Crítica | Wayward Pines – 1ª Temporada

estrelas 4

O diretor indiano M. Night Shyamalan, que tem no currículo os bem sucedidos suspenses O Sexto Sentido e A Vila, embarcou numa tendência crescente da televisão: a de receber nomes do cinema que buscam por um espaço e liberdade maiores para contar suas histórias. O projeto, no caso de Shyamalan, foi a série Wayward Pines, com dez episódios, pelo canal Fox, adaptação da trilogia literária de Blake Crouch.

Tendo-se em vista os últimos trabalhos do indiano, mal recebidos pelo público e pela crítica, e a premissa de mistério da minissérie, tão comum à moda da televisão — resultando em produtos que, na sua maioria, vão do ruim ao regular –, não se esperou muito da trama, a princípio. Com o andar da carruagem, porém, somos surpreendidos, tanto pelas reviravoltas em si quanto pelo dinamismo de vários episódios e pela inventividade em termos de roteiro, que aborda uma ampla quantidade de tópicos com inteligência e filosofia.

O agente Ethan Burke, que investigava o desaparecimento de dois colegas (Matt Dilon, apenas um membro do elenco de prestígio), sofre um acidente de carro e desperta no hospital da cidadezinha de Wayward Pines, do título. De pronto, o policial percebe que algo está errado quando não consegue reaver sua documentação, comunicar-se com o mundo exterior e, de modo algum, sair da cidade. A gama de referência da história já nos permite citar Kafka e sua crítica literária às engrenagens burocráticas do sistema. Só que Wayward Pines está longe de parar por aí. Paralelamente, acompanhamos a investigação da esposa de um colega e também do filho de Ethan acerca do desaparecimento do homem. Enquanto isso, em Wayward, vemos desenrolar-se, a princípio, um thriller que beira o surrealismo, tanto pela paranoia que estimula em Ethan e em nós, quanto por seu ritmo acelerado — fácil lembrar de Vidas em Jogo, do diretor David Fincher, nesse começo.

Aqui chegamos ao segundo grande mérito da série. Mesmo as situações mais bizarras, da estranheza dos moradores da cidade aos diálogos ou ao silêncio, sem falar no absurdo da situação como um todo — e aqui pesa o bom trabalho do elenco –, não se restringe a um mero artifício narrativo pobremente justificado, apenas visando prender nossa atenção, muito pelo contrário. Ainda antes da metade da série, começamos a conhecer os segredos por trás da cidade e o universo que, inicialmente, nos parecia totalmente inverossímil, aos poucos passa a fazer sentido. A ideia não é, portanto, nos deixar sem respostas, tampouco jogar explicações aleatórias no último episódio. Não só as respostas são dadas detalhadamente, sem pressa e no tempo apropriado, como também a definição e desconstrução desse universo serve para a abordagem de diversos questionamentos envolvendo o convívio social, as reações humanas perante o que não se compreende, a eficácia de um regime autoritário ou da democracia, o controle do que se entende por “verdade”, papéis das gerações e o tão falado, mas sempre incerto futuro da humanidade.

Sobre a questão das gerações, uma ressalva: a série enfatiza, conscientemente ou não, a tendência da menor resistência do jovem à manipulação, embora isso seja um tanto amenizado no final, o que pode irritar representantes dessa faixa etária. Mas pensando no programa também como uma ferramenta de alerta ao público para o qual é destinado e a perspicácia com que essa realidade é retratada, defende-se aqui relevar esse aspecto.

Com um ótimo ritmo na primeira metade e quebras dele na segunda, infelizmente o que mais deixa a desejar na série é a sua conclusão. Ironicamente, não pelo maior problema em produções do gênero: falta de respostas — até lá, aliás, não parece nos restar mais nenhum mistério relevante –, mas por um episódio final deveras acomodado na já familiar ação desenfreada, que de fato parece ter sobrado numa produção que já disse tudo a que veio. O desfecho derradeiro até tem o efeito de desconforto ao qual claramente se propõe, mas parece genérico em relação ao caráter dúbio que percebemos em toda a trama, como se só estivesse lá para amenizar uma proposta mastigada apresentada instantes antes.

Ainda assim, o resultado é uma história instigante, eficiente para quem gosta de uma boa filosofia e redonda na resolução de seus mistérios, talvez o princípio de um up na carreira do já desacreditado Shyamalan, seja na televisão e/ou no cinema. Muito bom.

Wayward Pines — 1ª Temporada (EUA, 2015)
Showrunner: Chad Hodge
Direção: Zal Batmanglij, Tim Hunter, Nimród Antal, James Foley, Steve Shill, M. Night Shyamalan, Charlotte Sieling, Jeff T. Thomas
Elenco: Matt Dillon, Carla Gugino, Shannyn Sossamon, Toby Jones, Charlie Tahan, Melissa Leo, Reed Diamond, Hope Davis, Siobhan Fallon, Sarah Jeffery
Duração: 60 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.