Crítica | Wynonna Earp – 1ª Temporada

Buffy, a Caça-Vampiros só que, no lugar de estacas, um revólver “mágico”. Essa é, basicamente, a definição de Wynonna Earp, série baseada na criação noventista em quadrinhos de Beau Smith que coloca a descendente do famoso pistoleiro Wyatt Earp como uma agente da Black Badge, divisão do governo americano, caçando toda a sorte de criaturas em Purgatório, sua cidade natal, e no chamado Ghost River Triangle, perto das montanhas rochosas do Canadá.

Estruturalmente, a 1ª temporada segue fundamentalmente o caminho de “monstro da semana”, mas sem perder de vista a história maior que lida com o passado de Wynonna, vivida por Melanie Scrofano, mais especificamente o trágico momento em que bandidos originalmente mortos por Wyatt Earp e devidamente ressuscitados, invadem sua casa e sequestram sua irmã, a efetiva herdeira da “maldição dos Earp” e seu pai, que é morto por um tiro errado da própria Wynonna, ainda muito jovem. Quando a série começa, vemos a protagonista, depois de anos, voltando para sua cidade para o enterro de seu tio, exatamente na virada do dia em que faz 27 anos, o que marca o gatilho (sem trocadilho) para que a tal maldição, nunca explicada em detalhes, transforme-a substancialmente em Wynonna, a Caçadora de Desmortos e Outras Criaturas Sobrenaturais Aleatórias, algo que ela tem prazer em fazer, empunhando o ridiculamente comprido revólver original de seu tataravó famoso.

Não demora para que sua irmã mais nova, a geninha Waverly (Dominique Provost-Chalkley) junte-se a ela nessa cruzada e para que o xerife federal Xavier Dolls (Shamier Anderson), da divisão Black Badge, recrute-as como suas agentes. Entre demônios caipiras variados que vivem na cidade há décadas sob a liderança de Bobo Del Rey (Michael Eklund), uma bruxa enlouquecida (Constance Clootie, vivida por Rayisa Kondracki), o misterioso retorno de Doc Holliday (Tim Rozon) do mesmo poço de onde Wynonna resgata o revólver mágico, o romance inicialmente hesitante entre Waverly e a policial Nicole Haught (Katherine Barrell) e o desvendamento lento do que exatamente aconteceu com Willa (Natalie Krill), a irmã Earp sequestrada há décadas e dada como morta, a temporada vai caminhando de maneira burocrática até seu encerramento semi-apoteótico cheio de pontas soltas sem respostas.

Com efeitos especiais muito ruins que se resumem aos olhos vermelhos dos demônios e as aberturas de buracos para o inferno (o efeito que cada tiro que Wynonna tem nos bandidos ressuscitados) que séries dos anos 80 já faziam melhor, o lado sobrenatural é claudicante no máximo e desinteressante por todo o tempo, com criaturas demoníacas que mais causam risos inadvertidos do que um mínimo grau de tensão ou ameaça. Claro que a culpa maior para isso não repousa sobre os efeitos, mas sim sobre os roteiros capitaneados pela desenvolvedora e showrunner Emily Andras que pega o já clichê material base e cria pseudo-complexos passados para Wynonna, Waverly, Doc, Dolls e Bobo que são apenas desculpas para chavões, salvamentos de última hora, lutas preguiçosas e surpresas completamente previsíveis.

A construção de personagens, especialmente a protagonista, é, pelo menos nesta primeira temporada, inexistente. Wynonna é tão unidimensional quanto sua contrapartida gostosona dos quadrinhos, com mais uma série que confunde papel feminino forte com papel feminino porradeiro, como se a presença física fosse determinante para tudo. E o pior é que Scrofano tem potencial. Ela não demora para encaixar-se em seu papel, mas os roteiros simplesmente não lhe dão oportunidade para ser mais do que uma ex-delinquente insegura que, de repente, transforma-se em uma caçadora de demônios. Com isso, ela pouco tem espaço para crescer e tudo o que aprendemos de seu passado escuso fora dos flashbacks nos é trazido por textos expositivos que dizem ao espectador o que devemos sentir em relação a ela. Não é muito diferente nos casos de Waverly, de Doc Holliday e de Dolls, que são personagens sem qualquer profundidade e que existem como sidekicks – e chefe, no caso de Dolls – sem nenhuma inspiração ou nenhum tentativa de serem mais do que artifícios narrativos carregados de clichê e estereótipos. O único que foge um pouco à regra muito mais pela vilania divertida é Bobo Del Rey, mas é um papel de uma nota só da mesma forma que os demais.

A 1ª temporada de Wynonna Earp, apesar de ter apenas 13 episódios de tamanho regulamentar, parece estender-se eternamente em um ciclo repetitivo que cansa. O pouco de potencial que é possível entrever aqui e ali neste faroeste sobrenatural moderno infelizmente perde espaço em razão de roteiros básicos e preguiçosos que fazem até mesmo o elenco, apesar dos esforços, parecer que está no automático.

Wynonna Earp – 1ª Temporada (EUA/Canadá – 1º de abril a 24 de junho de 2016)
Desenvolvimento e showrunner: Emily Andras (baseado em quadrinhos de Beau Smith)
Direção: Paolo Barzman, Ron Murphy, Brett Sullivan, Peter Stebbings
Roteiro: Emily Andras, Brendon Yorke, James Hurst, Shelley Scarrow, Alexandra Zarowny, Caitlin D. Fryers, Amona Barckert
Elenco: Melanie Scrofano, Shamier Anderson, Tim Rozon, Dominique Provost-Chalkley, Katherine Barrell, Greg Lawson, Michael Eklund, Rayisa Kondracki, Kate Drummond, Natalie Krill, Shaun Johnston
Canal: SyFy
Duração: 560 min. (13 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.