Crítica | Wolverine: Logan

estrelas 4

Conforme declarações de Brian K. Vaughan (autor dos sensacionais Saga e Leões de Bagdá), seu objetivo, ao escrever Logan, minissérie em apenas três edições de tamanho normal, ou seja, 20 e poucas páginas cada, era criar um veículo para a arte do argentino Eduardo Risso ser apreciada no Universo Marvel, depois dele sedimentar sua fama e estilo “urbano” com seu extenso trabalho com Brian Azzarello no excelente 100 Balas, da Vertigo, entre 1999 e 2009. Pode-se dizer, com tranquilidade, que, com Logan, Vaughan alcançou esse objetivo com louvor.

A arte de Risso é, de longe, o maior destaque da minissérie. Em primeiro lugar, o artista mostrou, claramente, que seu estilo pode muito bem ser transplantado para situações menos terrenas, do dia-a-dia. Ao trabalhar uma história sobre o passado de Wolverine, que vem lhe atormentar no presente, Risso empresta um ar até sobrenatural ao seu trabalho, com um também magnífico trabalho de cores de Dean White. É até interessante notar que essa mesma minissérie foi republicada em preto e branco, justamente para salientar a arte de Risso, sem as cores de White, como uma espécie de testamento ao trabalho dele.

mosaico logan

As capas da minissérie, também desenhadas por Risso.

Risso trabalha movimentos e rostos de maneira precisa, com traços básicos, que economizam nos detalhes, mas nunca nas expressões. O leitor não encontrará muitos detalhes de fundo, pois o objetivo é passar o drama pessoal de Logan em um conto de amadurecimento, em que vemos o personagem sob uma lente mais lírica, muito poucas vezes utilizadas antes. E, com a ação transitando entre o presente e o passado, precisamente o dia 06 de agosto de 1945, dia em que o Enola Gay jogou a bomba atômica em Hiroshima, Risso mostra sua habilidade em dois momentos. No passado, vemos quase que uma história de fantasmas, com Logan, em fuga de um campo de prisioneiros com um soldado americano chamado Warren, encontrando Atsuke no processo, uma solitária moça japonesa. Esse encontro é quase fantasmagórico, com o traço de Risso dando a entender que ela é um fantasma, certamente propositalmente para evocarmos as famosas histórias nessa linha que vemos no folclore japonês. Warren quer matá-la. Logan quer abraçá-la. E o conflito começa.

Alguns torcerão o nariz para a forma como Logan é retratado. Mas reparem bem: o nome da minissérie e Logan, não Wolverine. O nome do herói só foi acrescentado depois, quando ela foi lançada em encadernado. Estamos falando do homem, não do super-homem. É uma pegada que Vaughan faz muito bem, ainda que exija um pouquinho mais de costume do que o normal. Nunca vimos antes – eu, pelo menos, não me lembro – Logan tão fragilizado assim, tão humano. Desde os primeiros quadros no passado, Logan é um homem confuso, perdido, um pária que nunca foi amado. Atsuke muda tudo isso, ainda que de forma efêmera. É poesia em quadrinhos com uma pitada de sobrenatural para dar gosto, que resulta em uma rápida e agradável leitura.

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A arte de Risso – passado e presente, em cores e “ao natural” – para contemplação.

Mas isso só se aplica os trechos no passado. No presente, a coisa muda de figura. Vaughan, talvez por falta de espaço, explora muito mal a ameaça atual, um ser flamejante que ataca Logan quando ele volta para Hiroshima depois que sua memória retorna em Dinastia M. O que vemos é um conflito bobo, sem muito sentido, ainda que tenha, claro, ligação com o belo e lírico passado. Mesmo o trabalho de Risso, que também é irretocável no presente (ainda que o uso do uniforme de Wolverine crie um certo distanciamento e estranheza ao leitor), não consegue compensar as falhas de Vaughan, talvez causadas por simples falta de espaço, não sei.

Logan é, definitivamente, um Wolverine diferente. Nunca ou raramente visto. A execução do roteiro não é perfeita, mas Vaughan queria o que acabou conseguindo: abriu o palco para que Eduardo Risso fizesse um inesquecível show. É de se aplaudir de pé.

Wolverine: Logan (Idem, EUA)
Conteúdo: Logan #1 a 3 (maio a julho de 2008)
Roteiro: Brian K. Vaughan
Arte: Eduardo Risso
Cores: Dean White
Editora (nos EUA): Marvel Comics (selo Marvel Knights)
Editora (no Brasil): Panini Comics (maio de 2009)
Páginas: 66

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.