Crítica | Wolverine: Imortal

estrelas 3

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Embora um tanto distante de sua descrição nas HQs, a caracterização de Wolverine nos cinemas veio a se tornar uma das mais populares da Marvel. Boa parte disto se deve ao seu intérprete, o australiano Hugh Jackman, que desde a primeira vez que encarnou o personagem em X-Men – O Filme, provou ser a escolha ideal ao conquistar o público ao emprestar todo o seu carisma e complexa de ferocidade ao personagem.

Esta imagem, entretanto, foi abalada quando o mutante ganhou seu primeiro filme solo, o frustrante X-Men Origens: Wolverine, que deixou uma impressão não muito boa não apenas sobre o próprio herói, mas sobre o seu próprio futuro no cinema. A fim de limpar esta mancha, Wolverine: Imortal foi concebido, e embora esteja longe de fazer jus aos outros exemplares da franquia X-Men, consegue ser facilmente superior ao malfadado primeiro filme solo do mutante.

De fato, apesar de Wolverine: Imortal estar bem abaixo de X-Men 2 ou X-Men: Primeira Classe, por exemplo, é talvez o filme que melhor trabalhe os conflitos internos do personagem. Não em relação ao seu passado, muito bem abordado nos dois primeiros filmes de Bryan Singer, mas sobre seu trágico presente, uma vez que o filme se passa algum tempo depois após os eventos de X-Men: O Confronto Final, quando Logan se viu obrigado a matar sua amada, Jean Grey (Famke Janssen), que ainda o atormenta em sonhos. Em Wolverine: Imortal, vemos um Wolverine amargurado, desesperado em encontrar algo que o ajude a seguir em frente, uma vez que a morte não lhe é uma opção devido ao seu fator de cura.

É quando Logan é contatado por uma vidente chamada Yukio (Rila Fukushima), que o leva até o morinbundo Yamashida (Hal Yamanouchi), o qual Logan salvou a vida durante a Segunda Guerra Mundial. Yamashida oferece a Logan uma vida normal em troca do mutante lhe conceda sua mortalidade através de uma máquina, mas mesmo recusando a oferta, Logan é ameaçado quando seus poderes são abalados pela Víbora (Svetlana Khodchenkova), o que dificulta o resgate de Logan a neta de seu anfitrião, Mariko (Tao Akamoto), sequestrada pelo misterioso Clã das Sombras.

Dirigido pelo versátil James Mangold (de grandes filmes como Johnny & June e decepções como Encontro Explosivo), Wolverine: Imortal, inspirado no arco Eu, Wolverine, de Chris Claremont e Frank Miller, possui visível inspiração na nova linha de filmes de super-heróis que buscam trazer certo grau de realismo e complexidade aos personagens, tal qual a trilogia de Christopher Nolan para o herói Batman. Wolverine: Imortal é um filme sombrio, que nos traz um Logan ainda mais traumatizado e desesperançoso, onde o roteiro de Scott Frank (Minority Report – A Nova Lei) e Mark Bomback (Duro de Matar 4.0, O Vingador do Futuro) busca trabalhar o lado psicológico do protagonista, se aprofundando em seus conflitos e dilemas mais internos em relação a sua opção de viver isolado e longe de todos. Isto confere um quê de humanidade bastante adequado para Wolverine, que desta vai além do mero personagem impulsivo que conhecíamos.

Entretanto, o desenvolvimento para por aí. Embora haja momentos em que o roteiro parece querer voltar a discutir a questão do preconceito (repare como os japoneses rechaçam a presença de Logan por este ser um ocidental alheio aos costumes do país), quase mais nada é levado á frente. De fato, Frank e Bomback se deixam levar pelo típico maniqueísmo hollywoodiano, onde o protagonista solitário, em algum momento, encontra alguém que preencha seu vazio anterior. É uma opção narrativa compreensível, mas que acaba por diminuir o próprio alcance da obra, que lá no fundo, dá a impressão de ser apenas mais uma aventura sobre o mutante.

O que é, no mínimo, estranho, uma vez que o número reduzido de cenas de ação abriu oportunidades para que o roteiro trabalhasse estes detalhes com mais calma. Infelizmente, o que se vê é um bom número de momentos tediosos, com excessos de diálogos expositivos que querem significar algo, mas pouco tem a dizer. Obviamente, não deixa de ser louvável a opção de Mangold construir uma narrativa mais cadenciada, o problema é que o material não oferecia tanta sustentabilidade para que tal opção beneficiasse o filme.

Mas quando a ação se faz presente, Mangold não decepciona. Embora pouco experiente no gênero da ação, o diretor se sai bem ao construir sequências que retratam com eficiência a ferocidade do mutante e suas garras, embora o excesso de cortes prejudique levemente o entendimento de algumas destas sequências. Mas Mangold é bastante virtuoso com sua câmera, e com o auxílio de bons efeitos especiais, dá vida a cenas de combate que esbanjam intensidade. E Hugh Jackman, encarnando o personagem pela quinta vez nos cinemas (excluindo-se aqui sua ponta em X-Men: Primeira Classe), nos entrega aqui o seu melhor desempenho sob a pele do herói, encarnando com eficiência toda a intensa variação emocional de Logan, ao mesmo tempo em que demonstra manter todo seu potencial físico para as cenas corporais.

Embora não vá muito além do que propõe inicialmente, Wolverine: Imortal ainda é um filme divertido e empolgante, algo que seu filme anterior não conseguiu ser, o que já é suficiente para lhe colocar vários patamares acima daquele equivoco cinematográfico. O melhor de tudo, entretanto, é justamente a cena pós-créditos finais, que nos deixa um grande sentimento de expectativa sobre o retorno do mutante Wolverine ao grupo X-Men.

Wolverine: Imortal (The Wolverine) — EUA, 2013
Roteiro: Scott Frank, Mark Bomback
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Tao Akamoto, Rila Fukushima, Hiroyuki Sanada, Svetlana Khodchenkova, Brian Tee, Hal Yamanouchi, Will Yun Lee, Ken Yamamura, Famke Janssen
Duração: 126 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.