Crítica | Why Art?

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Como você retrataria o nada? Essa é uma pergunta que sempre faço para as pessoas que me perguntam sobre um dos quadros mais importantes [e polêmicos] da história da arte: Quadro Negro de Kazimir Malevich.

O artista russo — que fez parte de diversos movimentos da História da Arte, entre eles o Suprematismo e o Construtivismo — era um niilista fervoroso e queria transmitir visualmente a ideia de vazio, inexistência ou até de um buraco sem limites nem profundidade delimitada que absorve o mundo inteiro. Malevich tinha diversas formas visuais à sua disposição para retratar sua falta de fé na humanidade, porém, dentre todas, ele escolheu a mais inusitada: um quadrado preto.

Uma das coisas que mais me encanta no quadro centenário é a forma com que ele convida o seu público para uma jornada de reflexão. A obra de Malevich não nos entrega respostas, muito pelo contrário, ela nos instiga a refletir sobre seu significado de forma tão assídua que acabamos nos encontrando com sua razão quase que de forma acidental. O “nada” de Malevich chega para os seus espectadores quase como uma desistência da reflexão, é como se, depois de tanto pensar, o “nada” é a única resposta aceitável para o que está em nossa frente.

Começo essa crítica com essa reflexão pois o quadrinho Why Art? escrito pela gigante Eleanor Davis nos convida a trilhar um caminho muito parecido com o que acabei de narrar acima.

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Eleanor Davis se propõe a responder uma pergunta muito complicada no seu quadrinho. Seu título nos indaga sobre algo que muitos filósofos e historiadores já se propuseram a responder em livros teóricos muito maiores. Além disso, o “Porquê” da arte parece ser algo sempre muito subjetivo, principalmente no período contemporâneo, em que as cercas que delimitavam a História da Arte foram quebradas e a liberdade estética e filosófica agora reinam.

A autora tem uma estratégia interessante para iniciar sua argumentação. Antes de responder sua pergunta inicial, Davis irá explicar para o seu leitor o que ela considera como arte. Sua definição passa por diversos fatores e entre eles estão as cores — que a ilustradora diz ser a expressão primária das artes. Depois das cores, ela irá nos mostrar muitas outras manifestações: pintura, escultura, os happenings e a performance. É nessa última que ela irá pautar quase toda a sua história.

A narrativa começa quando Eleanor Davis apresenta um grupo de artistas contemporâneos que está organizando uma mostra com seus trabalhos. Durante a exposição, catástrofes acontecem e uma mão gigante acaba invadindo a galeria. É aqui que começa um festival de metalinguagens. Não entrarei em detalhes sobre o que acontece em toda a trama pois se desse um spoiler dela estaria cometendo um crime para com a reflexão da autora. Mas acho que cabe relatar que as metalinguagens utilizadas estão longe de ferir a sua reflexão final, muito pelo contrário, os caminhos da trama emocionam e corroboram muito com a jornada do leitor.

Toda essa história é ilustrada por páginas extremamente bem pensadas — Eleanor Davis já é conhecida por ter quadrinhos com um acabamento gráfico bem executado e Why Art? não é uma exceção a essa regra. Vemos muitas páginas com um grande espaço em branco, as ilustrações são colocadas em lugares estratégicos, sempre contribuindo para o que a narrativa tem a dizer. Até os textos são inseridos de uma forma muito semelhante dos textos explicativos que ficam ao lado das obras em museus e galerias.

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Os espaços em branco também fazem com que o quadrinho de 200 página seja uma leitura rápida, o que é muito bom, pois a história elaborada por Davis não deve ser lida apenas uma vez e descartada logo em seguida. Diferente do que estamos acostumados hoje, em que lemos um livro ou quadrinho e logo passamos para o próximo, a trama de Davis passa rápido, mas fica por muito tempo na mente de quem a lê.

As linhas finas do traço da artista nos dão uma impressão de fragilidade e insegurança, sensações que irão ser de extrema importância para a narrativa. Até o Quadro Negro, citado no começo da crítica, aparece em um determinado momento do quadrinho. Essa aparição está longe de ser algo feito no acaso. É nessa página que Davis finca a sua intenção com toda a história.

No começo da crítica comentei sobre como Malevich decidiu representar o “nada” em sua arte, e acredito que Why Art? é a forma que Eleanor Davis encontrou para representar a importância da arte para a vida humana. Em nenhum momento a artista entrega respostas para o seu leitor, muito pelo contrário, no final do quadrinho nós nos encontramos com mais dúvidas do que respostas.

Why Art? é um quadrinho que começa com uma pergunta, e nos entrega uma jornada de reflexão que irá culminar em um número ainda maior de questionamentos. No final, a artista atinge seu objetivo e entrega algo que nos tira de nossa zona de conforto e nos faz refletir sobre as fragilidades de nossa existência, afinal, não são esses os maiores objetivos da arte?

Why Art?— EUA, 2018
Roteiro: Eleanor Davis
Arte: Eleanor Davis
Letras: Eleanor Davis
Editora: Fantagraphics Books
200 Páginas

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".