Crítica | Walt nos Bastidores de Mary Poppins

walt

estrelas 3,5Walt Disney era um visionário. Muitas das animações criadas em seu estúdio persistem até hoje como verdadeiros clássicos e seguem encantando crianças e adultos de todas as idades, destacando trabalhos como Branca de Neve e os Sete Anões, Pinóquio, Dumbo, Cinderela, entre diversos outros. Não há quem duvide quando alguém afirma que a Disney era a fábrica de sonhos, pois a inventividade das animações do estúdio parecia não ter fim.

Tendo o conhecimento do legado de Walt Disney e seu estúdio, é possível perceber o oportunismo dos tradutores brasileiros ao transformar o título original, Saving Mr. Banks em Walt nos Bastidores de Mary Poppins, no objetivo utilizar tanto a imagem de Disney como marketing quanto a de Tom Hanks como o intérprete do bem-sucedido Walt Disney. Não que ver Disney como um personagem deixe de ser intrigante e curioso, mas o filme é sobre um outro rosto, um outro nome: P.L. Travers, autora dos livros protagonizados pela babá mágica Mary Poppins.

De fato, o filme é tanto sobre Travers quanto sobre a longa batalha entre a escritora e Disney sobre os direitos autorais da obra, uma vez que o ambicioso Disney havia prometido para uma de suas filhas que iria levar a personagem Mary Poppins para as telas, mas para isto teve de enfrentar a resistência de Travers em ceder os direitos de sua obra. E mesmo após ter concordado em levar Mary Poppins para as telas, Travers interveio como pode no processo de realização do filme, e nem mesmo assim foi capaz de sair satisfeita com o resultado da adaptação. Resultado: Travers proibiu que outras adaptações sobre Mary Poppins fossem feitas pelos estúdios Disney.

Sabendo da dificuldade que seria levar este confronto lendário para as telas, o diretor John Lee Hancock (de Um Sonho Possível) e os roteiristas Sue Smith e Kelly Marcell (esta última também roteirista da vindoura adaptação de Cinquenta Tons de Cinza) resolvem suavizar a conflituosa trajetória entre Walt e Travers para chegarem num acordo, adotando um tom ingênuo à lá sessão da tarde, inserindo diversos toques que trazem certa comicidade a história e flashbacks sobre a infância de Travers que visam manter um pouco da dramaticidade perdida.

Olhando de maneira severa, Walt nos Bastidores de Mary Poppins pode ser facilmente tachado como um filme covarde. Tudo denota uma clara resistência em permitir que o filme assuma tons mais sérios, com o diretor mergulhando o filme num clima digno dos mais típicos feel good movies, o que certamente irá decepcionar aqueles que, de fato, conhecem a história esperavam um retrato mais fiel aos reais acontecimentos que envolveram a realização de Mary Poppins.

Entretanto, visto sob uma ótica mais descompromissada, o filme é uma experiência agradabilíssima, divertida e que cumpre seu papel enquanto entretenimento “ligeiro”. Obviamente que tal avaliação dependerá de cada espectador, mas para quem enxergar o filme de acordo com sua proposta, o filme será uma interessante viagem à inocência e ingenuidade que marcavam os anos 60, o que era algo sempre presente nos filmes de Walt Disney.

Com um trabalho técnico que reproduz com fidelidade sua época, o filme encontra seu maior trunfo nas interpretações de Emma Thompson e Tom Hanks. A primeira acerta na composição dura, destemida e decidida de P.L. Travers, uma imagem que lindamente se desmonta em meio aos flashbacks sobre sua infância. Thompson acompanha o ritmo de sua personagem com classe, comprovando que ainda é uma atriz de talento, um talento injustamente ainda pouco reconhecido. E Tom Hanks, apesar da pouca semelhança física com Walt Disney, surge sempre carismático em cena, embora digam as más línguas que pessoalmente, o Sr. Disney passava longe de ser a pessoa mais simpática do mundo.

De qualquer forma, Walt nos Bastidores de Mary Poppins é um filme que pode ser analisado sob duas vertentes, com cada avaliação dependendo de cada espectador. Para este que vos escreve, a experiência funcionou, soando como um passatempo agradável e deliciosamente inocente.

Walt nos Bastidores de Mary Poppins (Saving Mr. Banks, EUA, 2013)
Roteiro: Sue Smith e Kelly Marcell
Direção: John Lee Hancock
Elenco: Emma Thompson, Tom Hanks, Colin Farrell, Paul Giamatti, Jason Schwartzman, Ruth Wilson, Bradley Withford, Rachel Griffths, Kathy Baker
Duração: 125 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.