Crítica | Wolf Creek – Viagem ao Inferno

estrelas 4

Após a exaustão das refilmagens de obras-primas do terror japonês, outra “vanguarda” se estabeleceu na indústria cinematográfica. Os filmes adornados por altas doses de tortura. Na época, Eli Roth estava em vias de lançar o seu violento O Albergue, a franquia de JigSaw já avançava para Jogos Mortais 3 e a onda era apresentar filmes em que jovens eram colocados em situações de extrema violência física e psicológica, tendo como obstáculo vencer estes problemas para evoluir enquanto personagem. Greg McLean, ciente do poder deste tipo de narrativa, lançou a versão australiana para o gênero em questão.

Wolf Creek – Viagem ao Inferno aborda a jornada de três mochileiros jovens, na faixa de seus vinte anos. Eles esperam, durante a viagem, beber, curtir, banhar-se diante do sol e conferir as belas imagens das estradas do deserto australiano. O que eles não sabem, no entanto, é que durante esta viagem, vivenciarão o pior terror de suas vidas. Liz (Cassandra Magrath), Ben (Kestie Morassi) e Kristy (Nathan Phillips) passam boa parte do primeiro dia de viagem na maior curtição, até que o carro para de funcionar e a ajuda de um desconhecido (Mick Taylor, interpretado pelo veterano John Jarrat) os coloca na esperança de continuar logo em breve a rota prevista.

O que os jovens não esperavam é que o tal ajudante não é bacana como se pensa. Semelhante ao que ocorreu em filmes como Quadrilha de Sádicos, O Massacre da Serra Elétrica e outros filmes do gênero, o destino dos jovens é sofrer nas mãos de um homem sádico e cruel, responsável por estabelecer os piores pesadelos de suas vidas. Sangue, gritos e súplicas são as palavras que definem o filme a partir de então. A captura, o cárcere e o desespero de pessoas subjugadas por um homem e a sua afiada faca deixam o espectador tenso e preso ao filme desde o seu início, sem necessariamente apresentar mortes mirabolantes ou explicações excessivas para as origens do mal perpetrado pelo asqueroso Mick Taylor, um psicopata sem máscaras.

Greg McLean, também responsável pelo roteiro, já havia terminado o texto quando se deu conta que a trama de assassinato poderia ganhar o contorno de inspirada em fatos reais, haja vista duas histórias que aterrorizaram os australianos poucos anos antes. Assim, o assassino do filme possui alguma ligação com dois criminosos do país, responsáveis por deixar uma trilha de sangue que marcou profundamente a nação. Bradley John Murdoch, após matar um mochileiro inglês e tentar sequestrar outro, foi preso e condenado a prisão perpétua. Ivan Marko Milat, também capturado pela polícia, oferecia carona e levava quem aceitasse para torturar e depois matar, tendo sete pessoas listadas em seu currículo criminal.

Antes de assumir a carreira de cineasta, Greg McLean desenvolvia os seus dons artísticos através da prática da pintura. Talvez tenha encontrado ressonância nos belos enquadramentos do filme, repletos de beleza e simbolismo, mesmo se tratando de uma narrativa carregada pelo horror físico e psicológico em doses nem um pouco generosas. Algumas passagens são metalinguagem da melhor: há referências, mesmo que não propositais, ao turbinado Mad Max, aos planos de encerramento de alguns filmes do mestre John Ford e ao responsável por aterrorizar o sono de toda uma geração: Freddy Krueger, presente através do seu figurino do vilão, bem como do seu sarcasmo e ironia.

Com 99 minutos de duração, o filme chegou aos cinemas em 2005 e ganhou uma continuação com tons mais sangrentos, lançada em 2013. A série baseada na franquia estreou em 2016 e teve seis episódios. O público que acompanha a saga do insano Mick Taylor ficou dividido, pois havia menos sangue e mais desenvolvimento de conflitos de personagens. Alguns clamam por um terceiro filme, outros acham que já foi produzido o suficiente. Por ser uma aventura tensa, com imagens deslumbrantes, acredito que cabe a você, caro leitor, conferir e responder se já temos o bastante ou se o personagem e a franquia ainda tem fôlego para mais incursões.

Wolf Creek – Viagem ao Inferno (Wolf Creek) – Austrália, 2005.
Direção: Greg McLean.
Roteiro: Greg McLean.
Elenco: Cassandra Magrath, John Jarrat, Kestie Morassi, Guy O´Donnel, Goordon Poole, Phil Stevenson, Andy McPhee, Aaron Sterns.
Duração: 99 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.