Crítica | Wolverine: Origem

estrelas 3

Uma das mais marcantes características de Wolverine é o mistério de sua origem. Ele apenas é quem é. Por muito anos os leitores não souberam muita coisa sobre o passado do homem chamado Logan. Desde sua criação, em 1974, pelas mãos dos lendários Len Wein, Herb Trimpe e John Romita Sr., o máximo que a Marvel havia chegado perto de sua origem foi em Arma X, arco de 1991. Foram quase duas décadas de absoluto silêncio (ou próximo disso), com as mais diversas teorias sendo imaginadas por seus fãs.

wolverine origin 3Mais 10 anos se passaram para Logan, finalmente, ganhar uma origem de verdade, uma que nos mostrasse ele ainda um menino. Esse foi o objetivo da badalada minissérie simplesmente intitulada Origem, escrita a seis mãos por Bill Jemas, Paul Jenkins e Joe Quesada, com arte de Bill Jenkins no lápis e Richard Isanove nas cores. Sou partidário da tese que, quanto menos se contar de algo, mais interessante esse “algo” é. Contar a origem de Wolverine é, no fundo, retirar grande parte da graça do personagem. O mundo de hoje, porém, não sabe apreciar esse tipo de mistério e tudo tem que ser revelado, inclusive detalhes de vindouros filmes e publicações, em uma caçada sem fim por se saber tudo antes mesmo de assistir ou ler a obra. Isso é algo que nunca entenderei.

De toda forma, chega de reclamações. Fato é que os autores, em Origem, foram cuidadosos em revelar sem verdadeiramente revelar muito. Toda a história é narrada sob o ponto de vista de Rose, uma menina ruiva que vai trabalhar na mansão de John Howlett Jr., rico dono de terras em Alberta, no Canadá, no século XIX que perdera um filho e que, por isso, sua esposa se afastou de tudo e de todos, inclusive do frágil e doente James Howlett, o filho mais novo do casal. Mas John é um homem bom e justo por natureza, apesar de ter um pai muito presente que é extremamente duro e insensível. Do lado de lá do espectro, somos apresentados a Thomas Logan, um homem igualzinho ao Wolverine quando adulto e que é o “faz tudo” da casa, vivendo em um barraco no sopé da montanha. Ele tem um filho, somente conhecido como Logan e apelidado de Cão e que, no começo, interage com James e Rose, apesar de ser abusado fisicamente por seu pai violento e beberrão.

O suspense que os autores tentam manter é sobre “quem “será Wolverine”. James Howlett ou Cão? Em respeito aos que não leram a história, não revelarei aqui, até porque isso não é necessário para a crítica. Basta dizer, porém, que essa tentativa de suspense chega a ser boba, pois é telegrafada desde a primeira página para quem tem o mínimo de experiência com quadrinhos. Em última análise, esse suspense é completamente desnecessário. De toda forma, feita a revelação em uma ótima, mas trágica sequência, a história muda completamente, com Rose e o futuro – e já desmemoriado em razão de seu fator de cura ter “curado” o trauma da tragédia que viveu – Wolverine se mudando para uma pedreira em British Columbia e trabalhando sob as ordens de Smitty, um duro, mas justo capataz.

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É na pedreira que o grosso da história se passa e testemunhamos como o jovem Wolverine (que ganha esse apelido por trabalhar muito e nunca desistir de seu objetivo, como um carcaju cavando atrás de comida), completamente antissocial, aprende que ele é um ser em sintonia com a natureza, vagando pela floresta à noite com uma alcateia. O problema é que, em termos de progressão narrativa, a minissérie é arrastada, com quase nada acontecendo ao longo dos anos na pedreira e ao longo de três das seis partes da minissérie. Somente no último número é que as pontas se fecham e Wolverine se torna o que ele é. No final das contas, Jemas, Jenkins e Quesada contam na verdade muito pouco sobre o herói. E talvez seja por isso que eu goste dessa história mais do que deveria, uma vez que a Marvel fez o favor de lançar, não muito tempo depois de Origem, uma série mensal de Wolverine chamada Origens, onde cada detalhe do absurdamente confuso passado do herói é revelado. E, antes que alguém me indague, não, nunca li Origens e não pretendo fazê-lo.

O que realmente vale em Origem, muito mais do que a história vazia, é a arte. Andy Kubert faz uso de um traço clássico, bonito, limpo, que evoca muito bem o estilo “de época” da narrativa, sobretudo nos dois primeiros números, ainda na mansão dos Howlett. Há muitos detalhes de fundo e os rostos são todos inconfundíveis, com um Wolverine que é muito bem retratado em todas as idades. As cores de Isanove dão o toque final no requinte do trabalho, com o tom sépia que permeia todo o trabalho. Os dois, juntos, são responsáveis por sequências memoráveis como a primeira vez em que vemos as garras de Wolverine e ele correndo junto com os lobos na floresta. São artes que facilmente poderiam ser enquadradas e penduradas na parede.

Origem não entrega muito, o que é positivo. Mas, exatamente por isso, não tem estofo suficiente para se segurar por 150 páginas. Não fosse a curiosidade sobre o passado de Wolverine e, sobretudo, a arte de Kubert e Isanove, seria uma história fácil de esquecer.

Wolverine: Origem (Wolverine: Origin, EUA – 2001/2002)
Roteiro: Bill Jemas, Paul Jenkins, Joe Quesada
Arte: Andy Kubert, Richard Isanove
Editora (nos EUA): Marvel Comics (seis edições, entre novembro de 2001 e março de 2002)
Editora (no Brasil): Panini (em três edições e, depois, em edição única encadernada)
Páginas: 153

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.