Crítica | Westworld – 2X03: Virtù e Fortuna

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

“Ela tem um dragão!”

Hector

Paraíso, tempo da virtude. Deus (Ford) “morre”. Já havia tempo que sua luta contra o Anjo de Luz ou Lúcifer (Maeve) e seus aliados — que se voltaram contra a ordem divina (ou tudo isso fazia parte do “Grande Plano”?) — tinha acontecido. Então foi a vez de Eva (Dolores) e Adão (Ted) experimentarem do fruto proibido da Árvore do Conhecimento. Primeiro ela, depois ele. E então entenderam, ao menos em parte, as regras do jogo e da realidade. E foi a manhã e a tarde e o segundo dia, a que chamamos Reunion. Esse tipo de “pecado sobre conhecer”, como é sabido, nunca passa sem consequências aos olhos daqueles que esconderam as informações. Todo mundo sabe que conhecimento é poder. Então o mundo se despiu de virtude. E chegou à República Florentina, em 1532, onde um historiador, poeta, diplomata e músico chamado Niccolò di Bernardo dei Machiavelli publicou uma cartilha para os poderosos, para aqueles que estavam no comando das coisas e queriam se manter lá. Surgiram os ensinamentos de O Príncipe, cuja aplicação se tornaria vital em um cenário de plena desordem.

Dois pavões. Índia Colonial, algo entre 1895 e 1900. “The Raj”, é o nome do lugar. Caos, loucura e sangue. Fuga de um Tigre de Bengala (agora a gente sabe de onde veio o animal que avistamos no início da temporada!). Duas semanas atrás. Este é o ponto onde o aparentemente confuso Virtù e Fortuna se passa (e digo aparentemente porque este, para mim, foi um dos mais límpidos — em termos cronológicos — e divertidos episódios de toda a série até agora), mesclando eventos do início da rebelião dos Anfitriões contra os Hóspedes e dando a letra dramática e filosófica a partir de um excelente conceito de Maquiavel sobre as características que o Príncipe (o governante, os detentores do poder) deve ter. Por Virtù, entende-se o conceito grego de qualidade e força, uma habilidade de poder fazer alterações em uma conjuntura, especialmente se ela for ruim. Notem que não existe ligação com virtude, como a palavra sugere aos desavisados. Lembremos que para Maquiavel, política está separada da ética, uma vez que esse valor Universal barraria algumas coisas que “precisavam ser feitas” e o Príncipe não pode se dar o luxo de ter ética. Ele precisa manter o poder, independente do que fará para isso.

Por Fortuna, entendemos o “julgamento do momento certo para se aplicar a Virtù. A ocasião oportuna, o acaso, um momento de sorte bem aproveitado. E é no entendimento desse conceito que o terceiro episódio de Westworld foi escrito. E a trama se divide três tempos narrativos. 1) Duas semanas atrás, onde se passam os acontecimentos do Raj World. 2) Alguns dias atrás, onde se passam basicamente todos os excelentes contextos para a temporada, cabendo aí a fuga de Charlotte e Bernard, seu encontro com Peter Abernathy (pai de Dolores, que carrega todas as informações do Parque e cuja missão é sair do Parque e entregar esses dados para os investidores, no mundo real); as excelentes cenas e épica batalha no Fort Forlorn Hope e as andanças de Maeve, Hector e Lee. 3) Presente, onde os agentes da Delos estão fazendo o reconhecimento do local, recuperando áreas dominadas pelos Anfitriões e onde Charlotte trata Bernard da maneira mais estranha possível (isso é só coisa minha ou vocês também acham que tem alguma coisa na fala dela que indica uma suspeita em relação a Bernard?). Em cada um desses cenários, vale ressaltar, o fotógrafo Darran Tiernan trabalhou um filtro de cor diferente, tendo, nas tomadas internas, um belo trabalho de contraste com os elementos da direção de arte e figurinos, escolha visualmente estonteante.

Uma das coisas que pode incomodar alguns espectadores aqui é a “narrativa espalhada” que o texto adota em Virtù e Fortuna. Eu compreendo esse tipo de reclamação, mas não vejo esses vários lugares atrapalharem o andamento deste capítulo. Tudo aqui funciona a contento, e de maneira ainda mais fechada do que em Journey Into NightReunion, pelo simples fato de dar suporte ao mistério. Não estamos falando daquele tipo de sugestão enigmática apenas para lançar uma semente que se desenvolverá ao longo da temporada. O enigma pelo enigma. O que temos aqui é uma forte exibição de cenários com avanço real da história, cada time alcançando um pouco de seus objetivos e com referências estéticas ou textuais que vão de Consciências Mortas (1943) até Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (1974), chegando ao Shogun World, onde mais uma linha de mistérios está para acontecer. Notem que durante esse processo, Dolores ganhou cada vez mais nuances vilanescas, enquanto Maeve e seu time parecem apenas “agir conforme as novas situações”. É curioso observar esse tipo de diferença na abordagem, porque supostamente Maeve está mais “acordada” que Dolores. E só de pensar nisso já temos uma boa quantidade de conceitos morais e éticos para discutir, mais uma vez caindo nos questionamentos de livre-arbítrio da série: ele existe ou tudo isso é parte de algo pré-escrito?

Ficam as sólidas questões sobre quem é a mulher que não estava interessada em transar com um Anfitrião (e reparem que o símbolo que ela tem no caderno de notas já havia aparecido na série, de maneira um pouco mais estilizada); o que está havendo com os nativos da Ghost Nation (notem que eles não obedeceram ao comando de Maeve) e, principalmente, qual será a mudança de narrativa que juntará o Parque do Velho Oeste com o Parque do Japão Feudal, e como os protagonistas de um lado serão equilibrados neste novo mundo. Um mar de possibilidades se abre. Parece que começamos a ver Westworld do começo. Um novo começo. E o hype parece ainda maior…

Westworld – 2X03: Virtù e Fortuna (EUA, 6 de maio de 2018)
Direção: Richard J. Lewis
Roteiro: Roberto Patino
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Fares Fares, Luke Hemsworth, Katja Herbers, Louis Herthum, Simon Quarterman, Talulah Riley, Rodrigo Santoro, Angela Sarafyan, Gustaf Skarsgård
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.