Crítica | Wolverine: Três Meses Para Morrer – Livro 1 (2014)

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estrelas 3,5

A Marvel é uma piada. Em março de 2013, em razão do projeto Marvel NOW!, ela zerou a publicação de várias revistas, incluindo a de Wolverine. Pouco mais de um ano depois, no #13, eis que a editora zerou novamente a publicação e não se deu nem ao trabalho de renovar a equipe criativa integralmente. Mudou a arte, mas o roteiro continuou ao encargo de Paul Cornell. É evidente que a estratégia de criar novos #1 faz sentido financeiro, mas espero que isso não signifique que, a cada ano, teremos um novo começo que nem começo é.

Bem, mas chega de reclamação. Vamos falar do lado bom.

Cornell, apesar de seu fraco trabalho em Estação de Caça e Mortal, finalmente apresenta algo razoável em Três Meses Para Morrer, o arco que antecede o evento A Morte de Wolverine. Nada sensacional como o personagem mereceria, mas, pelo menos, divertido.

wolverine 2014 cover 2Depois de ser massacrado física e psicologicamente por Dentes de Sabre nos volumes anteriores, Wolverine continua tentando se adaptar à sua vida sem fator de cura. Agora, ele é quase uma piada entre seus inimigos (algo que não dá para entender, mas fecharei os olhos por um momento) e ele tenta provar a si mesmo e aos outros que ainda é o melhor no que faz. Apesar dos X-Men demonstrarem preocupação pelo amigo e mentor da escola de mutantes, o fato é que, no começo da narrativa, Logan é literalmente arremessado no meio da briga com robôs gigantes por Jubileu e é necessário o Homem-Aranha Superior, em excelente diálogo com o baixinho canadense, para fazer o óbvio ululante para o herói: uma armadura que compense a ausência do fator de cura. Chega a doer imaginar que Hank McCoy, a S.H.I.E.L.D. e outros não tenham concluído isso antes.

Mas o que é realmente interessante nesse primeiro arco de Três Meses Para Morrer é que Cornell costura uma história de espionagem, traições e reviravoltas que funciona até certo ponto. Wolverine aparece como vilão no grupo de um chefão chamado The Offer (de “A Oferta” mesmo, em um dos nomes mais ridículos e pouco imaginativos que já me deparei, mas que só está lá para Cornell fazer uma brincadeira semântica que não dá para traduzir para o português). Ele e três outros jovens superpoderosos têm que libertar um ninja que trabalha para Dentes de Sabre como parte de uma estratégia de The Offer para se aproximar do arqui-inimigo de Wolverine para fins próprios.

Toda a ação nos apresenta um outro lado de Logan, um novo romance, um MacGuffin que Dentes de Sabre persegue, a volta para Madripoor e o herói como Caolho novamente. Mesmo que qualquer leitor com um mínimo de experiência seja capaz de deduzir o que vai acontecer, Cornell faz a dinâmica entre Wolverine e seus jovens e novos parceiros funcionar, ainda que o embate final com Dentes de Sabre deixe a desejar e que a semi-revelação do que é o objeto de cobiça do vilão desaponte. Por alguma razão misteriosa, ver Wolverine de armadura é interessante demais para desviar os olhos (ou talvez seja só eu, não sei…).

mosaico wolverine 2014

(1) Arte de Stegman, com Wolverine ainda sem armadura; (2) Arte de Sandoval, com Wolverine de armadura; (3) Dentes de Sabre no traço de Sandoval.

Mas o que melhora radicalmente em Três Meses Para Morrer é a arte. É um alívio ver que a equipe criativa dos volumes anteriores foi defenestrada e que, em seu lugar, entrou Ryan Stegman no lápis, com contribuições de Mark Morales, John Livesay e Scott Hanna nas artes-finais de números variados, do #1 ao #4. Stegman tem um estilo polido, cinético e ótimo para lidar com tecnologia em geral, algo que combina muito bem com os robôs que o herói enfrenta e, claro, sua armadura, além de toda a tecnologia de Madripoor. Mas os personagens também ganham corpo e plasticidade, especialmente o próprio Logan, seus amigos mutantes, Thor (em uma ponta) e, claro, o Homem-Aranha Superior, cujo design é dele.

Só que a coisa fica melhor ainda quando, nos três números finais (#5 a #7), Gerardo Sandoval passa a desenhar sozinho a história. Seus traços altamente estilizados, exagerados, carrancudos são detalhados e belos, uma mudança radical do estilo mais “super-heroístico” de Stegman. Particularmente, gosto muito do trabalho de Sandoval, ainda que ele tenha a tendência de tornar os rostos muito parecidos uns dos outros. No entanto, no caso de Wolverine e Dentes de Sabre, talvez não haja artista melhor para nos passar o lado feral dos dois, com diversas sequências de tirar o fôlego e splash pages para enquadrar e pendurar na parede, além de um controle preciso sobre a transição de quadros, tornando a ação frenética fácil de acompanhar a todo momento.

O “Livro 1” de Três Meses Para Morrer representa uma sensível melhora no trabalho de Paul Cornell, que nos entrega um Wolverine muito mais interessante do que o “chorão” que vimos nos arcos anteriores. No quesito arte, então, esse é um arco que merece ser admirado. Mesmo assim, o resultado geral é ainda aquém do que o personagem merece já há algum tempo, especialmente considerando que esse é o “arco prelúdio” para sua morte pelo tempo que ela durar…

Wolverine (2014): Três Meses Para Morrer – Livro 1 (Wolverine 2014: Three Months to Die – Book 1, EUA)
Conteúdo: Wolverine: Vol. 6 (2014) #1 a 7
Roteiro: Paul Cornell
Arte: Ryan Stegman, Gerardo Sandoval
Arte-final: Ryan Stegman, Gerardo Sandoval, Mark Morales, John Livesay, Scott Hanna
Cores: David Curiel
Editora (nos EUA): Marvel Comics (de fevereiro a maio de 2014)
Editora (no Brasil): Panini Comics (não lançado no Brasil no momento de publicação da crítica)
Páginas: 157

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.