Crítica | Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom

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estrelas 5,0

Confessarei minha ignorância logo de início: não fazia ideia da dimensão da revolução ocorrida entre o final de 2013 e começo de 2014 na Ucrânia. Sim, acompanhei nos jornais e sim, conhecia perfunctoriamente o resultado que tem repercussões até hoje com a invasão soviét… digo, russa na Crimeia.

No entanto, provavelmente por minha culpa, mas também certamente em razão das cada vez mais insipientes, rasas e descompromissadas coberturas jornalísticas ditas sérias, muito do que efetivamente aconteceu nos 93 dias em que a população ucraniana de Kiev e de outras cidades ao redor tomou a praça Maidan e que culminou com a fuga do presidente eleito Viktor F. Yanukovych do país, permaneceu enterrado no perigoso poço profundo da ignorância. E Winter on Fire vem justamente corrigir este erro e desenterrar o horror e a luta do povo ucraniano contra as atitudes ditatoriais de um presidente ameaçado por demonstrações pela liberdade.

Trabalhando com uma colagem de filmagens feitas por celular e outras mais profissionais colhidas no local durante a manifestação, o diretor Evgeny Afineevsky consegue criar uma narrativa em arco que geraria inveja em muitos diretores de ficção por aí. Em termos comparativos, Winter on Fire é a versão 2.0 de The Square, documentário que abordou a revolução egípcia literalmente enquanto ela acontecia. Quando digo 2.0 é em razão  do material mais amplo que Afineevsky reúne aqui, criando um quadro ainda mais violento e massacrante do que podemos ver no trabalho de Jehane Noujaim durante a tomada da praça Tahrir no Cairo. Winter on Fire funciona como denúncia, como aula de História e também como um filme de ficção que, infelizmente, é a mais pura realidade, com personagens, tragédias, traições e violência extrema. É um daqueles documentários que deixará o espectador sem sono e com a cabeça a mil depois que os créditos começarem a rolar.

Começando com a quebra da palavra do presidente Yanukovych que fora eleito (pela segunda vez, já que a primeira foi eivada de vícios que levaram ao cancelamento da eleição) sob a bandeira de aproximação do país com a União Europeia e que, então, se recusou a assinar o tratado que prometia trazer o país de verdade para o lado do Ocidente e da prosperidade, o documentário acompanha um pequeno grupo de pessoas – jovens em sua maioria – que resolve se reunir pacificamente na praça Maidan, a maior e mais importante de Kiev, para protestar. O que começa com um pedido ao presidente para voltar atrás em sua posição pró-Rússia de Putin, transforma-se em uma guerra campal na medida em que a história evolui e depois que a polícia especial reprime violentamente os manifestantes com ajuda de mercenários.

No lugar de fugirem assustados, porém, a juventude ucraniana – que poderia muito bem dar uma lição ou duas sobre como fazer manifestações para um certo povo ao sul do equador – expande sua atitude e, ainda mantendo uma postura pacífica, parte para trazer mais gente, muito mais gente para seu lado. Um movimento que começa com um objetivo, então, torna-se algo mais amplo, muito mais importante, que mexe com o tecido da dignidade da população. Jovens, adultos, idosos, religiosos e ex-militares reúnem-se em uma maravilhosa e emocionante massa em um movimento de direitos civis sem precedentes no país, ainda tão próximo da opressão que sofrera durante décadas sob regime totalitarista.

O espectador, porém, não deve esperar uma contextualização política ampla e equilibrada. Winter on Fire reflete apenas a visão dos revolucionários plantados ali na praça durante pouco mais de três meses debaixo de um inverno rigoroso e de uma repressão mais rigorosa ainda. A posição tomada é “ou Ocidente ou morte”, em uma evidente demonstração de múltiplas gerações sobre o fracasso fragoroso do regime soviético.

Da mesma forma, o espectador não deve esperar algo pouco gráfico ou “distante”. As câmeras estão no seio da revolução e posicionam o espectador no meio da força especial policial tentando desfazer os manifestantes de braços dados ao redor do monumento central da praça, assim como também quando a luta se torna uma guerra aberta, desregrada e absurdamente desigual. As mortes acontecem diante das câmeras para que fique mais do que claro o ponto que Afineevsky quer fazer. E não, não há nada de mau gosto aqui. São imagens necessárias, urgentes, literalmente tudo aquilo que deixamos de ver ao acompanhar a história pelos meios “normais”. Winter on Fire, assim como The Square, é História acontecendo; é material que nossos filhos lerão – provavelmente um mísero parágrafo, infelizmente – em livros didáticos quando estudarem o ocorrido nas escolas, mas que estará disponível a todos em detalhes graças aos esforços do diretor do documentário e do Netflix, que está mais uma vez por trás de uma grande obra, de uma grande e dolorosa história.

Winter on Fire retira da ignorância com um choque elétrico quem, como eu, tiver apenas uma lembrança vaga de uma certa “manifestação” acontecida ali em algum país da Europa oriental. É obra obrigatória, essencial, que não deixará ninguém indiferente.

Winter on Fire: Ukraine’s Fight for Freedom (Ucrânia, Reino Unido, EUA – 2015)
Direção: Evgeny Afineevsky
Com: Bishop Agapit, Serhii Averchenko, Kristina Berdinskikh, Pavlo Dobryanskyy, Valery Dovgiy, Bogdan Dubas, Kurganskyi Eduard, Mykhailo Havryliuk,  Natan Hazin
Duração: 102 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.