Crítica | Westworld – 2X07: Les Écorchés

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  • Há SPOILERS do episódio e da série. Leia, aquias críticas dos outros episódios.

Ver um mundo num grão de areia,
E um céu numa flor do campo,
Capturar o infinito na palma da mão
E a eternidade numa hora

William Blake

Dos Augúrios da Inocência, de William Blake, ao segundo movimento da 7ª Sinfonia de Beethoven (acompanhando uma das mais belas cenas de massacre já vistas na TV), Les Écorchés se tornou um impressionante capítulo de revelações e sugestões nessa temporada, com a medida certa entre suspense e aberturas narrativas para o futuro, lembrando-nos um pouco os avanços e apresentações estéticas ou simbólicas de The Riddle of the Sphinx.  O título, em um sentido mais comum, fala sobre “os esfolados”, em visão clássica mesmo, de retirada da pele e camada de gordura para se analisar os músculos ou outras partes de um corpo (humano ou não) normalmente cobertas pela pele.

O sentido disso, no episódio, pode ser tanto de maneira figurada — na forma como Charlotte retira as camadas da memória de Bernard para descobrir o que quer –; ou no sentido real, na forma estranha como Dolores lida com as informações contidas na cabeça do pai, dando talvez o primeiro objetivo narrativo claro de toda a série: temos um objeto em mãos, temos um contexto e uma explicação para ele, sabemos para que serve, sabemos com quem está e quem o quer (e para quê), e sabemos para onde está sendo levado. Demorou, mas enfim temos uma “nova” subtrama ganhando um grande espaço sem necessitar de mais uma linha narrativa ou cenas confusas, com janelas e portas aberturas que só seriam revisitadas no futuro. Não que isso seja, necessariamente, ruim. Mas chega uma hora que cansa.

Adicionando informações ao que conhecíamos do objetivo do Parque, sabemos agora que os anfitriões estão em um loop há 30 anos (pelo visto, um padrão para todos os Parques — assumo também incluam aí a troca de narrativas, até porque o objetivo final é o mesmo, para todas elas) onde registravam e coletavam os comportamentos humanos, as ações, desejos e confissões dos visitantes dos Parques. A relação “intima” e “distanciada” em relação ao homem volta a ser uma preocupação central da série, como no começo da 1ª Temporada, dando maior sentido às ações em relação ao corpo e à alma dos anfitriões e humanos. Como isso nunca foi alheio ao programa (a própria abertura da série é um flerte com o Homem Vitruviano de Da Vinci, logo…), vemos com bons olhos esse aspecto do ciclo delinear-se mais uma vez, agora com um significado maior, em meio ao caos, questionando o livre-arbítrio e explorando o conflito de passagem dos anfitriões para a categoria de humanos (ou algo perto disso), e dos humanos para uma mentalidade maior, onde pudessem viver sem degradar-se, como Delos, só para usar uma frase do próprio Ford.

Ver Anthony Hopkins em cena de novo, e com essa nova linha de mistério o acompanhando, é um presente imenso. O ator apresenta uma face mais cínica, mais professoral até, querendo mostrar alguns caminhos para Bernard, em vez de tomar, ele mesmo, as decisões totais. O paradoxo da consciência é outra coisa que chama a atenção também. Notamos novamente a forma como a direção registrou a alteração de razão de aspecto para o “mundo das ideias”, onde Ford está (estava). Notamos os ângulos utilizados para mostrar Ford, o tipo de iluminação parcial ou levemente difusa que ele recebe e a forma como é mostrado ao longo do episódio, seja em pessoa, através da voz, de reflexos ou de lampejos de consciência e ações do próprio Bernard. Considerando tudo isso, vemos de forma ainda mais interessante quando ele diz que o jogo agora é de Bernard e, ainda assim, toma decisões que considera importantes, como atirar nos soldados, por exemplo.

Ainda estão nos devendo uma explicação sobre a questão da facilidade ou dificuldade de morte dos anfitriões, especialmente agora, que o Berço (CR4-DL) está destruído. A sugestão é que eles estarão mais vulneráveis, mas não perderam a resistência por completo. Isso também quer dizer que estão mesmo acordados? Todos eles? Além disso, ficou em aberto o bloco do Homem de Preto — não creio que ele tenha morrido assim — e o bloco com Maeve. Com um novo destino, a série caminha para o final de sua segunda temporada com uma grande promessa e zero de preocupação com qualquer vida, o que nos garante mais rios de sangue. Quem chegar vivo ao final desse ano, já é um vitorioso.

Westworld – 2X07: Les Écorchés (EUA, 3 de junho de 2018)
Direção: Nicole Kassell
Roteiro: Jordan Goldberg, Ron Fitzgerald
Elenco:Evan Rachel Wood, Thandie Newton, Jeffrey Wright , James Marsden, Tessa Thompson, Ingrid Bolsø Berdal, Clifton Collins Jr., Fares Fares, Luke Hemsworth, Katja Herbers, Louis Herthum, Simon Quarterman, Talulah Riley, Shannon Woodward, Ed Harris, Anthony Hopkins
Duração: 60 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.