Crítica | Wolverine (2013-2014) – Vol. 1: Temporada de Caça

estrelas 2Quando a Marvel iniciou seu semi-reboot que batizou de Marvel NOW!, em 2013, um dos títulos que teve sua numeração reiniciada (mais uma vez!) foi o título solo de Wolverine, o baixinho canadense mais furioso dos quadrinhos. Assim, o volume 1, objeto da presente crítica faz parte, tecnicamente, do 5º título solo do herói, que sobreviveu, somente, por 13 números, sendo zerado novamente em 2014.

Temporada de Caça, na verdade, junta dois arcos em seis números: o primeiro, de quatro números, foi batizado dessa forma e o segundo, de apenas dois números, recebeu o título de Afogando Logan (Drowning Logan). Acontece que todas esses dois arcos fazem parte de uma história só, que aborda uma misteriosa arma encontrada por um civil comum que a utiliza para incinerar dezenas de pessoas em um shopping center onde Logan está passeando. O morticínio choca pela banalidade e pelo resultado: Logan é obrigado a matar o homem que é pai de uma criança que está com ele. Essa criança, então, também dominada pela mesma força que tomou o pai, continua a chacina nos números posteriores.

Wolverine hunting season coverO roteiro, ao encargo de Paul Cornell, é eficiente em uma coisa: ele mantém o mistério sobre quem ou o que vem controlando as pessoas até o sexto número da série e ainda nos deixa um cliffhanger interessante para o Volume 2. No entanto, apesar de ser um título de Wolverine, em que um grau de violência maior é aceitável e, convenhamos, esperado, Cornell nunca consegue, satisfatoriamente, justificar as mortes que povoam as páginas que escreve. Dezenas e mais dezenas morrem sem um motivo plausível, orgânico, que faça sentido dentro da trama. É muito diferente, por exemplo, de Inimigo do Estado em que vemos Logan literalmente chacinar centenas de pessoas. Lá, há uma narrativa que tem lógica interna. Em Estação de Caça, essa lógica interna é inexistente e se torna particularmente contraditória com o segundo arco, Afogando Logan, em que revelações deixam claras as intenções dos controladores de mentes.

Com isso, o choque inicial se esvai e se banaliza. Torna-se um artifício para atrair leitores que querem ler “histórias violentas” sem se preocupar muito com qualquer outro tipo de elemento narrativo que não seja uma alta contagem de corpos. É como se Cornell tivesse tido uma ideia interessante, mas alguém (a editora talvez?) o tivesse forçado a aumentar as mortes exponencialmente.

Além disso, os diálogos são muito estranhos. Especialmente os de Logan. Ele parece mais erudito e mais racional do que costuma ser. E suas interações com Nick Fury Jr. (nunca aceitarei a ridícula existência desse personagem, NUNCA!) são amistosas demais, “fofinhas” demais para acreditarmos que esse é o mesmo Wolverine de antes. Tudo bem que a proposta Marvel NOW!, na verdade, foi a de suavizar seus heróis (não de maneira explícita, mas foi a consequência prática) e torná-los mais divertidos, mas daí a alterar a personalidade de uma história de Wolverine que se passa no presente (é diferente de Wolverine: Logan, por exemplo, que tem grande parte durante a 2ª Guerra Mundial), são outros quinhentos.

Além disso, além da presença de Nick Fury Jr. que, claro, só tem como objetivo ser manipulado por essa “força” escondida, nós ainda temos que lidar com os frequentadores do Bar Guernica, onde, aparentemente, os heróis vão para relaxar. Esses frequentadores, todos sem poderes, mas com profissões que se relacionam com as dos heróis, como um escritor de quadrinhos, uma dona de empresa que faz controle de danos causados por lutas super-humanas e por aí vai. Eles funcionam como um “grupo de amigos de Wolverine” que é não só fora de caráter para o personagem (e Cornell sabe disso, pois escreve um diálogo justamente brincando com a “solidão” de Logan), como fica um tanto ridículo. Afinal, eles conseguem não só identificar dardos misteriosos como enviar para Wolverine a planta técnica do aeroporta-aviões da S.H.I.E.L.D. para onde ele é levado em determinado ponto. Fica parecendo o que esse grupo é: uma bengala narrativa para Cornell resolver problemas com um estalar de dedos.

A arte, nos primeiros quatro números, ficou ao encargo de Alan Davis, no lápis e Mark Farmer, na tinta. Os dois trabalham as sequências de ação muito bem, com boa transição de quadros e personagens bem definidos. Wolverine, de uniforme, fica particularmente bem na história, apesar dos diálogos de fazer os olhos rolarem de Cornell. Mas não é uma arte brilhante ou particularmente memorável. Ela cumpre seu papel e não mais do que isso.

Nos últimos dois números, Alan Davis é substituído por Mirco Pierfederici e Mark Farmer é substituído pela dupla Karl Kesel e Zach Fischer. Kesel e Fischer até fazem o máximo para melhor os lápis de Pierfederici, mas as feições do artista são estranhas, animalescas e, mesmo considerando que se trata de uma história do mais animalesco dos heróis Marvel, Logan ficou particularmente feio e “símio” sob seus traços. E o pior é que os rostos em geral quase não tem suas feições alteradas, mantendo-se quase iguais ao longo de todo o arco Afogando Logan.

Temporada de Caça desaponta. Foi um fraco recomeço para Wolverine dentro do projeto Marvel NOW! e mais uma prova que a Marvel perdeu o rumo em relação a esse tão querido herói.

Wolverine (2013-2014) – Vol. 1: Temporada de Caça (Wolverine – Vol. 1: Hunting Season, EUA)
Conteúdo: Wolverine. Vol. 5 (2013-2014) #1 a 6
Roteiro: Paul Cornell
Arte: Alan Davis, Mark Farmer, Mirco Pierfederici, Karl Kesel, Zach Fischer
Editora (nos EUA): Marvel Comics (de março de 2013 a julho de 2013)
Editora (no Brasil): Panini Comics
Páginas: 146

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.