Crítica | “Woman” – Justice

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estrelas 4

No ano de 2013, o Daft Punk lançava o excelente Random Access Memories e parte dos fãs reclamavam que o duo não puxava o avanço do house, mas retrocedia para as pistas dos anos 70 afim de recuperar o lado mais orgânico da música. Aqueles que julgavam a natureza “influenciável” do álbum dos robôs podem ter mordido a língua já que poucos trabalhos moldaram tão bem o que viria a se seguir nos anos seguintes na indústria da música. Só esse ano, por exemplo, álbuns de nomes grandes como Bruno Mars e The Weeknd parecem beber dessa fonte, mas principalmente Woman, terceiro álbum do Justice, quase uma resposta a RAM levando em conta a proximidade e rivalidade entre as duas duplas francesas de música eletrônica.

Desde 2011, quando lançou o sophomore Audio, Disco, Video, o duo formado por Gaspar Augé e Xavier de Rosnay não lançava um novo disco de estúdio. O primeiro sinal de Woman veio como um trovão: Safe And Sound, o primeiro single, foi feito pra provocar um estardalhaço com a superprodução de seu arranjo e seu groove explosivo feito para as pistas. Já era muito claro que a disco music era o caminho que os franceses escolheram seguir no terceiro álbum. Randy, segunda faixa a ficar disponível, segue o mesmo rumo de produção magnífica, através de uma viagem alucinante por batidas progressivas de cair o queixo, um domínio dos sintetizadores raro de se ver em nível tão elevado. Já Alakazam! veio para acalmar os fãs mais xiitas mostrando que o Justice clássico ainda estava ali, uma faixa que dosa muito bem tudo que a dupla ofereceu nos discos anteriores e o que trazia neste novo.

Fire soa quase como um tributo ao Earth Wind & Fire tamanha a referência que a canção pode trazer na onda de seu refrão fácil, melódico e seus sintetizadores que emulam os teclados e guitarras regadas a funk dos anos 70. O lo-fi de Pleasure e sua clareza nas linhas de baixo e guitarra terminam bem alinhadas com os sintetizadores e dão vazão para o excelente arranjo de vozes no refrão (“Use Imagination/ As A Destination”). Porém, há momentos no disco onde a nostalgia tenta falar mais alto, dando um ar mais apelativo e menos técnico ao trabalho, embora longe de rebaixá-lo. A melancolia romântica típica do AOR e Soul da década de 70/80 assume em faixas como Love S.O.S e Stop, dando um ar mais inofensivo a tais canções, embora a criatividade da dupla não se cale.

A veia progressiva do Justice é responsável por grande parte do clímax do trabalho. Desde os experimentos frenéticos  dos 6 espetaculares minutos de Randy – faixa destaque pelo pacote arrebatador de batidas imprevisíveis – até os 7 minutos de Chorus e sua atmosfera paciente, sempre em construção, Woman acerta pela dose acertada de surpresas, pelo mistério de onde cada batida pode levar. Heavy Metal, por sua vez, com seu órgão tenebroso guia o ouvinte em meio a batidas fortes e dinâmicas que evocam uma das maiores definições do house, o esquecido Homework do Daft Punk.

Phone Call é um melancólico aceno de despedida através de um arranjo intimista e contemplativo que suga o ouvinte para a nebula dos sintetizadores. Woman captura a era de ouro da disco music com brilhantismo ao mesmo tempo que retorna o nível de excelência eletrônica do debut Cross (embora os fãs precisam entender que se tratam de propostas bem diferentes). A aquarela de cores a pintar a cruz – símbolo da dupla – na capa do álbum é uma enorme síntese desta obra: colorida, enérgica e melódica, uma nova oxigenada na discografia dos franceses.

Aumenta!: Randy
Diminui!: Stop

Woman
Artista: Justice
País: França
Gravadora: Because, Ed Banger
Lançamento: 18 de novembro de 2016
Estilo: Música Eletrônica, Disco

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.