Crítica | Whitechapel – 1ª Temporada

estrelas 3

O mundo em geral, mas os britânicos em particular são fascinados por Jack, o Estripador, o serial killer que atuou no distrito de Whitechapel, no chamado East End de Londres, em 1888, assassinando cinco mulheres com requintes sádicos. A mística da identidade nunca revelada e dos crimes nunca resolvidos é objeto de uma espécie de obsessão mórbida que chega até os dias de hoje, com especialistas, ou “ripperologistas” que continuam tentando solucionar os casos, o que acaba criando teorias atrás de teorias sobre o assassino. E, é claro, o cinema e a televisão fazem a festa com as mais diversas versões dos assassinatos.

Uma delas é a série britânica de TV Whitechapel que, em sua primeira temporada de apenas três episódios de 45 minutos cada, lida com um copycat ou imitador de Jack, o Estripador em plena Londres do século XXI e uma corrida contra o tempo encabeçada pela divisão policial local para impedir os assassinatos. O diferencial desse novo assassino é o grau de obsessão e de minúcias em relação aos crimes originais. Tudo é fielmente reproduzido, desde os cortes cirúrgicos de Jack até eventos que antecederam cada assassinato e os objetos deixados ao lado dos corpos. Nada escapa ao novo matador.

Além disso, o design de produção e a fotografia contribuem para a recriação das terríveis mortes de mais de 120 anos atrás, ao emprestar um verniz anacrônico a tudo que vemos na telinha. Apesar da presença de celulares, dos automóveis e dos prédios modernos, a impressão passada ao espectador é que estamos em algo como uma “Era Vitoriana distópica” em que os elementos atuais existem, mas não são intrusivos o suficiente para nos retirar aquela impressão de passado, de becos escuros em que o Estripador podia agir longe do olhar público, do Big Brother formado pela conhecida rede de câmeras de circuito fechado que, hoje, cerca a cidade. O figurino é, na medida do possível, neutro e escuro, assim como cada elemento cenográfico, seja a delegacia bagunçada, sejam as salas escuras, sejam as ruas sombrias e vazias. A fotografia, usando uma paleta de cores muda, variando no máximo entre o preto e o marrom, deixa o espectador em um estado constante de tensão e inevitabilidade, algo que é aumentado com a direção de S.J. Clarkson que tenta trazer elementos de filmes de terror para dentro da narrativa quase que puramente policial. O mesmo vale para a trilha sonora composta por Martin Phipps e Ruth Barrett, que amplifica a sensação de horror, sendo sincronizada de maneira inteligente pelo diretor, que também recorrer à transições bruscas para capturar o nervosismo e a velocidade necessária á investigação.

Em termos de personagens, o foco fica no inspetor novato Joseph Chandler (Rupert Penry-Jones), que basicamente entra “pela janela” na equipe policial comandada pelo veterano oficial de polícia Ray Miles (Phil Davis) e que acaba recrutando a ajuda não-oficial de Edward Buchan (Steve Pemberton) um “ripperologista” que vive de fazer tours guiados noturnos pelos locais dos assassinatos e de vender seu livro sobre o misterioso assassino. Joseph e Ray, claro, batem de frente, com o segundo minando fortemente o primeiro, que não tem alternativas que não recorrer a um ansioso Edward, sempre pronto para ajudar com as teorias mais complexas sobre quem pode ser o novo assassino. A dinâmica funciona, ainda que, mesmo em apenas três episódios, ela acabe sendo repetitiva.

O grande problema da temporada é mesmo sua velocidade. Partimos de um assassinato que aparentemente é apenas mais um e da chegada de Joseph na equipe, para a formação de uma grande caçada em Whitechapel pelo vilão. As conexões com Jack, o Estripador são bem apresentadas e construídas, mas, a partir do ponto em que a investigação envereda por esse caminho, tudo move no fast forward, sem que haja tempo para que os eventos se encaixem naturalmente. E, nessa correria, não só os personagens perdem sua importância, como qualquer pessoa minimamente suspeita já é tragada para a delegacia para interrogatórios, o que mais uma vez cria repetições danosas à estrutura narrativa original.

Sei que sou um dos primeiros a dizer que séries precisam ser mais curtas e não mais longas (vide minhas reclamações rabugentas aqui), mas Whitechapel é curta demais para a história que pretende contar sem que se perca a dinâmica entre os personagens e sem que coincidências exageradas acabem funcionando como artifícios corriqueiros dos roteiros sejam usadas. Com isso, o ritmo imposto para a solução dos crimes acaba atropelando o ritmo natural do desenvolvimento da relação humana existente, o que acaba dando muito mais relevância ao resultado do que a forma pela qual ele é alcançado. Claro que a ótima atmosfera que mencionei acima ainda retira Whitechapel do lugar-comum de série investigativa, mas por muito pouco. Se pelo menos os episódios fossem no formato de longas-metragens como no caso de Sherlock, haveria mais tempo para respirar, mas infelizmente não é o que se vê aqui.

Whitechapel, apesar dos pesares, é competente e interessante, algo que, claro, se deve também ao fascínio por tudo relacionado ao misterioso Jack, o Estripador. Mas, diferente, do serial killer, a série será bem mais facilmente esquecida.

Whitechapel – 1ª Temporada (Reino Unido, 2009)
Direção: S. J. Clarkson
Roteiro: Ben Court, Caroline Ip
Elenco: Rupert Penry-Jones, Phil Davis, Steve Pemberton, Christopher Fulford, Johnny Harris, Sam Stockman, Paul Hickey, Sally Leonard, Simon Tcherniak, Branko Tomović, Sophie Stanton, Jane Riley, Ben Loyd-Holmes
Produtora: Carnival Films
Disponibilidade no Brasil (na data de elaboração da crítica): Netflix
Duração: 135 min. (aprox. – 3 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.