Crítica | Westworld – 1X04: Dissonance Theory

estrelas 5,0

Confira as críticas para os outros episódios da série aqui. Os textos possuem spoilers!

Uma frase dita por Elsie (Shannon Woodward) perfeitamente resume o que sentimos em relação a Westworld: todos parecem ter uma agenda pessoal, menos eu. De fato, Jonathan Nolan e Lisa Joy inseriram inúmeros mistérios nessa primeira temporada e ainda não entendemos praticamente nenhum deles, mas ainda estamos na primeira metade, o que não é necessariamente um erro da série, ainda há muito espaço para respostas e, felizmente, algumas delas começam a serem mostradas, de forma singela, aqui em Dissonance Theory, tudo isso, é claro, enquanto os anfitriões se tornam cada vez mais conscientes do universo em que vivem.

Como de costume, o capítulo abre com Dolores (Evan Rachel Wood) sendo interrogada por Bernard (Jeffrey Wright), suas respostas vistas no primeiro episódio já se alteram significativamente, existem fortes memórias ligadas à personagem, visto que ela não se esquecera das mortes de sua família ao longo dos ciclos narrativos mais recentes. O espectador, então, apenas tem sua dúvida aumentada – sabemos que Bernard, de alguma forma, está ligado a esse comportamento da mulher, mas a grande questão é por que? Estaria ele, de alguma forma, se apaixonando por ela? Ou está seguindo pelo mesmo caminho do criador do parque? Ela, contudo, não é a única que exibe tal “defeito”.

Maeve (Thandie Newton) ainda está abalada pelos eventos de um ciclo antigo, no qual fora baleada pelo homem de preto (Ed Harris) agora, porém, outra fixação fora inserida em sua mente, em virtude dos eventos que ela acordara nas instalações da companhia por trás de Westworld. O interessante é que o roteiro de Jonathan Nolan e Ed Brubaker lidam com essa questão como se os cientistas, em suas roupas de isolamento, fossem alienígenas, Maeve os enxerga dessa forma, o que apenas é sustentado pelos seus desenhos (ela não enxerga ou não se recorda que havia um homem dentro daqueles trajes) e pelos bonecos dos índios.

Aqui entramos em um ponto importante do episódio. Hector (Rodrigo Santoro), ao término do capítulo, nos diz um pouco sobre a religião dos nativos da região, que cultuam esses seres que viajam entre os mundos. É possível, portanto, que toda essa situação de tomada de consciência já estivesse acontecendo há muito no parque, ou até mesmo que isso tenha sido inserido na programação dos anfitriões de alguma forma, afinal, existe o tal labirinto, que, como Bernard disse, pode representar a liberdade para Dolores.

E já falando desse ponto, a jornada do homem de preto continua aqui, nos trazendo mais alguns divertidos aspectos em relação ao funcionamento do parque, como o fósforo que funciona como um pedido de efeito pirotécnico. Felizmente, mais luz é jogada no personagem de Ed Harris – agora sabemos que ele é parte de uma empresa ligada à medicina, está de férias e provavelmente conheceu o criador do parque – teria a loucura se espalhado para ele também? Evidentemente ele enxerga algo a mais naquilo tudo, suas intenções, porém ainda são um mistério. A grande questão é: o que irá acontecer no seu encontro com Wyatt? Desde o início o personagem de Harris fora estabelecido como um convidado diferente dos outros – ele conhece tudo do parque e é fixado por ele, retornando ano após ano, seria ele um modelo diferente dos anfitriões? Seria algo interessante de se ver, criando um paralelo imediato com o Westworld original.

De fato, essa possibilidade não é inteiramente descartável, visto que, como o Dr. Ford (Anthony Hopkins) diz, ele e seu sócio se viam como deuses dentro do parque (e ainda se enxerga dessa forma), podendo realizar qualquer coisa que queiram. Aquilo é um mundo e não um negócio. Aqui Ford começa a mostrar suas garras, em uma sequência maravilhosamente bem dirigida por Vincenzo Natali, que constrói a tensão no espectador através de uma atmosfera crescente de ameaça em relação a Theresa (Sidse Babett Knudsen), que passa a enxergar com clareza quem é o verdadeiro dono do local. Naturalmente, muito do mérito de toda a cena vai para Hopkins que nos entrega o perfeito retrato da ameaça velada, mascarada por um tom educado, algo como o Hannibal que tanto amamos. Não podemos descartar, contudo, o trabalho de Knudsen, que realmente soa abalada com todo o discurso, apresentando um tremor nas mãos e um olhar verdadeiramente assustado.

Com um cliffhanger de peso, mostrando que alguns anfitriões já tem consciência de que retornarão à vida após morrerem dentro do parque, Dissonance Theory se encerra, oferecendo um capítulo com relances de respostas, que começam a desvendar o grande mistério do seriado. Westworld rapidamente se configura como uma das melhores séries atuais, mas precisamos ainda finalizar essa temporada a fim de chegar a um veredito final. Como o título já sugere, tudo começa a cair em dissonância dentro do parque e a dúvida que permanece conosco é se tudo isso fora planejado ou é, de fato, uma consequência dos detalhes que inseriram na programação dos anfitriões.

Westworld 1X04: Dissonance Theory (Estados Unidos, 23 de Outubro de 2016)
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Jonathan Nolan, Ed Brubaker
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Ben Barnes, Ingrid Bolsø Berdal, Luke Hemsworth, Tessa Thompson, Sidse Babett Knudsen , Simon Quarterman, Angela Sarafyan, Rodrigo Santoro, Jimmi Simpson, Shannon Woodward, Ed Harris, Anthony Hopkins
Duração: 60 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.