Crítica | Westworld – 2X04: The Riddle of the Sphinx

The Riddle of the Sphinx o enigma da esfinge plano critico westworld

  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

É possível que alguns espectadores irão reclamar que The Riddle of the Sphinx é um “episódio muito longo“. Embora não concorde com esta afirmação — porque o excesso, em audiovisual, só existe quando o tempo, não importa quanto, não é bem trabalhado a favor do enredo, o que não acontece aqui –, eu consigo entender o caminho desse pensamento, talvez escolhendo as cenas do Homem de Preto na cidade “deserta” e toda aquela história de tortura psicológica entre a tarde e a noite chuvosa. Particularmente, vi toda aquele sequência como trajetória necessária para a colocação do velho Will na trilha do novo (e cada vez mais enigmático) jogo de Ford. Contudo, entendo possíveis rejeições à essas sequências. O que eu não consigo, aqui, é creditar esse episódio com algo menos que a nota máxima. Isso porque The Riddle of the Sphinx é um genuíno e muitíssimo bem dirigido capítulo de conexões e apresentações importantes para a série.

Todos nós conhecemos a história do enigma da esfinge. E é a versão desse mito da Grécia Clássica, especialmente na peça Édipo Rei, de Sófocles, que o roteiro de Gina Atwater e Jonathan Nolan se baseiam aqui. Nesta versão, a esfinge propunha o decifra-me ou devoro-te (ela na verdade estrangulava os que respondessem errado): “Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?“. Pois bem, aqui, o enigma vem pela boca de uma esfinge bem diferente: James Delos, personagem interpretado de maneira brilhante por Peter Mullan. É a partir dele que temos os primeiros indícios do quê, de fato, está acontecendo no Parque. E sim, estamos falando de algo mais interessante do ponto de vista ético, moral e mais de uma porção de outros pontos, a respeito da prolongação de vida de alguns poucos investidores, através de corpos robóticos, tendo a base da memória humana preservada. E aqui abre-se uma porta que pode nos colocar uma série de novidades em cena, agora com a certeza de que Ford está vivo mesmo. Ou pelo menos a sua memória está. Como desconfiávamos, Deus se manteria vivo através das ideias. Com a Palavra. Com o Verbo (tecnológico) prestes a se fazer carne, repetindo a visão joanina para a presença do Messias na Terra. De alguma forma, ele está voltando, embora nunca tenha partido de verdade.

Mas não é só isso. A direção de Lisa Joy, embalada por Play With Fire, dos Rolling Stones e por Do the Strand, da Roxy Music, baila por todos os cenários, estruturando com grande força duas ameaças ao mesmo tempo: algo que esta temporada ainda não havia mostrado com esse nível de qualidade e com essa quantidade de coisas e personagens levados em conta. Do plano mais longo na abertura (vibe de Lost, no episódio de apresentação de Desmond, alguém?), em um ambiente de fotografia estourando em branco, direção de arte parcialmente minimalista e excelente jogo com a perspectiva do público… até a recolocação de Elsie na série (alguém se incomodou com isso? Eu particularmente não. Na verdade, gostava tanto da personagem, que fiz a minha dancinha comemorativa quando ela apareceu), temos uma interação de linhas narrativas que, além de funcionarem adequadamente, criam ou pavimentam bons caminhos dramáticos para personagens distintos — inclusive jogando com suas ambiguidades. Pensando nisso, a ideia de que Bernard estava com “bloqueio cognitivo” e o fato de as lembranças dele não aparecerem em uma linha do tempo ordenada, significa que este Bernard que a gente está vendo é mesmo mais dos dos muitos possíveis Bernards? A cada episódio parece que conhecemos mais um podre dele e temos mais um motivo para gostar e desconfiar do personagem.

As alternâncias entre tomadas noturas e diurnas são outro grande presente estético, porque indicam, mais do que em qualquer outro episódio até aqui, estados de espírito e atmosferas que prenunciam o que está para acontecer. O clímax disso se dá quando Elsie e Bernard chegam à Impressora da Unidade de Controle e encontram o “Sr. Delos” em um cenário mergulhado em fotografia vermelha e com um cenário (novamente, um bom trabalho da direção de arte!) que nos indica algo muito curioso: não faz tanto tempo assim que o velho Will esteve naquela sala… E ainda temos em andamento o mistério da Ghost Nation (qual é a deles?) e a bomba que nos explica QUEM é Grace (Katja Herbers), mas não O QUÊ ela está fazendo no Parque, de maneira tão determinada, quase suicida, a ponto de recusar ser resgatada e correr para o interior do local, tendo certeza de que iria encontrar o que estava procurando, seu pai, o Homem de Preto. Em nosso ouvido, fica apenas a indicação descarada em um ponto do texto, dizendo que é para a gente prestar muita atenção (e talvez buscar pistas) no passado: “Se você está olhando para frente, está olhando na direção errada“.

Westworld – 2X04: The Riddle of the Sphinx (EUA, 13 de maio de 2018)
Direção: Lisa Joy
Roteiro: Gina Atwater, Jonathan Nolan
Elenco: Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright, James Marsden, Tessa Thompson, Clifton Collins Jr., Luke Hemsworth, Katja Herbers, Angela Sarafyan, Shannon Woodward, Ed Harris, Peter Mullan, Jimmi Simpson, Jonathan Tucker, Zahn McClarnon, Tantoo Cardinal
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.