Crítica | Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais

“Corra, coelho, corra!”

O stop-motion tem um charme natural. Wallace e Gromit, dupla que conquistara o mundo com os seus curtas premiadíssimos, são personagens de Nick Park, carismáticos pela própria essência existente nessa técnica de animação que nunca soa ultrapassada. Mas o idealizador não confere às suas criações apenas os elementos “básicos” dessa via artística e se contenta com isso. Na ideia por trás, as caracterizações de ambas figuras também são magnéticas, tanto a verborragia de Wallace (Peter Sallis) quanto a plenitude silenciosa de Gromit. Eles formam uma dupla completa, organizadíssima, com hora para lanchar e hora para dormir, tudo marcado minuciosamente e trazido à tona por aparatos tecnológicos altamente inventivos. Há uma graciosidade em se observar apenas como funcionam algumas das invenções apresentadas. De um lado, o mestre e de outro, a mente; duas categorizações que fluem de um personagem para outro, com o intuito delas se completarem. No centro de tudo, Nick Park e a responsabilidade de fazer jus ao seu próprio trabalho, de garantir que tudo continuaria funcionando, engrenagem por engrenagem, em um formato mais alongado, em uma história contada em longa-metragem. O cuidado é perceptível, como na paciência em se revelar uma figura e no esmero em responder às expectativas criadas, sem desonestidade. A fotografia, deslumbrante. Wallace e Gromit: A Batalha dos Vegetais é definitivamente mais um acerto do animador

O sucesso, porém, depende bastante da história, longe de uma complexidade cheia de digressões, mas uma simplicidade inteligente e divertida. Em termos de trama, a aliança da dupla com o negócio de controle de pragas, especificamente os coelhos, não poderia ter sido mais vantajosa para eles. Às vésperas do Concurso Anual de Vegetais Gigantes, Gromit cuida carinhosamente de sua imensa abobrinha, ao passo que Wallace se encanta pela Srta. Tottington (Helena Bonham Carter), a anfitriã desse evento para lá de especial, único como a cidadezinha introduzida é, relacionável devido o fato de suas divergências fantásticas com o mundo real serem singelas. No meio de tanta leveza, os diretores, Nick Park e Steve Box, clareiam para nós a afeição gigantesca que os moradores da cidade nutrem pelas suas plantações, pincelando, em diversas oportunidades, pequenos momentos dessa conexão improvável. Surpreendentemente, algo desapegado da realidade torna-se um material cheio de credibilidade dentro desse universo. Sendo assim, quando surge uma temível ameaça, verdadeiramente nos importamos para que ela seja neutralizada. Não abatida, já que a Srta. Tottington não suporta ver sangue derramado. A Batalha dos Vegetais, enfim, é um espetáculo do cuidado animal, vide também a atenção dada à necessidade de um espaço maior para as centenas de coelhos capturados pela dupla de protagonistas ao longo da carreira profissional deles.

O espectador, devidamente assegurado do trabalho coeso de diversão presente nesse longa animado, há de perceber a veia cômica certeira do filme, que contém um conjunto de momentos impagáveis, tornando-se, dessa forma, uma peça fundamental para oritmo bem cadenciado, que faz a duração total não ser sentida pelo público, preso à narrativa envolvente e leve. Excetua-se, porém, alguns leves desvios no tom do humor, determinado na pessoalidade de algumas cenas, mais bobinhas que outras, dependendo de serem consideradas engraçadas ou não pelo espectador. O mesmo discurso, dada uma proporcionalidade, pode ser dito do antagonista, Lord Quatermaine (Ralph Fiennes). No caso, o seu cachorro é um coadjuvante mais memorável e mais engraçado que seu dono – o duelo entre ele e Gromit é impecável -, embora Quatermaine não seja um vilão de todo ruim; o trabalho de voz de Fiennes engrandece até o mais patético dos caras-maus. Somos seres dignos, enfim, de assistir a uma animação com primor técnico ressonante, um valor de produção a ser aplaudido – o caso das plantações, cheia de detalhes. A expressividade de Gromit também é só mais uma das inúmeras características que tornam o longa-metragem de Park um espetáculo da animação; uma história bem cuidada e espirituosa. Entre os coelhos contagiantes e a excentricidade de Wallace, a sua paixão, tão inocente que culmina em um estupendo clímax à la King Kong, é um mote mais que bem-vindo e charmoso para esse excelente conto.

Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais (The Curse of the Were-Rabbit) – Reino Unido/EUA, 2005
Direção: Nick Park, Steve Box
Roteiro: Steve Box, Nick Park, Bob Baker, Mark Burton
Elenco: Peter Sallis, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Peter Kay, Nicholas Smith, Liz Smith, Dicken Ashworth, Edward Kelsey, Geraldine McEwan
Duração: 85 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.