Crítica | WildC.A.T.s: Covert Action Teams #1 a 4 (1992)

estrelas 2

WildC.A.T.s é o quarto título do primeiro ano da Image Comics, formando com Youngblood, Spawn e The Savage Dragon o conjunto de publicações iniciais da editora que, meses depois de sua criação, já havia amealhado 10% do mercado americano de quadrinhos, chegando a ultrapassar momentaneamente até mesmo a DC Comics. Foi, sem dúvida, alguma, um momento divisor de águas nessa indústria, que abriu espaço de verdade para criações independentes e mostrou que as Big Two poderiam realmente sofrer concorrência séria, algo que continua até hoje, com a Image firme e forte como uma das melhores editoras americanas por aí.

Mas esse começo da Image foi muito mais forma sobre substância, com histórias mais voltadas para a pancadaria generalizada do que para construção de personagens. Isso mudaria com o tempo, mas títulos como Youngblood e o próprio WildC.A.T.s não mudariam tanto assim. Aliás, é interessante ver o caso de WildC.A.T.s, originalmente co-criação de Jim Lee e Brandon Choi, como um exemplo de movimento pendular nessa indústria. Jim Lee saiu das grandes editoras para co-fundar a Image, mas, com o tempo, sua Wildstorm Productions (cada autor tinha uma empresa e a Image era um selo “guarda-chuva”) e especialmente WildC.A.T.s foram comprados pela DC Comics, com o próprio Lee gerenciando seu selo a partir da DC. Com o tempo, ele tornou-se um dos nomes mais importantes da DC Comics, sendo alçado a co-editor, sendo que ele foi um dos arquitetos do projeto Novos 52. Da indústria, ele passou para independente e voltou para a indústria, levando suas criações com ele.

WildC.A.T.s, no entanto, teve uma vida razoavelmente longa ainda na Image Comics, sendo publicada até a edição #50 e seu começo se deu na forma de uma minissérie inicialmente programada para durar três números, mas que acabou sendo expandida para quatro em meio a atrasos constantes. A numeração, a partir dali, começou na edição #5, sem ser zerada.

Nessa minissérie, a palavra de ordem parece ter sido “mixórdia”. Lee e Choi não demonstram qualquer auto-controle na criação de um caminhão de personagens genéricos que fazem parte de grupos diferentes e que, obviamente, lutam entre si da primeira à última página. E, como se isso não fosse suficiente, há, ainda, participação especial do Youngblood, o que só adiciona mais personagens permutáveis entre si na bagunça que é essa minissérie inaugural, mais preocupada em criar uma pseudo-complexa mitologia bíblica própria do que fazer algo agradável de se ler. São intermináveis balões de explicações, diálogos e introduções que poluem a bela – mas aqui muito elétrica demais – arte de Jim Lee e retiram o prazer de se acompanhar a missão do grupo WildC.A.T.s comandado por um anão que é a encarnação de Lorde Emp, um dos líderes da raça Querubim, que tenta impedir que Helspont, líder na Terra da ração dos Demonitas, abra um portal para sua dimensão/planeta/galáxia para permitir a invasão de nosso planeta.

Não conseguimos simpatizar com absolutamente nenhum dos heróis criados por Lee – Espartano, Lacuna, Devota, Bandoleiro, Vodu, Warblade e Marreta -, pois eles apenas “estão” na minissérie, jamais ganhando relevo ou algum tipo de narrativa que fuja dos chavões clássicos de personagens rasos. E eles são, apenas, a ponta do iceberg, pois há outro grupo inteiro rival, mas não tanto comandado por Lorde Gnomo e o pessoal do Youngblood para atrapalhar ainda mais a fluidez. Não há sequer espaço para Lee trabalhar todo o potencial de sua arte, o que poderia ter sido um diferencial aqui como é em Batman: Silêncio. Aliás, justiça seja feita, apesar da arte de Lee ser obviamente muito melhor do que a de Rob Liefeld em Youngblood, o roteiro de Lee e Choi consegue ser ainda pior do que o de Liefeld, o que já é uma tarefa complicada, justamente  por atirar para todos os lados sem acertar o alvo de verdade. Afinal, se o endgame da história é só contar a luta de raças milenares rivais na Terra, algo lugar-comum nos quadrinhos, eles não precisavam de tantos personagens e de tanta pretensa complexidade do tipo “nariz em pé” que eles vomitam nesse começo e isso sem contar com um final deus ex machina duplo daqueles de doer. São apenas quatro números, mas que parecem 20 ou 30 de tão cansativos e repetitivos. Em uma palavra apenas: CHATO.

A minissérie inicial de WildC.A.T.s é a típica história padrão dos anos 90. Heróis e vilões genéricos e espalhafatosos guerreando entre si sem qualquer profundidade. Há uma fracassada tentativa de se colocar um verniz de sofisticação aqui, mas tudo que Lee e Choi conseguem é tornar a narrativa arrastada e enfadonha, complexa apenas para quem se impressiona com pouco.

WildC.A.T.s: Covert Action Teams #1 a 4 (Idem, EUA – 1992/3)
Roteiro: Jim Lee, Brandon Choi
Arte: Jim Lee
Arte-final: Scott Williams
Cores: Joe Rosas, Joe Chiodo
Letras: Michael Heisler
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: agosto de 1992 a março de 1993
Editora no Brasil: Editora Globo
Data de publicação no Brasil: setembro a dezembro de 1996
Páginas: 36 aprox. por edição

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.