Crítica | Wolverine & Destrutor: Fusão

estrelas 5,0

Wolverine & Destrutor: Fusão é uma minissérie publicada pela primeira vez nos EUA em 1988, debaixo do extinto selo Epic Comics, da Marvel Comics, responsável por obras mais autorais e costumeiramente mais adultas com personagens mainstream Marvel e também outros menos conhecidos como o sensacional Dreadstar. Era a versão original do que hoje a Marvel chama de Marvel Max, mas realmente sem o controle editorial que hoje é exercido e que poda muito a liberdade dos escritores e desenhistas.

Juntando dois improváveis X-Men em uma dupla, o casal Walt e Louise Simonson escrevem uma história fortemente amarrada com eventos reais da época e que não caminha pela estrada mais fácil. A história começa com um enorme e detalhado prólogo de 13 páginas, com personagens apenas em silhueta lidando com o acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 1986. Não nos identificamos com os personagens, pois eles estão ali somente para ilustrar o horrível acontecimento, ao passo que, intercalado com a calamidade, vemos a conversa entre duas pessoas que não aparecem – a não ser as mãos – que deixam entrever que o acidente foi algo premeditado na verdade e que não atingiu seu propósito sinistro. Eles se identificam apenas pelos nomes Dr. Nêutron e General Fusão (General Meltdown, no original).

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As capas das edições nacionais da Editora Abril.

Quando esse introito que, por si só, é ousado, acaba, somos levados para o México, em uma cidadezinha não identificada, onde Logan e Alex Summers estão passando “as férias” arrumando confusão em bares, sob a aposta de que eles não usariam seus poderes (as garras de Wolvie e o raio de plasma do Destrutor). Lá, eles são alvo de um ataque misterioso que os separa, um recebendo a informação de que o outro morrera. Com isso, a história se divide e vemos Logan investigando o ocorrido do seu jeito, digamos, delicado e Alex sendo enfeitiçado pelos lábios, olhos e cabelos sensuais de Scarlett, identidade de Quark, uma agente dos vilões, que são aos poucos revelados em mais detalhes.

O que realmente distancia essa narrativa de quadrinhos comuns é ela ser integralmente voltada à adultos. E não é só pela violência – há muita, fiquem tranquilos – mas especialmente pela forma como a história em si, costurada com a tragédia de Chernobyl, a Glasnost e a Perestroika, com menções políticas fortes, é trabalhada. Não há explicações em demasia. Ou o leitor conhece ainda que por alto os acontecimentos da segunda metade da década de 80 que redesenharam o mapa geopolítico, ou ele captará os diálogos apenas parcialmente, pelo seu valor face. É narrativa feita por adultos para adultos, sem concessões.

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Um pouco de Wolverine.

Mesmo que os Simonson não tivessem caprichado no texto, ainda assim Fusão seria uma obra de destaque em qualquer “quadrinhoteca”. Afinal, a arte é fora desse mundo. Mas não é para qualquer um, sou o primeiro a reconhecer. Jon J. Muth e Kent Williams não são artistas de quadrinhos comuns, cuja arte você encontra por aí aos borbotões. Primeiro, eles trabalham em projetos especiais, ambos se destacando em Hellblazer da Vertigo, com Muth destacando-se também como ilustrador de livros infantis e Williams tendo trabalhado com Darren Aronofsky na adaptação em quadrinhos de Fonte da Vida.

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Um pouco de Destrutor.

A arte é pintada, com pinceladas generosas, imprecisas, lembrando alguns expressionistas e emprestando um tom noir à trama dos Simonson. Os dois estilizam ao máximo Wolverine, com cabelo tipo rastafári, antebraços grossos que lembram os de Popeye, mas compridos como os de um orangotango, além de posição corporal constantemente animalesca, nunca altiva, sempre feita e suja. Alex Summers ganha um tratamento mais angelical – ele é sempre retratada como o mais inocente dos dois, claro – só que, não sem querer, parecido como os dois retratariam John Constantine. É um trabalho hipnótico, com transições ousadas de quadros, spreads lindos e muitas vezes tomados unicamente de “vazio”, mas sempre com muito significado. No entanto, há necessidade de tempo para se acostumar com esse tipo de desenho que, se lembra o de outro artista, é o de Bill Sienkiewicz em seu seminal trabalho Elektra: Assassina, com roteiro de Frank Miller.

Wolverine & Destrutor: Fusão é quadrinho mainstream do tipo raro de se encontrar hoje em dia. Ousado, inteligente, violento, com arte de difícil adaptação, essa minissérie é para se acalentar e guardar em um lugar especial do cérebro e da estante.

Wolverine & Destrutor: Fusão (Havok & Wolverine: Meltdown, 1988/1989)
Conteúdo: Wolverine & Destrutor: Fusão #1 a 4 (minissérie completa)
Roteiro: Walter Simonson, Louise Simonson
Arte (lápis, tintas e cores): Jon J. Muth, Kent Williams
Cores: Sherilyn van Valkenburgh
Letras: Bill Oakley
Editora (nos EUA): Marvel Comics (selo Epic Comics) – publicado originalmente entre novembro de 1988 e fevereiro de 1989
Editora (no Brasil): Editora Abril – publicado entre junho e setembro de 1989
Páginas: 208

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.