Crítica | Westworld – 1ª Temporada (Trilha Sonora Original)

estrelas 5,0

Conhecido por seu trabalho em Game of Thrones, o compositor Ramin Djawadi nos trouxe melodias verdadeiramente memoráveis, como a própria abertura do seriado e a emblemática Light of the Seven, que acompanhou o desenrolar dos planos de Cersei no finale da sexta temporada. O músico fora abordado por Jonathan Nolan, que trabalhara com ele em Person of Interest, sendo convidado para compor a trilha de Westworld. Tendo aceito, o músico foi apresentado a determinados trechos da abertura e definiu todo o tom de suas musicas girando em torno do piano mecânico, que não somente vemos nos créditos iniciais de cada episódio, como durante eles, nas sequências que se passam na cidadezinha de Sweetwater.

O foco no piano já pode ser escutado claramente na icônica melodia de abertura, composta quase que exclusivamente por instrumentos de corda, que permanecem em primeiro plano em todos os momentos. Djawadi gosta que o ouvinte crie um forte vínculo imediato daquilo que escuta com o que vê. Sua intenção é que, de qualquer cômodo da casa, a pessoa reconheça tal música como parte de determinada obra. Curiosamente ele não utiliza a abertura como o leit-motif de seu álbum, uma manobra um tanto quanto ousada, mas que acaba dando certo.

Enquanto o tema principal cria no espectador a atmosfera musical que podemos esperar da série, é Sweetwater, segunda faixa do álbum, que funciona como o elemento coesivo de sua composição. Podemos ouvir trechos dela ao longo de todas as outras musicas. Começando com algumas notas da pianola espaçadas, preenchidas por um chocalho, que remete automaticamente às areias de um deserto, o tema inicia criando uma sensação de desconfiança no espectador, como um olhar de canto de olho, evidenciando que nem tudo é o que parece. A melodia então acelera, assumindo tons que seriam trabalhados mais a fundo posteriormente – ouvimos relances da aventura, do romance e da dor que presenciamos em Westworld, todos em uma perfeita amálgama do que é a série.

O maestro, então, realiza sua jogada de mestre e transforma músicas a nos contemporâneas em peças de época. De Black Hole Sun a Back to Black ouvimos esses falsos anacronismos naquela realidade do Velho Oeste. A música se torna mais que uma mera acompanhante da imagem e passa a realizar sua própria função narrativa, a de nos lembrar que tudo aquilo não passa de uma ilusão, que estamos falando de uma ficção científica disfarçada de western, que melhor maneira de evidenciar isso que uma mistura homogênea do passado com o presente? E não somente isso, as musicas dialogam constantemente com o tema da série através de suas temáticas, vide Fake Plastic Trees.

Dessas faixas ouso dizer que nenhuma delas consegue se destacar tanto quanto Paint it Black,originalmente do The Rolling Stones – não pela qualidade da composição e sim pela forma como ela dialoga com o espectador. A melodia define completamente como olhamos para a figura de Hector, brilhantemente vivido por Rodrigo Santoro, o enxergamos quase como um herói, mesmo ele assassinando os moradores da cidade. A canção dos Stones se torna quase uma balada sobre seus feitos a tal ponto que, só de ouvir essa versão de Djawadi, se torna praticamente impossível não reviver a icônica cena mentalmente.

Mas não somente de pianos e covers é feita a trilha de Westworld. O maestro segue por uma linha mais eletrônica especialmente nos trechos fora do parque. Um perfeito exemplo disso é a desconcertante Freeze All Motor Functions, que utiliza uma batida típica de filmes de ficção científica, herdando de outras obras como Blade Runner. Ao mesmo tempo, nessa mesma faixa podemos captar semelhanças com a fantástica trilha de Giorgio Moroder para Scarface, de forma bem discreta, especificamente no tema de Tony Montana e, de fato, há uma lógica nessa comparação – estamos falando da música que retrata bem a jornada de Maeve, que reflete não só a sua rebeldia, como a carga dramática de seu estado atual, uma escrava dos humanos que a utilizam como querem e a enxergam como uma mera máquina.

Djawadi dedica algumas de suas músicas a determinados personagens. Um bom exemplo é a intimista Dr. Ford, também delineada por instrumentos de corda, que refletem a disposição do personagem e, é claro, a própria atuação de Anthony Hopkins, intercalando um romantismo com tons que evocam um teor mais analítico, calculista. A música estabelece um evidente crescendo que praticamente forma a imagem mental do particular caminhando para o todo na mente do ouvinte, como uma descrição do que Ford é na realidade, um deus para aquele mundo.

Arrisco dizer, porém, que nenhuma das melodias consegue resumir tão perfeitamente o que é Westworld ou seus personagens tal como Exit Music (For a Film). A música começa com um piano e um violino e logo o segundo violino começa a surgir no fundo, para que então assumam todos seus papéis de destaque na música. Temos aqui uma música que mais que acompanha, ela conta uma história, a tragédia pessoal de William, o despertar de Dolores, o arrependimento de Ford, a morte de Arnold. Assim como no finale, onde todas as linhas narrativas se encontram, as composições da trilha da série se unem aqui, criando um apaixonante tema que nos faz imediatamente recordar de tudo o que vimos ao longo dos dez episódios do seriado.

No fim, essa obra composta por Ramin Djawadi nos deixa tão perplexos quanto a série em si. Mas não poderia ser de forma diferente, o maestro não somente cria Söns que acompanham a imagem e sim músicas que definem o tom do que enxergamos, evocando sentimentos e emoções diferentes a cada faixa. Temos aqui um álbum que se sustenta por conta própria, mas que definitivamente cumpre o objetivo de seu compositor: evocar nossas memórias da série. Westworld é, também, sua trilha sonora, da mesma forma que sua trilha é Westworld.

Westworld: Season 1 (Original Motion Picture Soundtrack)
Composto e conduzido por Ramin Djawadi
Gravadora: WaterTower Music
Estilo: Trilha Sonora
Ano: 2016

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.