Crítica | Wolverine: Origem II

estrelas 4

But to hope against certaintities is a hopeless thing… and one thing that is sure never to change is change itself.

Mais de dez anos se passaram desde Origem, o primeiro vislumbre sobre o efetivo começo de tudo em relação a Wolverine, e a Marvel voltou para uma nova incursão nesse período. No entanto, entre uma publicação e outra, a editora, usando a saga Dinastia M como gancho, devolveu a memória a Logan e concedeu ao perturbado mutante canadense uma revista solo intitulada Wolverine Origins, que durou 50 números, de 2006 a 2010, dedicada única e exclusivamente a descortinar cada pedaço da vida pregressa do herói.

Com isso, qual seria o interesse em ver mais uma publicação dedicada à mesma coisa, especialmente considerando que Wolverine Origins foi uma mixórdia sem fim? A primeira resposta a essa pergunta é de fanboy: oras, trata-se de Wolverine e qualquer coisa com Wolverine tem que ser no mínimo interessante. De fato. Ainda que haja muita – mas muita mesmo! – porcaria publicada com o baixinho, ele é um dos mais populares e fascinantes heróis da Marvel e isso graças, principalmente, ao quanto ele foi bem concebido desde sua primeira aparição, como coadjuvante do Hulk.

origin ii coverA segunda resposta, porém, é bem melhor: Origem, apesar de não ter sido tudo que poderia ser, carregava e ainda carrega uma aura de reveladora de mistérios e os desenhos de Andy Kubert e Richard Isanove transformaram a graphic novel em uma verdadeira obra de arte, lindíssima de se ver, apesar do roteiro um tanto fraco de Bill Jemas, Paul Jenkins e Joe Quesada que, na verdade, pouco nos conta sobre essa fase de Logan. Com isso, a promessa de volta ao início, com uma proposta semelhante, tornou-se um bom chamariz.

Mas o time artístico mudou. Saiu a trinca  de roteiristas e entrou Kieron Gillen, sozinho, para trabalhar essa continuação direta. No lado dos desenhos, temos outro Kubert, mas dessa vez Adam, irmão de Andy. E o resultado é uma graphic novel melhor que a anterior, ainda que, novamente, inferior ao que poderia ser.

Se Origem II tivesse ficado restrita ao primeiro número, ela ganharia desse crítico os mais altos elogios. Nele, vemos Logan fazendo parte de uma alcateia, algo que já havíamos visto em Origem, mas que é desenvolvido em detalhes agora. Usando um narrador externo objetivo e nenhum diálogo, a história abre com Logan, vestido como Conan, o Bárbaro, correndo pela neve com três lobos. Eles estão caçando para alimentar a ninhada. Há harmonia entre homem e feras. Logan tem uma família que o aceita pelo que ele é, sem preconceitos. A história se passa em 1907, alguns anos depois do final de Origem e nosso herói está completamente adaptado a esse ambiente que escolheu depois que, tragicamente, matou Rose, o primeiro amor de sua vida. Não há humanos. Não há interferência.

Mas é tudo uma questão de tempo, não é mesmo? Afinal, como o texto deixa bem claro, mudança é a única constante.

Um enorme e desnorteado urso polar surge na região e Logan faz o que pode para ajudá-lo a voltar para casa em uma evidente e bem vinda homenagem à inesquecível e seminal abertura de Eu, Wolverine, por Chris Claremont e Frank Miller. Só que a tragédia se abate, forçando-o a abandonar sua vida de ermitão. A arte, nessa espécie de longo prelúdio, é de tirar o fôlego, com Kubert trabalhando traços “sujos”, com composições dinâmicas e líricas que desvelam toda a selvageria do mundo em tese harmônico onde vive Wolverine. Além disso, Kubert quase que experimenta com a transição de quadros, ora com splash pages simples, ora com leitura de cima para baixo, ora da esquerda para a direita, com uma grande variedade de estilos, mas que funcionam muito bem. Vale especial destaque a maneira como os quadros do início desse capítulo, maiores, passam tranquilidade, calma e, na medida em que avançamos, temos quadros cadas vez menores e em maior quantidade por páginas, até splashes duplos sem narração ou mesmo onomatopeias em que o contraste do vermelho com o branco ao mesmo tempo choca e cativa o olhar.

origin ii page

O que causa estranhamento em Origem II é que, depois do fantástico começo, há uma brusca mudança de ritmo e estilo na história. Enquanto todo o primeiro número é dedicado a mostrar a vida selvagem de Logan, em que há apenas narração econômica, o que se segue é tanto quanto poluído, com a introdução da misteriosa e deformada Clara, que parece ter um jeito especial com animais e seu companheiro Creed, um homem quase tão selvagem quanto Logan (e o nome, claro, já chamará a atenção dos fãs de Wolverine). Os dois acompanham um circo e, ao se depararem com Logan, tratam de capturá-lo, sob protestos de Clara, para a exploração como “aberração da natureza”. A mensagem contra maus tratos a animais é um pouco exagerada e desnecessária.

Mas não é só isso. Um misterioso aristocrata chamado apenas de Doutor Essex (que os fãs reconhecerão imediatamente como uma versão anterior do Sr. Sinistro) chega na cidade e descobrimos que o urso polar que catalisou a história é dele, em uma espécie de experimento. Com isso, a narrativa ganha contornos mais ambiciosos e, ao mesmo tempo, óbvios, com a oposição de Clara e Logan, esse último gradativamente voltando à condição de ser humano civilizado, a Creed e Essex. Fica a pergunta: quem é o mais humano desses humanos e a resposta, infelizmente, é telegrafada em letras garrafais desde o começo do conflito.

Toda a simbologia trazida no primeiro número – com o urso enlouquecido, a alcateia e o lobo solitário – volta nessa longa segunda parte (composta de quatro números), mas ela nos é marretada de maneira didática demais. Mesmo assim, é uma trama marcadamente mais interessante e bem construída do que a que vimos em Origem, que traz Wolverine de volta à civilização, mas que ainda deixa esse seu começo de vida envolto em mistérios, especialmente com o twist final que é bem melhor do que a dúvida boba que existe sobre quem é Wolverine (se James ou Cão) em Origem.

E a arte, nessa segunda parte, também não desaponta. Cada personagem tem sua personalidade bem definida, ainda que as feições de Logan sejam, digamos, bonitas demais, quase que uma versão teen feita para a TV do herói. Mas Kubert sabe contornar esse problema, com o balé de destruição que ele nos faz testemunhar até a última página, ainda que, claro, com bem menos efeito do que o trabalho dele no começo. Fazendo um paralelo com o próprio protagonista, a primeira parte de Origem II é Kubert em seu estado feral, enquanto que a segunda é Kubert mais calmo, civilizado. Mas a grande verdade é que o culpado dessa mudança é Gillen, ao alternar o tom da história radicalmente.

Apesar dos pesares, Origem II é uma daquelas graphic novels que os amantes dos quadrinhos poderão colocar orgulhosamente em suas estantes.

Wolverine: Origem II (Origin II, EUA – 2013/2014)
Contendo: Origin II #1 a 5, publicados entre dezembro de 2013 e abril de 2014
Roteiro: Kieron Gillen
Arte: Adam Kubert
Cores: Frank Martin
Editora (nos EUA): Marvel Comics (ainda não publicado no Brasil)
Páginas: 123

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.