Crítica | Winnetou 1: A Lei dos Apaches

winnetou

estrelas 3

Karl May, o criador de Winnetou e Old Shatterhand, foi e é um dos mais conhecidos e adorados escritores alemães de todos os tempos. Nascido em uma família pobre e tendo estado preso durante oito anos de sua vida, o escritor é famoso por suas grandes sagas, pela atenção que deu às aventuras de alto gosto popular e pela mistura de imaginação narrativa e amizade entre os povos em seus livros, nos quais sempre utilizava elementos folclóricos, lendas dos povos retratados e acuradas descrições geográficas.

Contemporâneo de “malucos” como Wagner e Nietzsche, May encarnava uma personalidade sempre em superlativo, colocando-se como um grande conhecedor do mundo e apto às mais diversas proezas, elementos que ele trazia de seus próprios personagens mas que não condizia com a realidade*. Todavia, o autor desbravou em suas páginas as mais diversas terras e lugares selvagens, tornou popular e interessante o mundo do faroeste antes mesmo do cinema, tudo isso sem nunca sair da Saxônia, sua terra natal.

A Lei dos Apaches é o primeiro filme da Trilogia Winnetou, dirigida por Harald Reinl. A aventura é completada por A Saga Continua (1964) e A Trilha dos Desalmados (1965), todos eles com os atores Pierre Brice e Lex Barker nos papéis principais.

Neste A Lei dos Apaches, temos o confronto entre tribos indígenas rivais (Apaches e Kiowas) e o cenário de corrupção e morte que envolve a construção da ferrovia, enredo que mistura elementos de histórias de conflitos indígenas e histórias da Union Pacific, dois dos caminhos temáticos básicos do western. Entre conflitos humanos, hábitos culturais, morte, traição e surgimento de novas amizades (onde se destaca, claro, a relação entre Winnetou e Old Shatterhand), o roteiro de A Lei dos Apaches se constrói como um quase conto de fadas do Velho Oeste, com direito a mistérios, deslocado humor e, como não podia deixar de ser, tragédia.

Filmado em belíssimas locações na Croácia (Parque Nacional dos Lagos de Plitvice, região histórica de Rastoke, cadeia de montanhas Velebit — a mais alta da Croácia –, etc.), o longa tem toda a identidade característica dos faroestes europeus, com predileção pela discussão da humanidade dos personagens, problematização cultural e não demonização do índio (que nos Estados Unidos veria um honesto representante em Dança com Lobos), humor e sexualidade expostos de uma forma quase clandestina na trama (o personagem de Lord Tuff-Tuff me lembrou bastante o protagonista de Algie, the Miner, que, apesar de não ser um filme europeu, foi dirigido por uma diretora europeia) e quase inacreditável exploração do espaço geográfico em favor da história — embora entendamos que este não é um privilégio dos euro-westerns, basta nos lembramos de filmes como No Tempo das Diligências (1939), E o Sangue Semeou a Terra (1952) e Da Terra Nascem os Homens (1958), só para citar alguns bons representantes nesse quesito “geografia + enredo” fora do Velho Continente.

Talvez por ter uma caraterística fabular, o roteiro de Harald G. Petersson tenha pouca expressão em pontos narrativos principais a serem explorados e resolvidos. O filme tem um início confuso e seu desenvolvimento peca bastante ao tentar equilibrar os vários blocos cênicos, como a saga de Winnetou, a fuga de Santer e sua gangue, as peripécies de Lord Tuff-Tuff, o espaço dos Apaches e os outros pequenos dramas que são abertos com o passar do tempo.

Harald Reinl teve um cuidado todo especial ao dirigir as tomadas externas, especialmente das cenas de luta e cavalgadas. As sequências nas montanhas são realmente notáveis, não só pela precisa direção como também pela montagem de espetáculo e pela bela fotografia naturalista de Ernst W. Kalinke.

Com um elenco de protagonistas bem afiado, coadjuvantes um pouco forçados e roteiro um tanto trôpego, apesar de interessante, A Lei dos Apaches é um início aceitável para a Trilogia Winnetou. O filme possui muitos pontos positivos, especialmente técnicos, e consegue facilmente se segurar, apesar da narrativa falha. O espectador, no entanto, estará diante de uma fita de extrema beleza e excelente localização dos índios e homens brancos em um cenário que mais parece um sonho, o que a torna um pouco difícil de ser vista como uma obra ambientada na Terra do Tio Sam (e isso não é um nada negativo!), seja pela temática que nos apresenta, seja pelo cenário natural tão diferente das pradarias e desertos norte-americanos.

* O nível de invencionice do escritor era tal que, certa vez, ao responder a carta de um leitor, eis o que ele afirmou: “Falo e escrevo francês, inglês, italiano, espanhol, grego, latim, hebraico, romeno, seis dialetos árabes, persa, dois dialetos curdos, dois dialetos chineses, malai, namaqua, alguns idiomas sunda, suaíli, hindustão, turco, e as línguas indígenas dos sioux, apaches, comanches, snakes, uthas, kiowas, além do ketschumany, três dialetos sul-americanos. Não quero incluir aqui o lapão.“.

Winnetou 1: A Lei dos Apaches (Winnetou – 1. Teil) – Alemanha Ocidental, Iugoslávia, Itália, 1963
Direção: Harald Reinl
Roteiro: Harald G. Petersson (baseado na obra de Karl May)
Elenco: Lex Barker, Pierre Brice, Marie Versini, Mario Adorf, Walter Barnes, Chris Howland, Ralf Wolter, Milivoje Popovic-Mavid, Dunja Rajter, Niksa Stefanini, Branko Spoljar, Husein Cokic
Duração: 101 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.