Crítica | “Amor, Sublime Amor” – Trilha Sonora

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estrelas 4

Baseado livremente na peça teatral Romeu & Julieta, de William Shakespeare, West Side Story foi inicialmente transposto para os palcos por Arthur Laurents e Jerome Robbins, que ambientaram sua história na década de 50, onde o amor entre os personagens Tony e Maria surge em meio a rivalidade entre duas gangues: os Jets e os Sharks. Ao ganhar as telas pelas lentes do diretor Robert Wise, a adaptação obteve grande êxito e levou para casa diversas estatuetas do Oscar, inclusive melhor filme e melhor diretor.

Passados mais de 50 anos, West Side Story é tido como um musical ultrapassado, onde o tempo não lhe trouxe muitos benefícios. Independente disto, o fato é que as músicas e coreografias de West Side Story seguem como um marco dentro do gênero musical, e é sobre elas que comentaremos.

Numa longa sequência de abertura, Prologue nos apresenta as gangues rivais conhecidas como Jets e Sharks, numa intensa passagem onde somos levados a sentir a extrema tensão que rodeia estas duas gangues. A sequência é extremamente eficiente em estabelecer esta rivalidade, especialmente pela tática dos produtores durante as filmagens do longa: o elenco dos Jets recebia roteiros organizados, enquanto que o elenco dos Sharks ganhava roteiros bagunçados e rasgados. Uma atitude espertar em criar certa antipatia entre o próprio elenco, e que pode ser muito bem sentida na tela.

Jet Song, como o próprio nome já diz, é uma canção interpretada pelos próprios Jets, e que serve para exibir o orgulho dos membros da gangue. O número musical seguinte, Something’s Coming, é interpretada pelo ator Richard Beymer, que encarna o personagem Tony, e cuja letra nos apresenta um Tony esperançoso e otimista, que crê em dias melhores para o futuro. O momento é muito bem coreografado, porém a falta de carisma de Richard Beymer compromete o envolvimento do público com o personagem em si.

Dance at the Gym talvez seja o número mais bem coreografado do filme. Sem letra, e apenas contando com instrumentais que parecem ser uma mistura de jazz e mambo, é a sequência ideal para que o elenco, em conjunto, demonstre sua perfeita sincronia nos movimentos de dança, e o fazem com perfeição, embora a atriz Rita Moreno, intérprete de Anita, roube a cena e consiga chamar nossa atenção com seu natural magnetismo. Vale ressaltar a bela mudança de ritmo que é feita nos minutos finais da faixa.

Maria, apesar de agradar pela leveza de sua melodia, é mais uma prejudicada pela falta de carisma do ator Richard Beymer, que abraça o estereótipo do personagem de maneira errônea. Mas logo somos presenteados com a fantástica America, inegavelmente a melhor canção do filme, cuja letra faz uma corajosa crítica à recepção americana no que se refere aos imigrantes e a busca do chamado “sonho americano”. Rita Moreno e George Chakiris simplesmente brilham neste momento.

Em contraponto, Tonight talvez seja a música mais enfadonha da película. Se a já comentada ausência de carisma por parte de Richard Beymer apenas atrapalha, Natalie Wood em momento nenhum convence como porto-riquenha, o que apenas traz artificialismo para a declaração de amor presente na música. Da mesma forma, Gee, Officer Krupke é igualmente dispensável justamente por tratar de um personagem sem muita relevância para a trama.

I Feel Pretty, apesar de interpretada por uma insossa Natalie Wood, agrada por trazer uma melodia agradável aos ouvidos, e cuja letra traduz muito bem aquele momento especial na vida de Maria. One Hand, One Heart segue pelo mesmo caminho, cuja letra consegue obter um significado por si só, sem sair prejudicada pelas interpretações inertes da dupla principal.

Tonight Quintet and Chorus é carregada por uma sensação de uma tragédia iminente, trazendo um clima mais sombrio para a narrativa. Esta tragédia se confirma em The Rumble, que através de uma coreografia intensa, nos leva ao trágico acontecimento que atinge a vida dos personagens, trazendo rumos inesperados para a história. E em seguida temos Somewhere (There’s a Place For Us), que nos permite sentir a desesperança que agora rodeia seus personagens.

Cool, apesar de ser uma boa música, soa um tanto deslocada da narrativa, deixando a impressão de que poderia, facilmente, ter sido deixada de lado. Mas a parte musical se recupera com A Boy Like That, onde Rita Moreno mais uma vez exibe sua vivacidade em cena, e I Have a Love, uma canção que surge como um perfeito contraponto a A Boy Like That.

E com Finale, West Side Story se encerra de maneira perfeitamente trágica para uma obra baseada em Shakespeare, um encerramento digno para uma história de amor destinada a jamais ter um final feliz.

Para muitos, talvez este seja o motivo para que West Side Story soe tão datado hoje em dia: o filme em si é uma entrega aos moldes mais românticos de se narrar uma história de amor. Independente disto, é a parte musical da obra que sobrevive até hoje, com suas canções e coreografias que, apesar de algumas falhas, já entraram para a história do gênero musical.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.