Crítica | Wolverine Noir

estrelas 2

A ideia da Marvel nessa série Noir é trabalhar o mundo dos super-heróis que conhecemos numa realidade centrada na década de 1930, onde eles não possuem poderes. À primeira vista, isso pode parecer um empecilho para ação ou mesmo para tornar as histórias palatáveis ao leitor, mas longe disso. Quem leu o Homem-Aranha Noir, por exemplo, sabe que essa proposta pode funcionar muito bem no universo das tramas pulp fiction, se bem escritas, o que infelizmente não é o caso dessa aventura com o Wolverine.

Stuart Moore atrela o seu roteiro a uma Origem, uma outra história bastante conhecida do baixinho de garras, e praticamente não consegue se desvencilhar das limitações que esse tipo de “base” traz para o texto. É uma pena que toda a trama, embora consiga abraçar o clima noir a contento – uma conquista melhor atribuída à arte que ao roteiro – perca pontos no tratamento dado ao herói.

Tudo bem que ele não precisa ter poderes, mas se continua beberrão e as garras, de algum modo, continuam lá, qual é o problema de se desvencilhar de Cão, Rose e do Reverendo para criar uma história mais livre e menos presa a um passado já contado de maneira mais melhor em outra revista? De qualquer forma, a típica profissão de detetive e o contexto social bastante ligado ao gênero noir está presente, o que faz de pelo menos essa parte algo bom de se ver relacionado ao Logan.

A história acontece em 1937, e à parte uma confusão geopolítica de Stuart Moore no que concerne ao enfrentamento Japão-China (eu não consegui entender se isso foi proposital ou falta de pesquisa, mas se foi proposital, com que diabos de intenção o roteirista precisaria alterar pequenos eventos históricos que não estão intimamente unidos a esse mundo noir?), a cidade sofre de problemas reais e que eram de fato muito comuns nas periferias trintistas dos Estados Unidos.

Lei Seca, máfia, gangues de rua, prostitutas e praticamente inexistência da polícia – ou a impossibilidade dela tratar de determinados casos, daí a importância do detetive – são ingredientes desse mundo decadente. E para completar, a femme fatale: Mariko Yashida. Não se engane com a nacionalidade da mulher e a necessidade do roteirista manipular os eventos históricos em relação ao Japão, como eu citei anteriormente, até porque, ela é apenas um fraco McGuffin, alguém que se mostra como arquiteta de algo muito importante quando na verdade é uma peça manipulada – algo que me irrita profundamente nesse tipo de trama.

Ao final de Wolverine Noir há uma interessante exploração sobre a relação de homem x animal. Quem é o Logan? Sua vida, os traumas que causou aos outros e as dores que sofreu são parte de uma sequência de eventos azarados ou elementos criados por seu instinto irracional? Mesmo com as repreensões do pai – e muito me admira que ele não tenha explodido com o velho Reverendo – e as lições de controle emocional recebidas de seu tutor, algo parece ter permanecido, e a despeito do desfecho positivo que se dá aos protagonistas nessa história, nada indica que sua vida vai mudar.

A armadilha narrativa na qual Stuart Moore caiu rendeu uma história fraca em Wolverine Noir. A arte é o setor mais eficiente, embora haja exagero na caracterização sombria e suja do ambiente onde o plot acontece. É como se os artistas quisessem frisar enfaticamente que aquilo era de fato um desenho noir e que não poderia haver absolutamente nenhuma, NENHUMA dúvida. O resultado é bom, mas como disse, exagerado, logo, não deixa de causar estranheza. Todavia, eu preferiria que o roteiro pecasse por esse tipo de excesso a se submeter a um motivo pouco inspirador como foi o caso. Mas como diz o ditado, infelizmente, não dá para se ter tudo.

Wolverine Noir – EUA, 2009
Roteiro: Stuart Moore
Arte: C.P. Smith
Cores: Rain Beredo
Lançamento no Brasil: Panini Comics, 2012
108 páginas

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.