Crítica | What Happened, Miss Simone?

estrelas 4

Nina Simone, nascida Eunice Kathleen Waymon, nasceu na Carolina do Norte (EUA), em fevereiro de 1933 e faleceu na França, em abril de 2003. Educada para ser uma pianista clássica e tendo se tornando uma das mais notáveis cantoras e compositoras de seu país em gêneros como R&B, jazz, blues, folk, soul e gospel, Nina teve uma vida extraordinariamente agitada, com momentos de pura glória e momentos de completo desprezo, solidão e anonimato.

O documentário What Happened, Miss Simone? (2015) co-produzido pela Netflix, nos traz a vida dessa artista e ativista pelos direitos civis americana, que chamou a atenção e impressionou a todos desde o seu álbum de estreia, Little Girl Blue / Jazz as Played in an Exclusive Side Street Club (1958). Assinado por Liz Garbus, documentarista já bem estabelecida — tendo sido indicada ao Oscar na categoria em 1998, por The Farm: Angola, USA, e tendo guiado filmes com expressiva recepção e importância nos últimos anos, como Ghosts of Abu Ghraib (2007), Bobby Fischer Against the World (2011) e Com Amor, Marilyn (2012) –, What Happened, Miss Simone? nos leva por uma viagem pessoal e artística através da vida de Nina Simone, focando inicialmente em suas raízes e dando grande atenção para a sua queda depois de alguns anos lutando por questões igualitárias, chegando até a defender o lado mais agressivo e armado da resistência negra.

Apesar de abordar as principais fases da vida da artista, suas performances, os bons e maus momentos, o filme peca bastante por não mergulhar a fundo na produção musical da cantora. Há, no início, alguma coisa a respeito do primeiro disco, mas é só. Muito se falou sobre a relação de Nina com o piano clássico, com Bach, com as manhãs na igreja e a liderança de coro e cultos de avivamento; muito se falou sobre questões pessoais e desequilíbrio emocional, colapso nervoso e retomada de sua carreira ao final da vida; mas a quantidade de informações sobre o processo de criação, gravação e lançamento dos discos, em suma, a obra da artista, quase não aparece no filme, o que é uma pena.

Focado essencialmente nos conflitos de Nina com o marido que a espancava — e é extremamente curioso e incômodo que uma pessoa como ela, que lutava com afinco pelos direitos civis e pela liberdade se submetesse a esse tipo de tratamento em casa –; na sua inicial boa relação com os filhos e o sucesso, o filme traz excelentes trechos de apresentação e preciosas entrevistas com a cantora falando muito abertamente sobre tudo. Isso acaba compensando a ausência de uma abordagem sobre a produção musical, posto que quem acaba conduzindo o filme é a própria Nina. E entre um trecho e outro de suas entrevistas, temos a filha, amigos e o ex-marido, com quem o espectador não consegue simpatizar de jeito nenhum.

Liz Garbus escolhe o período de engajamento político da cantora como o miolo e como parte mais forte do filme. Se por um lado o espectador entende que esse período poderia ser tratado com um menor número de blocos e sem tantos adendos históricos, posto que este ambiente já vinha sendo contextualizado desde o início do documentário, fica difícil não aplaudir a forma e a força com que a luta dos negros americanos por direitos civis é mostrada no longa. “Como ser uma artista e não refletir o seu tempo?” pergunta Nina Simone para um entrevistador. E essa frase ecoa por todo o filme, partindo do comportamento rebelde da artista até a sua linha revolucionária de composição e interpretações, como a icônica e (na época) polêmica Mississippi Goddam, escrita depois do assassinato do ativista Medgar Evers por um membro da KKK, e To Be Young, Gifted and Black, que inspirou centenas de jovens negros a enfrentarem as adversidades, tendo uma bela performance exibida no filme.

Das interpretações projetadas, vale ainda destacar a belíssima versão da cantora para spooky rock de Screamin’ Jay Hawkins chamado I Put a Spell on You (que deveria ter sido estendida até o fim, mas tudo bem). Lá estão também Li’l Liza Jane (cantada por ela no Newport Jazz Festival, em 1960); Strange Fruit (outra forte canção sobre o espancamento de negros no sul dos EUA); e os sucessos My Baby Just Cares for Me e I Loves You Porgy. Mesmo deslocados de sua discografia e mesclados a diferentes fases e eventos da vida da cantora, essas faixas ajudam a dar uma ideia da qualidade musical, alcance e criatividade de Nina Simone, vistas até o seu momento final, no Montreux Jazz Festival, com uma execução emotiva e que muito dizia sobre a sua própria carreira.

What Happened, Miss Simone? não é um documentário tecnicamente criativo, mas apresenta muito bem a vida de uma das mais icônicas personalidades da música americana no século XX. Sua versatilidade ao piano e voz marcante trouxeram uma camada clássica para os gêneros musicais tipicamente americanos, sendo ela uma das responsáveis por mais esse degrau de experimentos e variações entre estilos musicais tradicionais. A mulher e a artista nos são mostradas em momentos de grande fraqueza e perturbação, mas também de muita alegria e liberdade, em uma narrativa ágil que facilmente nos faz entender o por quê Nina Simone conseguiu o seu lugar na História. Ela realmente colocou um feitiço em nós.

What Happened, Miss Simone? (EUA, 2015)
Direção: Liz Garbus
Roteiro: Liz Garbus
Elenco (entrevistas/material de arquivo): James Baldwin, Stokely Carmichael, Walter Cronkite, Stanley Crouch, Gerrit De Bruin, Dick Gregory, Hugh M. Hefner, Elisabeth Henry-Macari, Lisa Simone Kelly
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.