Crítica | White Gold – 1ª Temporada

Machista, preconceituosa, nojenta, inconveniente, babaca, grossa, escatológica, com uma boa dose de sexo, protagonizada por um personagem que é o ponto alto da cafajestagem em seu pior sentido possível (imaginem os personagens dos filmes de Guy Ritchie em seu  começo de carreira e terão uma ideia), repleta de palavrões, cheia de armadilhas musicais oitentistas e baseada em roteiros repetitivos, White Gold é hilária. Sim, hilária.

Os politicamente corretos que me perdoem, mas desde os segundos iniciais do primeiro episódio, em que, ao som de “Gloria”, cantada pela saudosa Laura Branigan (essa versão específica, não tenho vergonha de revelar, é minha música pop favorita), Vincent Swan (Ed Westwick), de cueca vermelha, se veste para trabalhar achando que é o cara mais gostoso do mundo, a curta série da BBC, de apenas seis episódios de 23 minutos, fisgou-me completamente. Passada no começo da década de 80, ela conta a história de vendedores de esquadrias de PVC para janelas de vidro duplo (double glazing) em Essex, Inglaterra, com Swan liderando uma equipe formada por Brian Fitzpatrick e Martin Lavender, vividos, respectivamente, por James Buckley e Joe Thomas, ambos estrelas de The Inbetweeners, série co-criada por Damon Beesley que, não coincidentemente, é o showrunner, diretor e co-roteirista de White Gold.

Não há muito o que elaborar em termos de história, pois a série é extremamente simples conceitualmente. O que interessa é como as falcatruas de Swan tanto do lado profissional, quanto do lado pessoal se desenvolvem. Casado e com filhos, o sujeito é intolerável e incorrigível, correndo atrás de todos os rabos de saia possíveis, sem dó na consciência. Profissionalmente, só ele existe. Seus subalternos – e até seu chefe – são desimportantes se estiverem descolados de seus planos. Lavender é mantido no grupo quase que como um bicho de estimação, por ser notória sua retitude moral que, por consequência, o impede de vender as janelas nos volumes de seus colegas. Já Fitzpatrick é um prodígio nas vendas, capaz de convencer velhinhas a substituir janelas que elas acabaram de substituir.

É divertido ver o choque de personalidades entre Lavender e Fitzpatrick e as interferências de Swan que vão se intensificando bastante até o final, com diversas reviravoltas até bem construídas nesse contexto cafajeste que permeia toda a obra. É como ver o pior que o mundo tem a oferecer encapsulado em um personagem que o espectador tem, ao mesmo tempo, vontade que morra fulminado e que ele dê a volta por cima a cada problema que ele mesmo cria.

No quesito atuação, Westwick ou é um péssimo ou um ótimo ator, sem meio-termo. Sua canastrice extrema (possivelmente – ou certamente? – proposital) resulta em um personagem adoravelmente insuportável, uma caricatura de macho alfa que fará muita gente desligar a TV com alguns segundos de projeção, depois de me xingar mentalmente se tiverem clicado no programa depois de ler a presente crítica. Mas é inevitável: seu estranho charme (ou o charme que ele acha que tem e aí falo tanto do ator quanto do personagem), combinado com roteiros que são centrados em seu personagem resultam em uma bobagem com vários momentos de dar dor no abdômen de tanto rir se o espectador, claro, estiver no espírito correto, ou seja, imbuído de total escracho.

A dupla formada por Lavender e Fitzpatrick, no entanto, é muito boa. Há uma ótima química entre os dois e a forma como cada um dos atores constrói seu respectivo personagem lembra um pouco (só um pouco) a pegada fleumática do sensacional Monty Python em seu inesquecível Flying Circus. Eles, porém, não têm muito espaço para se desenvolverem pela abordagem “Swan-cêntrica”, ainda que, no conjunto, os dois e Westwick formem uma trinca com potencial.

Se, depois de ler meu parágrafo de abertura, você ainda tiver interesse em conferir a série, não se envergonhe, siga em frente. O mundo é bem mais interessante quando desafiamos nossos pré-conceitos e aquilo que a sociedade estabelece como “proibido” ou “inadequeado” o que, aliás, vem se avolumando impressionantemente. Mas isso de forma alguma quer dizer que você gostará de White Gold, pois é uma série que certamente potencialmente ultrapassa todos os certos limites de decência e bom gosto. No entanto, se você gostar, também não significa que você é um cafajeste parecido com Swan ou que concorda com seus atos putrefatos.

Ou pelo menos é isso que repeti a mim mesmo diversas vezes ao longo dos episódios…

White Gold – 1ª Temporada (Reino Unido, de 28 de maio a 28 de junho de 2017 / mundialmente: 11 de agosto de 2017)
Criação e showrunner: Damon Beesley
Direção: Damon Beesley
Roteiro: Chris Neil, Damon Beesley, Joe Thomas
Elenco: Ed Westwick, James Buckley, Joe Thomas, Nigel Lindsay, Linzey Cocker, Lauren O’Rourke
Produtora: BBC (transmissão pela BBC Two)
Distribuição mundial (fora do Reino Unido): Netflix
Duração: 23 min. por episódio (seis episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.