Crítica | “Wish You Were Here” – Pink Floyd

estrelas 5,0

De acordo com a revista estadunidense Rolling Stone, Pink Floyd está entre as 100 melhores bandas da história da música. Wayne Coyne, vocalista da banda The Flaming Lips e autor de alguns artigos da revista, caracteriza o grupo como “a banda mais criativa e interessante já existente, principalmente devido ao fato de terem feito o que queriam sem necessidade de se preocupar com as regras, ou com a indústria musical — que ficava cada vez mais forte na época“.

Um dos principais álbuns da Pink Floyd é o nono, Wish You Were Here, lançado em 12 de setembro de 1975, sucedendo o multi-platinado The Dark Side of The Moon. Além de levar a preferência de muitos fãs, Wish You Were Here também é o favorito do antigo tecladista Richard Wright e do vocalista David Gilmour. Compondo uma das principais obras da banda, o disco trouxe o Pink Floyd de volta às suas raízes, buscando o lado humano que lhes faltava — já que, com o sucesso decorrente dos álbuns anteriores, muitos integrantes acabaram se desgastando, se tornando arrogantes e mesquinhos, “perdendo todo o seu lado humano”, como David Gilmour declarou anos depois.

Mais do que resgatar suas origens, Wish You Were Here é um tributo ao ex-vocalista, ex-guitarrista e fundador do grupo, Syd Barrett, que compôs a maioria dos primeiros sucessos do Pink Floyd, sendo expulso em 1968 por perder a sanidade. Em distintas composições, a banda consegue retratar a saudade pelo antigo Syd, descrever sua personalidade e mostrar sua exposição à mídia — também criticando, deste modo, a indústria musical pela imposição de uma maneira de ser, criando uma homogeneização de seus “produtos”, e os empresários e as grandes gravadoras pela maneira como trataram suas bandas.

Wish You Were Here consegue mostrar a eloquência da banda na medida em que mistura músicas com letras bastantes críticas e que fugiam do padrão da época, e outras que simplesmente não possuem letra. Essas últimas, embora executadas com maestria — muitas nos levam a experiências inimagináveis e parecem retomar o psicodélico em referência ao LSD, a droga que levou Syd Barret ao declínio mental — algumas podem parecer muito extensas ou repetitivas para aqueles que procuram um álbum comercial ou mais “padronizado” (afinal de contas, esse disco é bastante extenso). Já para aqueles que se disponibilizam a sentir verdadeiramente essas músicas percebem que, mesmo sem letra, elas conseguem nos provocar uma emoção, de certa forma, incompreensível, com composições que podem ser classificadas como as mais bonitas da banda (e também, é claro, não podemos deixar de mencionar os aspectos técnicos, que são formidáveis). Da mesma forma, vale lembrar que as músicas resgatam o clássico ritmo do rock psicodélico de bandas como The Doors, The Jimi Hendrix Experience e a própria Pink Floyd, em seu início.

A primeira música de Wish You Were Here que chama a atenção por sua letra é Shine on You Crazy Diamond. A canção é um claro tributo à Syd Barrett, e mostra principalmente a saudade do grupo pelo antigo companheiro. A letra consegue um “diálogo” entre David Gilmour e Syd, relembrando quando o antigo membro era criativo e espontâneo, como observado nos trechos “Remember when you were young? / You shone like the Sun / Shine on, you crazy diamond”. Em contraste com o passado de Barrett, Shine on You Crazy Diamond também diz que ele foi uma vítima do estrelato, da fama, da indústria musical, que “seus olhos agora parecem buracos pretos no céu”. Ou seja, Syd alcançou o estrelato muito cedo, e sua criatividade foi corrompida pela indústria musical e a fama, que o levaram às drogas. Na última parte da música, Gilmour mostra seus sonhos e a vontade de sumir, aos poucos, da fama que castigou Syd Barrett de tal maneira.

A segunda faixa com letra, também de grande destaque é Welcome to the Machine, que faz uma crítica dura e direta à indústria musical, empresários, gravadoras e banqueiros que se enriqueciam com base em bandas novas, esquecendo da verdadeira essência da música. A letra começa mostrando o que seria a rebeldia da juventude, a primeira paixão pelo rock: um adolescente que compra uma guitarra acaba “castigando” sua mãe e resolve formar uma banda. Eis que entra a “máquina” para manipular o pensamento desses jovens, projetando que o que eles precisam alcançar é somente o estrelato com base em uma música massificada, feita somente para ser vendida; e a consequente perda de humanidade. Welcome to the Machine também se aplica ao caso de Syd Barrett, uma vez que, a mente criativa dele foi exposta ao estrelato, à fama pela máquina e, deste modo, levando à insolvência da vida do antigo membro da banda.

Outra crítica aos empresários e gravadores em Wish You Were Here está na clássica Have a Cigar, em que o discurso hipócrita desses produtores musicais é retratado e ironizado. Como se a música tivesse virado uma indústria propriamente dita, os empresários prevêem o que o público quer consumir, e as bandas são programadas para isso, ignorando suas criatividades e individualidades; muitos músicos acabam, deste modo, abrindo mão de sua liberdade de criação para ceder àquilo que foi “sugestionado” pelos produtores. Na letra, percebemos que a banda em questão é a própria Pink Floyd — mostrando que nem eles não estão imunes à indústria musical — e o integrante em questão possivelmente é Syd Barrett, já que no início era o líder e Wish You Were Here procura trazer um pouco de sua história. Em trechos como “You’re gonna go far / You’re gonna fly high / You’re never gonna die / You’re gonna make it if you try” podemos perceber o incentivo do empresário à banda, mostrando que podem alcançar a fama caso cedam às imposições da gravadora e participem de vez da indústria. Da mesma forma, no trecho “The band is just fantastic / that is really what i think / Oh by the way, which one’s Pink?” podemos ver o quão hipócrita é o discurso desse produtor, uma vez que ao mesmo tempo em que diz que a banda vai longe e é fantástica, mostra a sua total ignorância sobre ela. Na segunda parte da música o representante da gravadora continua com o discurso hipócrita, incentivando a banda a lançar um álbum, pois “devem isso ao público”, e quanto mais a banda mergulhar na música massificada, mais sucesso terão (como referido na expressão utilizada “Riding in the gravy train”, que significa ganhar dinheiro de maneira fácil).

Em Wish You Were Here temos a música que talvez seja a mais conhecida da história do Pink Floyd. De nome homônimo ao álbum, a música pode resumir o disco por completo, já que resgata as origens da banda, expõe a necessidade de buscar um lado mais “humano” dos integrantes, critica a indústria musical e fala sobre Syd Barrett — elementos que aparecem, de forma isolada, em outras composições. A letra começa indagando se o interlocutor (no caso, Syd) consegue distinguir o Paraíso do inferno, os céus azuis da dor, um cambo verde de um trilho de aço e um sorriso de véu. Nessa época, Barrett já estava praticamente consumido pelas drogas, e esses questionamentos explicitam a confusão na mente do ex-membro da banda, que confundia aquilo que é bom (de quando era são) daquilo que é ruim, que aconteceu no momento em que perdeu a sanidade. Na estrofe “Did they get you to trade / Your heroes for ghosts? / Hot ashes for trees? / Hot air for a cool breeze? / Cold comfort for change / Did you exchange / A walk on part in the war / For a lead role in a cage?”, o “eles” a quem Gilmour se refere claramente são os empresários e gravadoras, que corromperam Syd Barrett, o levando à sua derrocada e o fazendo trocar aquilo que era confortável, bom, seguro pela fama incerta, o obscuro. Na terceira e última estrofe, vemos que Gilmour e os outros membros da banda olham para si e para Syd como “almas perdidas num aquário correndo sobre o mesmo velho chão e com os mesmos medos”. Ou seja, os membros da banda acabaram perdendo seu lado humano, e procuravam resgatar isso — que é a essência do álbum. Desta maneira, encerram com o desejo de que Barrett estivesse com eles nessa jornada, na fuga da fama. Talvez seja essa a música mais conhecida da história da banda; o lamentável é a nova conotação que a letra vem recebendo principalmente pelas novas gerações, que a tratam como uma mera canção romântica — que, na verdade, não é.

Após ouvir e analisar Wish You Were Here fica fácil entender o motivo de Pink Floyd ser uma das maiores bandas da história da música. Conquanto o nível de psicodelia, os instrumentais e a longa duração das músicas possam parecer elementos exagerados em alguns momentos, a perfeição técnica em cada faixa é inegável. A abordagem de temas que, ainda hoje, nos parecem atuais e constantes não poderia ser executada com maior maestria. A indústria musical ainda persiste de maneira forte (com uma grande tendência a crescer ainda mais) e, não obstante, constrói frequentemente outros “Syd Barretts”. Romper tal sistema é extremamente difícil — tanto pela dificuldade em quebrar seus obstáculos como pela tentação que oferece — todavia, não devemos deixar que a mensagem de Wish You Were Here se torne inane, e necessitamos assumir a responsabilidade de buscar e valorizar a música em sua essência, sem mistificação. 

Aumenta!: Wish You Were Here
Diminui!:
Minha música favorita do álbum: Shine on You Crazy Diamond

Wish You Were Here
Artista: Pink Floyd
País: Inglaterra
Gravadora: Estúdios Abbey Road
Lançamento: 12 de setembro de 1975
Estilo: Rock Progressivo

GABRIEL TUKUNAGA. . . . Da Sala Precisa de Hogwarts ao Overlook de Jack Torrence, sempre fui fascinado por lugares inóspitos e indecifráveis — ainda que fictícios. Da paixão ao inexplorado, surgiu a incessante busca pelo lugar de pertencimento. Como não faço questão de resolver esse inconveniente agora, tornei-me um entusiasta que ainda tem a pueril esperança de mudar o mundo. Cinéfilo, admirador dos livros, da História e da política, ainda tento sondar e conhecer mais cada um desses itens que, felizmente, jamais poderão ser totalmente decifrados.