma puro) ao outro lado país para entregá-lo a seu pai, já que a mãe do garoto será presa devido ao porte e uso de drogas. Obviamente, tudo é apenas uma deixa para as situações mais improváveis que se pode imaginar e (pasmem!) até mesmo um pouco de sentimentalismo.

Em termos de porralouquice, Vovô Sem Vergonha não deixa motivos para reclamação: a insanidade e bizarrice do grupo em elaborar situações surreais permanece afiada, arrancando dos pobres desavisados reações curiosas e também hilárias. Mesmo que em certos momentos apele para gags visuais já batidas (como o cadáver da esposa de Irving caindo no chão ou até mesmo piadas sobre peido), o filme consegue arrancar risadas, e boa parte do mérito se deve ao talento cômico que Knoxville exibe debaixo da pesada maquiagem, transmitindo naturalidade e fazendo o público se deliciar com a autenticidade que confere ao seu personagem, o que torna as situações ainda mais hilárias. Sua química com o pequeno Nicoll também é deliciosa, e consegue, até certo ponto, nos envolver no tragicômica viagem da dupla, onde ambientes reais são capturados por câmeras escondidas, o que também tornam as reações das pessoas ainda mais interessantes de serem acompanhadas. Semelhanças com Borat não são mera coincidência.

Mas apesar da tentativa do grupo em trazer algo diferente para o público, o problema reside justamente na pretensão que se esconde de tal objetivo: nota-se a vontade de narrar uma história, de conseguir envolver o público nos sentimentos dos personagens, mas a falha está na maneira formulaica e previsível com que os roteiristas criam sua narrativa. Não há novidades conforme o “andar da carruagem” acontece, onde impera um tom episódico que acaba se alongando um pouco mais do que deveria. O que fica, então, é a sensação de um road movie cômico que não se decide, prejudicando o balanceamento entre a comicidade e a dramaticidade. E Knoxville comete o imperdoável erro de, ao final da sessão, exibir os truques das pegadinhas e quebrando boa parte do encanto de tudo o que tinha sido visto até então.

De qualquer forma, Vovô Sem Vergonha é mais risadas do que drama, e se o objetivo for apenas querer rir durante 90 minutos com situações inimagináveis e fora do comum, o filme pode ser o programa ideal. Mas dificilmente ficará na cabeça do público após o término dos créditos. No mais, o recomendável é que o grupo volte a realizar seus filmes da boa e velha maneira que conhecemos, pois isto sim é Jackass.

Vovô Sem Vergonha (Jackass Presents: Bad Grandpa, EUA, 2013)

Direção: Jeff Tremaine

Roteiro: Jeff Tremaine e Johnny Knoxville

Elenco: Johnny Knoxville, Jackson Nicoll

Duração: 92 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.