Crítica | Watani: My Homeland

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estrelas 5,0

Watani: My Homeland é um filme raro. Daqueles que nos colocam em posição privilegiada observando uma situação trágica, mas infelizmente historicamente comum, particularmente nos dias atuais: a fuga de famílias de seus países em guerra.

Aqui, claro, a guerra em questão é a que devasta a Síria, gerando o maior êxodo do século XXI, com campos de refugiados espalhados em diversos países da Europa e com reflexos pelo mundo todo. Mas, no lugar de um documentário externo, de fora para dentro, Marcel Mettelsiefen nos oferece uma visão interna, de dentro do seio de uma família síria em Aleppo, até seu estabelecimento na cidadezinha de Goslar, na Alemanha.

Durante três anos, Mettelsiefen acompanhou a vida da família formada por Abu Ali, membro do Exército de Libertação Síria, sua esposa Hala e seus filhos Hammoudi, Helen, Farah e Sara. Divido em três momentos de duração parecida, vemos sua vida na Aleppo completamente vazia e destruída pela guerra, com os últimos momentos da resistência armada de Abu Ali, que é capturado pelo Estado Islâmico, a fuga de Hala e seu filhos para a Turquia e, finalmente, seu assentamento em Goslar, o que torna a duração do curta quase que insuficiente para abordar cada novo local e deixando o espectador curioso por mais.

É importante, porém, ajustar as expectativas. Não se trata, aqui, de uma família despossuída caminhando desesperada pelo deserto ou navegando pelo Mediterrâneo como provavelmente o imaginário popular determina. Trata-se, muito ao contrário, de uma família estável, aparentemente com dinheiro, capaz de, em uma situação adversa como essa, usar de meios, digamos, confortáveis para imigrar para a Alemanha. A desgraça está no fato em si, na destruição de um país, na necessidade de se abandonar seu lar da vida toda, de perder um marido e um pai para uma força terrorista, de ter que viver em país estranho, com língua estranha. A tragédia é mentalmente multiplicar por milhões a situação da família retratada aqui e, pior, entender que o que é retratado no documentário não é necessariamente a regra, com outros milhões de famílias arriscando morrer no mar para fugir da morte certa em suas casas (vide o lancinante documentário 4,1 Milhas, que também concorre ao Oscar em sua categoria).

O que vemos em breves 40 minutos é a vida de uma família virar de cabeça para baixo, com crianças que se escondem ao ouvir um helicóptero sobrevoando, que temem que o avião comercial que as transporta para a segurança seja alvejado, que “brincam” de Estado Islâmico, com direito a simulação de cabeças sendo decepadas diante da televisão. São vidas que provavelmente nunca serão totalmente “normais”, ainda que seja interessantíssimo ver especialmente as crianças sendo extremamente bem recebidas em Goslar e adaptando-se à vida com valores ocidentais, inclusive com Helen, a filha mais velha, abandonando o véu (que, independente de outras considerações, é claramente um símbolo de opressão de um estado teocrático e de “leis” que reduzem as mulheres a nada), usando o cabelo solto e roupas que marcam sua silhueta. É o abandono de um estilo de vida para outro ser abraçado que pode não ser melhor, mas com certeza é, no mínimo, mais respeitoso e sem bombas sendo jogadas a esmo.

Mas as saudades do marido e pai capturado são palpáveis, com um momento em particular em que Hala tenta descobrir se a foto de um corpo é a de seu marido, e isso é visto nos rostos do filhos. São crianças que, por mais que tenham tido uma imigração aparentemente sem incidentes, provavelmente nunca mais poderão voltar à sua terra natal, que deixaram para trás mais do que um país, mas uma identidade para viver em terra estranha.

A escolha narrativa do diretor foi certeira. Sua câmera não interfere na história e as ações parecem efetivamente naturais e não encenadas como acontecem em muitos documentários. Provavelmente  riqueza de material que ele conseguiu ao longo dos três anos de filmagens permitiu um leque vasto para escolher e montar o curta. Aliás, há material, ali, para gerar uma belíssima história de ficção que a indústria cinematográfica poderia abraçar, seja no formato europeu, seja no formato hollywoodiano. Mesmo com Mettelsiefen fugindo do drama barato e da câmera tremida, o que ele não mostra fica subentendido e comove o suficiente para tornar Watani um documentário essencial em um momento como esse.

Um trabalho exemplar, Watani: My Homeland é história acontecendo agora, história urgente e história de despedaçar corações.

Watani: My Homeland — Reino Unido/ 2016
Direção:
 Marcel Mettelsiefen
Com: Abu Ali, Hala, Hammoudi, Helen, Farah, Sara
Duração: 40 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.