Crítica | Watchmen – O Filme

estrelas 4,5

Durante décadas foi discutida uma adaptação de Watchmen, a graphic novel essencial de Alan Moore. A ideia já enfrentou cancelamentos, discussão sobre séries de TV e quase saiu do papel pelas mãos de Paul Greengrass, que planejava uma adaptação contemporânea do material. Uma longa jornada que acabou culminando na entrada de Zack Snyder no projeto, saído de seu sucesso com 300. Obviamente, com um material tão importante e controverso, seria impossível que Snyder agradasse a todos com Watchmen – O Filme, mas o resultado não deixa de ser impressionante.

O roteiro de David Hayter e Alex Tse comprime todas as 12 edições assinadas por Moore (que, como de costume, removeu seu nome dos créditos e amaldiçoou a produção com seus poderes místicos…) e desenhadas por Dave Gibbons, onde somos apresentados a uma versão distópica dos EUA em 1985. Outrora protegido por vigilantes e super-heróis, uma lei proibiu que qualquer indivíduo do tipo interferisse na sociedade e na segurança pública, forçando todos a se esconderem e manterem identidades normais. Quando o homem conhecido como Comediante (Jeffrey Dean Morgan) é misteriosamente assassinado, o paranóico Rorschach (Jackie Earle Haley) vai atrás de sua antiga equipe para alertá-los sobre um possível matador de heróis.

Há poucos casos de adaptações cinematográficas onde podemos atestar fidelidade com F maiúsculo. O texto traz praticamente todas as linhas de diálogo de Moore, e a direção de Snyder milimetricamente recria diversos quadros de Gibbons com impressionante cuidado estético. É uma narrativa pouco habitual para um longa do gênero, com a história indo e voltando no tempo com flashbacks, flashfowards, voice over e longas sequências que se concentram no passado dos heróis. Segue exatamente o ritmo explorado na graphic novel, só que comprimido para caber às já extensas 2h42 de projeção. É um ritmo incomum, que certamente vai afastar muita gente.

Porém, quem ficar vai se impressionar com o trabalho de Snyder. A produção é massiva e sentimos todo o mundo e a atmosfera dessa distopia através do grandioso design de produção de Alex McDowell, a fotografia de cores vibrantes de Larry Fong e a trilha sonora com apropriados toques de Vangelis e Blade Runner que Tyler Bates entrega. Os efeitos visuais que possibilitam a criação do Dr. Manhattan (em uma performance serena de Billy Crudup) e a expansão de suas habilidades – incluindo uma memorável viagem à Marte – são impressionantes, e sua gritante luz azul ajuda a confeccionar um longa visualmente impecável, do tipo que Snyder nunca mais foi capaz de superar nesse quesito.

Uma das mudanças temáticas consideráveis, porém, é que Snyder optou por enfatizar e exacerbar a ação. Se no quadrinho tinhamos mais um thriller psicológico, o que vemos no filme é, definitivamente, um filme de ação. Isso nos garante sequências empolgantes como a da luta do Comediante contra seu misterioso assassino, a fuga da prisão e uma brutal briga em um beco. Minha única ressalva é o exagero nas habilidades dos personagens, que saltam, caem de grandes alturas e até quebram paredes com a força de seus punhos; algo que foge da essência mais realista da história.

Mas todos os personagens estão perfeitamente representados. A começar pelo excelente Jackie Earle Haley, que absorve a obsessão quase psicopata de Rorschach em uma performance forte e movida por uma voz rouca incômoda, certamente merecendo aplausos. O sempre competente Patrick Wilson oferece um Coruja bem humano e convincente em seu drama de impotência, ao passo em que Billy Crudup agrada em sua performance bem controlada de Manhattan. Jeffrey Dean Morgan tem pouco tempo em cena, mas é a perfeita encarnação do sadismo e ironia do Comediante, sobrando apenas para Malin Akerman oferecer uma performance “OK” como a Espectral, sendo perceptível encontrar momentos de pura inexpressividade e falta de carisma. Por fim, Matthew Goode traz um Ozymandias diferente do quadrinho, mas cujas motivações e ações são bem transportadas em uma performance um tanto mais “afetada”.

Por fim, acho injusto falar de Watchmen e não comentar sua inspirada escolha de trilha sonora incidental. Temos a classuda “Unforgettable” de Nat King Cole para pontuar a brutal luta inicial, a atemporal “The Times Are A-Changing” de Bob Dylan para uma das melhores sequências de créditos de abertura de todos os tempos, “I’m Your Boogie Man” de KC & The Sunshine Band” para a violenta interação do Comediante com uma multidão enfurecida e “Pruit Igoe & Profecies” de Philip Glass para a incrível montagem sobre a origem do Dr. Manhattan; para citar apenas os melhores exemplos. A menção desonrosa fica com “Hallelujah”, de Leonard Cohen, que transforma a catártica relação sexual de Coruja e Espectral em uma piadinha bem desnecessária.

Além de uma obra-prima no quesito visual, Watchmen – O Filme é um esforço incrível e uma experiência muito interessante, seja pelo exercício de fidelidade ao transportar uma graphic novel considerada infilmável até a desconstrução do mito dos super-heróis que o diferencia da maioria dos exemplares do gênero.

Director’s Cut

estrelas 4,5

Mesmo que os 162 minutos que vimos na versão de cinema sejam muito eficientes em transportar todas as 12 edições da história, havia ainda mais material em Watchmen – Director’s Cut, que traz 24 minutos adicionais. Em termos de ritmo, permanece a mesma narrativa sinuosa e complexa do filme, mas temos muito mais tempo para respirar. O montador William Hoy estende alguns pontos de corte e garante que tenhamos sequências mais fluidas: um ótimo exemplo é a fracassada primeira reunião dos Watchmen, que no corte do cinema já se iniciava com o Comediante indo contra Ozymandias, e aqui tem mais tempo ao começar com calma na chegada dos heróis à sala de reunião. O diálogo do Dr. Manhattan com Laurie em Marte também ganha mais alguns minutos, só enriquecendo o belo texto de Hayter e Tse e acho muito importante que o Comediante tenha um pequeno diálogo com a multidão enraivecida antes de sair na porrada durante a sequência dos tumultos.

Em termos de cenas totalmente novas, há muito o que observar. De cara, o grande destaque é a expansão do arco de Hollis Mason (Stephen McHattie), o primeiro Coruja, que tem um diálogo estendido com Dan Dreiberg e a famosa cena em que sua casa é atacada por membros de uma gangue; momento triste da HQ que Snyder adapta com estilo ao usar “Intermezzo”, de Pietro Mascagni (música famosa por seu uso em Touro Indomável) para pontuar o desfecho trágico do herói aposentado.

Em muitos aspectos, é uma versão superior à de cinema, ainda que também não seja um filme perfeito. A mão pesada de Snyder para momentos mais dramáticos permanece, mas temos novos pequenos momentos que enriquecem muito a experiência e os arcos de seus personagens.

Ultimate Cut

estrelas 4

O quê?! Mais uma versão? Sim! E se já tinham achado que 186 minutos eram mais do que o bastante para toda a experiência cinematográfica de Watchmen, acomodem-se para os inacreditáveis 215 minutos de projeção do Ultimate Cut! O que temos aqui é basicamente o Director’s Cut do filme remontado com a animação Contos do Cargueiro Negro, que adapta o “quadrinho dentro do quadrinho” de Watchmen, que um personagem secundário lê enquanto os eventos principais da trama se desenrolam.

Nela, acompanhamos a sombria saga de um Capitão (dublado por Gerard Butler) que tem seu navio atacado por piratas do navio Cargueiro Negro e acaba ilhado sozinho enquanto os agressores seguem para sua cidade. Em meio a muitas reflexões e atos repreensíveis, ele procura uma forma de sobreviver e retornar à sua cidade a fim de salvar sua família.

Essa é a maior representação de Watchmen ganhando vida, com suas 3 horas e meia de projeção abordando praticamente todo o material dos quadrinhos de Moore (com exceção dos ensaios, entrevistas e documentos epistolares, mas fica a recomendação do documentário Sob o Capuz), sendo uma narrativa com ritmo ainda mais ousado do que a versão dos cinemas. Pessoalmente, a entrada das cenas de animação atrasam bastante o andamento da história, e o desenho de não é dos mais inspirados. Mas sou supeito pra falar, já que não era um grande fã da história extra mesmo durante a leitura da graphic novel.

Porém, o que gosto é da interação entre os dois Bernies: o jornaleiro Bernard (Jay Brazeau) e o adolescente Bernie (Jesse Reid), que interagem bastante com os eventos principais. São justamente esses momentos, o espanto, o choque e até as aparições de Jackie Earle Haley como um freguês frequente que expandem com maestria o universo da história. Quando o Dr. Manhattan desaparece, são os Bernies que trazem mais peso à história, assim como o explosivo atentado que move o clímax da narrativa. Sem falar que a interação dos dois é muito divertida, merecendo créditos às performances de Brazeau e Reid e ao – mais uma vez – excelente design de Alex McDowell, que acerta pelo visual sujo, movimentado e realista de uma rua nova-iorquina dos anos 80.

Se ao menos tivessemos um Super Mega Blaster Cut, com o Director’s Cut, as cenas dos Bernies e a exclusão do Cargueiro Negro e “Hallellujah”, talvez tivessemos em mãos a experiência cinematográfica definitiva de Watchmen.

Watchmen – O Filme (Watchmen, EUA – 2009)

Direção: Zack Snyder
Roteiro: David Hayter e Alex Tse
Elenco: Jackie Earle Haley, Patrick Wilson, Malin Akerman, Jeffrey Dean Morgan, Billy Crudup, Matthew Goode, Carla Gugino, Matt Frewer, Stephen McHattie, Laura Mennell, Rob LaBelle, Gerard Butler
Duração: 162 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.