Crítica | Wolf Creek – 2ª Temporada

Depois do sucesso de Wolf Creek – Viagem ao Inferno, em 2005, Greg McLean ganhou carta branca para realizar investimentos mais amplos no campo do audiovisual. Ciente da sua capacidade de causar impacto no público, tamanha a carga trágica de suas produções, o cineasta entregou uma continuação apenas em 2013, quase uma década depois do primeiro filme da franquia do psicopata Mick Taylor, interpretado magnificamente pelo talentoso John Jarratt, ator que consegue imprimir todas as más características possíveis para tornar o seu personagem odiável.

Em 2016, tendo como base a linha de produção contemporânea, isto é, grande parte da criação de narrativas seriadas televisivas baseadas em filmes de sucesso, os realizadores resolveram investir numa minissérie com o personagem em ação. O resultado foi um sucesso. Lançada através da Stan, serviço de streaming australiano, a primeira temporada flertou com o mesmo tema dos filmes: um grupo de desavisados em férias nas perigosas e desérticas estradas australianas sendo trucidados por um maníaco amante da perversidade e da violência gráfica.

Com poucos episódios e foco no desenvolvido dos conflitos dos personagens, a primeira incursão nos mostrou mais uma vez a capacidade de assustar sem fazer uso exclusivo da violência e do gore para prender o público. Por conta dos bons resultados, uma nova temporada foi encomendada, repaginada com uma história de novos integrantes para a lista de Mick Taylor, desta vez, um grupo maior de turistas que terão os seus destinos cruzados com um dos piores contatos na história de suas vidas.

Desta vez, as subtramas são menores e as histórias dos personagens inicialmente deslocadas ganham coesão logo no primeiro episódio, sendo o conflito principal a força que gravita e mantém todos conectados do inicio ao fim. Há o casal em busca de liberdade diante da rotina estressante; há o negro e o casal de homossexuais, a cota política da história, mencionada também nos primeiros momentos da série; as jovens amigas com relacionamento confuso; o casal de meia idade em “revisionismo histórico” do casamento; dentre outros personagens relevantes e bem construídos.

No que diz respeito aos elementos estéticos, a segunda temporada é ainda mais expressiva no uso dos planos gerais. Os enquadramentos cuidadosos representam a fragilidade do grupo de turistas diante de uma geografia espacial que favorece os interesses do algoz. Imagens amplas nos demonstram que o pedido de resgate está bem distante, tal como qualquer outro sinal de civilização. A trilha sonora também é outro elemento favorável, pois a cada momento de intromissão, faz questão de ser discreta, algo diferente dos truques baratos do terror pouco criativo de muitos que tentam pregar sustos óbvios através dos infelizes ferrões musicais.

Em seus seis episódios dinâmicos e diretos, Greg McLean buscou construir mais um momento narrativo para o seu monstruoso Mick Taylor. Sádico, sarcástico e uma aberração humana, o psicopata das estradas australianas não precisa se esforçar muito para causar comoção. Cada trecho seu em cena é capaz de nos embrulhar o estômago, sem necessariamente ter que enquadrar um membro humano em primeiro plano ou aplicar um zoom in numa cena de morte. Os trejeitos, a risadinha diabólica e a crueldade psicológica já são suficientes, haja vista a sua capacidade de nos causar arrepios.

O criador da série entende de monstros. Além do famigerado Mick Taylor, o realizador também investiu numa aventura sangrenta baseada numa história supostamente verídica em terreno australiano, envolvendo um crocodilo de enormes proporções. Ciente do poder dos monstros em cena, Greg McLean também se deu muito bem com a fera assassina, mas é na seara da “monstruosidade humana” que ele consegue extrair o melhor em recursos dramáticos. Que venha a terceira temporada, pois a segunda se mostrou ainda mais impactante que a primeira. Com situações assim, a indústria cultural deveria não pensar duas vezes em investir. Vamos aguardar, enquanto isso, o que acha de revisitar ou dar a primeira oportunidade aos dois filmes, caro leitor?

Wolf Creek – 2ª Temporada (Austrália, 2017)
Showrunner:  Greg McLean.
Direção: Greg McLean.
Roteiro: Greg McLean.
Elenco: John Jarratt, Adam Fiorentino, Ben Oxenbould, Charlie Clausen, Chris Haywood, Christopher Kirby, Felicity Price, Jason Chong, Stephen Hunter, Matt Day
Duração: 50 min (cada episódio – 6 episódios no total)

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.