Crítica | Wolverine: Inimigo do Estado

estrelas 4

Qualquer leitor de quadrinhos com alguma experiência sabe que, se há o nome de Mark Millar no roteiro de alguma história, pode-se esperar algo de proporções assustadoras, sem freios, com o máximo de destruição possível. Foi assim com os dois primeiros volumes de Os Supremos e com a saga Guerra Civil na Marvel e foi assim com a trilogia Kick-Ass (e Hit-Girl, claro) e Nêmesis no selo Icon.

wolverine enemy of the state coverE o potencial de algo absurdo é ainda mais evidente quando o nome de Millar é visto junto com o personagem Wolverine, o que ele já havia provado antes mesmo de Inimigo do Estado, nos três primeiros volumes de Ultimate X-Men. Com Wolverine do Universo 616, o universo “normal” da Marvel, o que usualmente vemos são histórias mais domadas, especialmente quando estamos falando da publicação padrão do herói, ainda que debaixo do então recém-estabelecido selo Marvel Knights, mais violento por natureza. No entanto, assim como Wolverine é o melhor que existe no que ele faz, Millar é o melhor que existe no que ele faz: matar o máximo de pessoas e destruir o máximo de propriedades possível no menor número de páginas.

Imagine vocês, por um momento, aquelas minisséries do tipo “o que aconteceria se…” como Deadpool Mata o Universo Marvel, em que o herói, por uma razão qualquer – normalmente bem idiota – sai matando facilmente todos os heróis que vê pela frente. Imaginaram? Agora imaginem esse grau de morticínio dentro da continuidade normal e perpetrada não por um vilão como em Nêmesis, mas sim por um dos mais queridos heróis do Universo Marvel. Isso é Inimigo do Estado. A diferença é que Millar, ame-o ou odeie-o, sabe contar uma história, mesmo que falhe aqui e ali nos diálogos.

Com isso, em uma longa história composta por 11 números de Wolverine, Vol. 3 e mais um epílogo sem conexão direta, Millar transforma Wolverine na maior arma de matar de uma espécie de consórcio formado pela Hidra, Tentáculo e uma irmandade mutante que venera a morte e o diabo criada para essa história chamada Aurora da Luz Branca. No primeiro número, vemos Logan viajar para o Japão para desvendar o aparentemente simples sequestro do filho de um amigo, somente para descobrir que caiu na armadilha de Gorgon, líder da tal irmandade mutante (e que também foi criado para essa história por Millar) e um exército quase infinito de ninjas mortos-vivos do Tentáculo. Logan é, então, derrotado.

Não. Derrotado não. Morto.

wolverine enemy of the state shark

A fúria de Mark Millar não perdoa nem os coitados dos tubarões…

Sim, morto. E é ressuscitado pelo Tentáculo – assim como Elektra – como uma máquina de matar com implantes cibernéticos da Hidra comandada pelo Barão Strucker. A partir daí até a metade da saga, vemos um Wolverine que nunca havíamos visto antes. Invencível. Assassino de tudo e de todo, realmente sendo o melhor no que ele faz, caindo de pau com toda a S.H.I.E.L.D., Elektra, Quarteto Fantástico e X-Men e mais uma penca de outros personagens Marvel. Sua missão é muito simples: roubar inteligência de gênios como Reed Richards e, ao mesmo tempo, recrutar outros heróis que possam ser mortos e ressuscitados pelo Tentáculo com a mesma função. Na segunda metade, ele continua assim, só que mais invencível e mortal ainda, só que, agora, do outro lado do espectro.

Vejam, a desculpa para tudo acontecer – dominação mundial, pacto com o diabo ou o que quer que seja – é algo a ser ignorado por quem quiser se divertir com essa história. Não há a profundidade de um Arma X ou Eu, Wolverine ou a beleza lírica de Origem. Gorgon, o grande e aparentemente superpoderoso vilão é raso e unidimensional. Seus poderes são difusos, ainda que seu nome e um desses poderes sejam bem evidentes e que telegrafam seu fim, em uma ótima jogada de Millar. O que há, aqui, é literalmente um “o que aconteceria se Wolverine fosse um vilão”, só que escrito de maneira suficientemente inteligente para não simplesmente descartarmos a leitura. Há interações muito boas, especialmente de Wolverine com Elektra, com Fury e, talvez o ponto alto, com o Demolidor.

E o encadeamento do raciocínio de Millar, que acrescenta traições dentro do consórcio inimigo, espionagem e uma contagem de corpos que se faz não às dezenas, mas às centenas e milhares, funciona, cativa e deixa o leitor literalmente engajado com a situação. Queremos saber: como é que raios Wolverine sairá dessa? Ou melhor ainda: isso simplesmente não pode estar acontecendo, é muita morte demais, muita destruição demais para a Marvel deixar acontecer. Esse tipo de pensamento pipoca em nossa cabeça o tempo todo e Millar não deixa barato, não entrega a saída mais fácil mesmo que consideremos que a grande luta final não é tão grande assim e desaponta um pouco. Mas, quando chegamos lá, a grande verdade é que isso já não importa mais. O estrago foi tanto e tão absurdamente gigante nos números anteriores que é difícil até captar as ramificações – que existem e são sentidas posteriormente na cronologia dos heróis envolvidos – ao ponto de eu não entender exatamente a razão de Inimigo do Estado não ter sido tratado como uma Saga Marvel propriamente dita.

mosaico wolverine enemy of the  state

(1) Wolverine contra Elektra; (2) Wolverine contra o Quarteto Fantástico; (3) Wolverine contra o Demolidor.

Como se tudo isso não bastasse, há ainda a arte da dupla John Romita Jr. e Klaus Janson. Apesar de eu não ser muito fã de Romitinha (com exceção de seu magnífico trabalho em Demolidor: O Homem Sem Medo), confesso que fiquei maravilhado com o que vi. Ele superou o problema que normalmente vejo nele com as proporções corporais e objetos que os personagens seguram (em proporção a eles), com excelentes sequências de ação contendo um gigantesco número de personagens simultaneamente, normalmente sendo retalhados. É um trabalho preciso que foi muito ajudado, também, pelas tintas de Klaus Janson, artista de mão cheia que trabalhou também com o Demolidor na longa e soberba fase capitaneada por Frank Miller.

O resultado final é uma publicação que não dá para largar até a última pagina. É uma leitura fácil, até rápida, mas muito prazerosa para aqueles que estiverem procurando aquilo que Millar se propõe a entregar: diversão com extrema violência em uma história suficientemente bem construída para não gerar “olhos rolando”.

E ele ainda encerra com um epílogo desenhado e pintado por Kaare Andrews que não se relaciona de verdade com o que veio antes, sendo integralmente passado durante a Segunda Guerra Mundial, com Logan prisioneiro em um campo de concentração. Muito interessante, ainda que deva ser vista como uma história em separado e talvez nem dentro do cânone do personagem (ou será que não?).

Ler Inimigo do Estado é como viver alguns momentos como Wolverine em estado feral: você começa e não para mais em um transe lunático desesperante que só acaba com você exausto, algum tempo depois que virar a última página. E isso é bom! Muito bom!

Wolverine: Inimigo do Estado (Wolverine: Enemy of the State, EUA)
Conteúdo: Wolverine, Vol. 3 #20 a #32 (dezembro de 2004 a dezembro de 2005)
Roteiro: Mark Millar
Arte: John Romita Jr. (lápis), Klaus Janson (tintas), Kaare Andrews
Editora (nos EUA): Marvel Comics
Editora (no Brasil): Panini Comics
Páginas: 352

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.