Crítica | “Wilder Mind” – Mumford & Sons

estrelas 3

Quando, em 2013, Mumford & Sons venceu o Grammy de álbum do ano com Babel (2012), pode-se dizer que a banda impulsionou um estilo musical que se tornaria extremamente genérico e popular, apreciado tanto pela crítica e a indústria como pelo grande público. Após anos de valorização de sintetizadores, eletrônicos e outros artifícios da música pop, o grupo inglês passa a sugerir um folk que enaltece os instrumentos acústicos (com destaque especial para o banjo) e canções mais orgânicas. Além de dar mais espaço para bandas do crescente cenário indie, alternativo e folk que também seguiam esse estilo, o sucesso de Babel acabou igualmente presente em outros gêneros musicais — como o próprio pop e o eletrônico.

Em Wilder Mind, Mumford & Sons tinha a tarefa árdua de consolidar o folk que os trouxe o sucesso com alguma inovação que exibisse outra faceta da banda, expondo, após dois álbuns de muito banjo, acordeom e músicas mais leves, sua versatilidade. A banda inglesa saiu de sua zona de conforto? Sim. Agora, se essa mudança foi executada da melhor forma, já é outra questão. Trocando os instrumentos acústicos pelas guitarras elétricas e sintetizadores, o grupo inglês consegue criar uma ou outra faixa sólida e materializar um álbum agradável, todavia acaba pecando na originalidade.

A excentricidade que, de certa forma, proporcionou o êxito da Mumford & Sons não está ausente apenas nos ritmos. As letras são superficiais e não trazem nenhuma inovação ao apostar, novamente, nas consequências do fim de um relacionamento amoroso. Somado às melodias nada singulares — qualquer um que já tenha ouvido U2, Bruce Springsteen ou Snow Patrol perceberá a semelhança desses artistas com Wilder Mind — temos um álbum em que o único diferencial é a voz do vocalista Marcus Mumford (esse sim teve, de fato, um amadurecimento em sua função). Em suma, a mudança interna quando comparada aos outros dois discos anteriores foi necessária e razoável. Já quando colocada em xeque com outros nomes da música, não podemos dizer o mesmo. A atuação de James Ford (já trabalhou com, entre outras, Arctic Monkeys e Florence + The Machine) e Aaron Dressner (guitarrista do The National) como produtores proporcionou uma alteração que difere do que o grupo havia produzido anteriormente; entretanto, é extremamente similar ao que já tivemos a oportunidade de presenciar no mundo do pop e do rock.

A abertura de Wilder Mind com Tompkins Square Park e Believe introduz de modo ameno a nova fase da banda. Aqui percebemos que Mumford & Sons ainda não perdeu totalmente sua essência de raízes no folk — na realidade, se a guitarra elétrica fosse trocada pelo banjo, as canções poderiam facilmente pertencer aos discos anteriores. Também são as primeiras faixas que mais se assemelham com outros nomes conhecidos (em especial, os citados no parágrafo anterior). O proêmio de Wilder Mind anuncia a promessa de um tom de esperança tanto para o casal protagonista das canções quanto para os ouvintes. Infelizmente, tal enfoque que poderia desembocar em algo mais interessante, acaba se perdendo ao longo do álbum, devido aos conflitos um tanto repetitivos de um eu lírico inconformado, que não confia nem em si e nem na sua amada (percebam o tom inevitavelmente piegas e superficial a qual as letras são dirigidas).

The Wolf, uma das maiores apostas do grupo em sua nova fase — visto que foi um dos primeiros singles lançados de Wilder Mind — acaba sendo uma música somente satisfatória e que não chega a causar empolgação. O ritmo mais agitado (pouco usual no repertório clássico da Mumford & Sons) acaba enfrentando o mesmo empecilho já citado previamente: dá a impressão de ser algo que já ouvimos anteriormente em outra banda. E não é diferente com as próximas faixas: uma de nome homônimo ao disco e Just Smoke, as mais fracas de Wilder Mind e totalmente esquecíveis.

As introspectivas Monster, Broad-Shouldered Beasts e Cold Arms acabam retomando um pouco de Sigh No More (2009) e Babel com uma batida mais leve e uma base que lembra o acústico (que era) característico do grupo — acredito que o banjo cairia muito bem nessas músicas, que acabaram figurando a sensação de que faltava algo. Vale destacar os arranjos de guitarra de Cold Arms, um dos melhores do álbum e que mostra que, apesar da escolha equivocada da mudança, eles são bons artistas e instrumentistas.

Todavia, o momento de instropecção não é definitivo, e temos mais composições de ritmo agitado, dançante e acelerado, tais quais Snake Eyes e Ditmas, músicas que fogem bastante daquilo que estávamos habituados a ouvir de Mumford & Sons. Bem mais voltados para o pop, com o abuso de sintetizadores e eletrônicos, elas nos fazem questionar se Wilder Mind é uma real necessidade de mudança ou um instrumento para easy money.

Apesar da excedente quantidade de adversidades, o disco fecha com faixas que são, no mínimo, interessantes — não que isso seja, necessariamente, algo positivo. Only Love acaba resumindo a dualidade presente no álbum ao apostar no início leve e calmo para uma transição brusca para o pop rock em sua metade. Já Hot Gates, apesar da última, poderia ser o modelo para Mumford & Sons seguir em sua nova fase. Consolidando de maneira extremamente funcional o estágio folk da banda com a ausência de instrumentos acústicos, a faixa é uma das poucas de Wilder Mind que supera o agradável e rompe com a superficialidade.

Superficialidade. O maior problema da mudança de Mumford & Sons foi esse. O incômodo não reside na transição do banjo para a guitarra elétrica — que poderia ser bem executada — e sim na falta de naturalidade com que essa remodelagem foi feita. Quando, no Brasil, a Tropicália inseriu e apresentou o impetuoso instrumento para o público, causando o espanto de muitos, existia um propósito. Não que o grupo inglês precise ter a pretensão de revolucionar a música; todavia, faltou um objetivo, uma explicação para a transfiguração da essência de suas composições. Se, em muitas das faixas de Wilder Mind temos a impressão de que ficou faltando o banjo, isso significa que a mudança de Mumford & Sons foi, de fato, rasa, a ponto de não percebemos uma confiança nessa nova fase da banda.

Os vencedores do melhor álbum do Grammy de 2013 já mostraram, em seus dois primeiros álbuns, que têm muito a oferecer à indústria musical. A incessante necessidade de novidades demandada pelo público, devido à era do descartável em que vivemos, acaba encurralando artistas e os impondo decisões que, muitas vezes, não são as mais ideais. Efetivamente, a mudança e a reinvenção podem ser positivas, mas demandam certo nível de amadurecimento. Mumford & Sons pode não ter acertado dessa vez, porém a experiência é válida para que o grupo encontre a melhor trajetória de maneira a exibirem sua versatilidade e talento.

Aumenta!: Hot Gates
Diminui!: Wilder Mind
Minha canção favorita do álbum: Cold Arms

Wilder Mind
Artista: Mumford & Sons
País: Reino Unido e EUA
Lançamento: 4 de maio de 2015
Gravadora: Gentleman Of The Road, Island Records e Glassnote Records
Estilo: Rock Alternativo, Indie Rock, Pop Rock

 

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.