Crítica | Wolverine: Três Meses Para Morrer – Livro 2 (2014)

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estrelas 3,5

Obs: Se você ainda não vem acompanhando a publicação nos EUA (ainda não foi lançada no Brasil), saiba que há spoilers dos arcos anteriores que, na verdade, formam uma grande narrativa única que culmina no evento A Morte de Wolverine. Se quiser ler sobre os arcos anteriores, clique nos seguintes links: Temporada de Caça, Mortal, Três Meses Para Morrer – Livro 1.

Para escrever sobre a segunda e última parte do arco Três Meses Para Morrer, que prepara o terreno para o evento A Morte de Wolverine, faz-necessário abordar o status quo de Wolverine até esse momento. Mas serei sucinto:

– Em Temporada de Caça, Wolverine enfrentou, junto com a S.H.I.E.L.D., um vírus do Microverso que ameaçava a Terra e, no processo, perdeu seu fator de cura;

– Em Mortal, Wolverine, junto com Kitty Pryde, teve que lidar com as consequências da ausência de seu fator de cura e a perseguição por seu inimigo mortal, Dentes de Sabre, agora um senhor do crime com seus 13 Ninjas dissidentes do Tentáculo, além do Samurai de Prata, Lord Deathstrike e Mística. O resultado foi a destruição física e psicológica de Logan.

– Em Três Meses Para Morrer – Livro 1, muita coisa acontece: (1) Logan continua tendo que lidar com a ausência de seu fator de cura e percebe que, em momentos de perigo, simplesmente congela; (2) ele conversa com o Homem-Aranha Superior que acaba presentando-o com uma armadura para compensar um pouco sua mortalidade; (3) Wolverine aparece como parte de um grupo de jovens vilões – e tendo um caso com Pinch – sob o comando de um homem chamado de The Offer (literalmente “A Oferta”) que quer se aproximar do submundo controlado por Dentes de Sabre; (4) essa vilania de Logan, ao longo da trama, é revelada como uma operação undercover da S.H.I.E.L.D. e o MI-13 para evitar que Dentes de Sabre adquirisse uma esfera super-poderosa que se encontra em Madripoor; (5) Logan acaba sem obter o que deseja por congelar novamente em frente a Dentes de Sabre, além de se recusar a chamar ajuda, seu grupo descobre sua traição, Pinch consegue controlar a esfera e Creed revela que sequestrara sua filha e que ela tem que revelar como fez isso.

Com esse cliffhanger, Três Meses Para Morrer – Livro 2 começa. E, para que haja alguma chance de o leitor apreciar o que Paul Cornell tentou fazer aqui, ele terá que ser benevolente e cair na “brincadeira”. Caso contrário, a parte final do trabalho que ele começou em Temporada de Caça mostrar-se-á extremamente insatisfatória.

wolverine 3 months to die 2 coverQuando o volume abre, vemos Logan, Shang-Chi (ah, que saudades do uniforme-kimono clássico dele!) e Punho de Ferro (ah, que saudades do uniforme verde e amarelo dele!) em uma ilha no Japão onde ninguém pode morrer, pois esse é o lugar onde se localiza o  Templo da Morte de Férias. Sim, isso mesmo: o Templo da Morte de Férias. É lá que a Morte – a mesma que é amante de Thanos – vai para descansar um pouquinho de seu dia-a-dia atarefado. Por isso ninguém pode morrer lá, perceberam?

Segundo Shang-Chi e Danny Rand, Logan precisa entrar no templo sozinho e resolver seus problemas com a própria Morte. Enquanto isso, os dois mestres em artes marciais ficam tomando chá ao pé da montanha onde está o templo.

Lá dentro, Wolverine tem uma surreal conversa com a Morte, que fala dos mais variados assuntos, inclusive o quanto Thanos é chato e um stalker. Cornell parece ter se divertido escrevendo esse texto, que quebra completamente todas as expectativas do que podemos esperar de uma temática tão séria. É por isso que eu disse que é necessário “cair na brincadeira” de Cornell e deixar a guarda cair, para que o espírito de seu trabalho possa ser apreciado. Veja, não estou dizendo que adorei o resultado final, apenas que consegui entrar na “mente” do autor e captar o que ele pensou em fazer.

Logan tem que enfrentar seu “medo da morte” e, para isso, a Morte o faz revisitar seu primeiro amor, Rose (vide Wolverine: Origem) para qeu ele finalmente fique em paz com os aspectos inconciliáveis de sua personalidade: ele sempre quis ser um herói, mas sempre soube que a morte e destruição que marcaram suas ações não se compatibilizavam com suas nobres intenções. Foi o que Dentes de Sabre tentou violentamente enfiar na cabeça de Logan ao final de Mortal e, agora, pela primeira vez, o herói finalmente encaixa mentalmente as peças de seu quebra-cabeça mental. Confesso que é uma maneira pouco ortodoxa de se fazer isso, mas poxa, quem é que quer ler as mesmas coisas sempre, não é mesmo?

Tudo isso acontecem em dois números, o #8 e 9, que abrem o arco. A arte, nesse ponto, é de Kris Anka (infelizmente, Gerardo Sandoval, que trabalhou maravilhosamente a arte do final do arco anterior, foi trocado) e ele faz um trabalho competente, especialmente nas sequências de ação (Shang-Chi e Danny Rand têm que lidar com o Tentáculo entre uma xícara de chá e outra) e consegue equilibrar e distribuir bem o diálogo de Cornell ao longo de uma conversa entre Wolverine e a Morte que faz uso de muito contraste entre o claro e o escuro, além de um ou dois paines bonitos, especialmente quando eles se beijam (ahã, isso acontece…). Preferiria Sandoval, mas Anka não desaponta.

mosaico wolverine book 2

(1) o beijo da Morte; (2) Shang-Chi e Punho de Ferro fazendo o que fazem de melhor; (3) Wolverine e seus amigos se preparando para a pancadaria e (4) o momento da verdade.

O problema mesmo vem depois, com a banalização de um começo interessante com uma trama mais rasteira, simplista, com Dentes de Sabre e seu plano de dominação mundial, em que ele, em Nova Iorque (sempre Nova Iorque!), se prepara para ativar a tal esfera super-poderosa, que literalmente pode alterar a realidade, tornando-o “rei do mundo” (tive que segurar meu riso, tamanho é o exagero do que ele prentende). Não sei se Cornell estava tentando ainda brincar com esse tipo de ameaça comum de publicações de super-heróis ou se ele estava se levando a sério. Prefiro imaginar a primeira hipótese, mas, mesmo tendo ela em mente, a qualidade narrativa cai bastante.

E a questão que mais incomoda é o quanto Wolverine está mudado depois de seu tête-à-tête com a simpática Morte. Ele agora é muito educado, arrependido, bonzinho mesmo. Se sua personalidade já estava cambaleante antes, nesse ponto em diante ela fica literalmente insuportável. Não combina em nada com as quatro décadas de selvageria que testemunhamos com o personagem. Wolverine domado é para ser mandado para o circo…

E, com isso, todas as pontas soltas de toda a longa tirada de Paul Cornell vão se resolvendo, com Logan finalmente fazendo as pazes consigo mesmo, aceitando ajuda de que estiver disposto a ajudar e pedindo perdão a quem ele magoou (Kitty Pryde e Ororo entre eles). E, ao final, Cornell ainda nos brinda com uma duvidosa história curta de “origem” do bar Guernica, que ele inventou como sendo o “local de encontro” dos super-heróis e gente que tem alguma conexão com eles, em Nova Iorque.

Esse encerramento de arco teve arte ao encargo de Pete Woods que tem traços bonitos e fluidos, mas burocráticos e pouco memoráveis. Pelo menos não atrapalham.

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Esse volume contém, também, Wolverine Annual (2014) #1, que lida com uma história interessante que mostra a preocupação de Logan com sua mortalidade e sua consequente inabilidade de cuidar daquelas pessoas que ele percebe que necessitam dele. Vemos o herói, então, acampando com Jubileu e seu bebê Shogo, tentando ensiná-la a sobreviver em condições adversas. Há muita diversão a começar com o título, que é Wolf and Cub (“Lobo e Filhote”) que, claro, faz referência ao mangá Lobo Solitário que, em inglês, é Lone Wolf and Cub.

O roteiro, de Elliott Kalan, aborda a relação entre Logan e Jubileu e, paralelamente, a de um casal chegando de carro na mesma região e tentando resolver seu relacionamento. Ambos são militares, com a mulher de patente superior ao homem. Quando as duas histórias convergem com um certo grau de violência, vemos o quanto Jubileu (que, lembrem-se, agora é uma vampira) cresceu. De brinde, ainda vemos Logan novamente com os descendentes de sua alcateia, algo abordado em Wolverine: Origem II.

É um belo roteiro que foge do lugar comum e que  ainda é marcada com uma excelente arte em guache de David Curiel, com painéis pintados que são literalmente deslumbrantes.

Wolverine (2014): Três Meses Para Morrer – Livro 2 (Wolverine 2014: Three Months to Die – Book 2, EUA)
Conteúdo: Wolverine: Vol. 6 (2014) #8 a 12 e Wolverine Annual (2014) #1
Roteiro: Paul Cornell (#8 a 12), Elliott Kalan (Annual #1)
Arte: Kris Anka (#8 e 9), Pete Woods (#10 a 12), Jonathan Marks (Annual #1)
Cores: David Curiel (#8 a 12), Jose Villarrubia (Annual #1)
Editora (nos EUA): Marvel Comics (de junho a agosto de 2014)
Editora (no Brasil): Panini Comics (não lançado no Brasil no momento de publicação da crítica)
Páginas: 164

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.