Crítica | Wynonna Earp – Minissérie Original (1996)

Existem as Eras de Ouro, Prata, Bronze e Moderna nos quadrinhos, com a quarta sendo também chamada de Era Sombria, normalmente considerada como iniciando na segunda metade da década de 80 e continuando até hoje e tendo como dois de seus marcos as magníficas graphic novels Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen. Cada uma delas carrega suas características marcantes tanto no lado dos roteiros quanto da arte. No entanto, dentro da Era Moderna, talvez fosse justo destacar – e não positivamente, que fique claro – as obras histriônicas que se concentraram na década de 90 a partir das duas grandes editoras mainstream e que se solidificaram de verdade com a entrada bombástica da Image Comics no mercado, composta de grandes nomes da indústria desgostosos com a forma com que eram tratados na Marvel e DC Comics.

Se a Era Moderna começa com a pegada mais realista e sombria das obras de Frank Miller e Alan Moore citadas acima, chega a ser uma afronta quando elas são colocadas no mesmo “agrupamento” do que grande parte dos quadrinhos dos anos 90 fez com a Nona Arte, transformando tudo e qualquer coisa em uma explosão cinética descerebrada com vários dos seguintes elementos em comum: corpos exagerados e/ou disformes e/ou desproporcionais, sexualização (ou vulgarização, como queiram) extrema de qualquer personagem e sem nenhuma razão narrativa aparente, uniformes mais do que extravagantes repletos de couro, tachas, espetos, correntes, detalhes dourados e prateados e coisas espalhafatosas nessa linha e, claro, roteiros que se limitam a servir de desculpas para pancadarias homéricas repletas de explosões michaelbayanas capazes de causar ataques de epilepsia em quem lê. Claro que há várias honrosas exceções, mas que regra não as têm, não é mesmo?

Fiz essa introdução porque a leitura da minissérie que introduziu a personagem Wynonna Earp, descendente de Wyatt Earp, do famoso tiroteio do O.K. Corral, lembrou-me exatamente dessa época e só solidificou ainda mais o que a década em questão significou para os quadrinhos. Afinal, a criação de Beau Smith, originalmente publicada não coincidentemente na Image Comics, editora que começou 100% no estilo noventista de ser (vide Spawn, Youngblood, WildC.A.T.S. e The Savage Dragon, só para citar seus quatro pilares) e amadureceu rapidamente para uma das melhores do mercado. Wynonna Earp é o fruto de sua época, sem tirar nem por, com praticamente todos os elementos que listei no parágrafo anterior. Com cabelos loiros enormes e esvoaçantes, pernas torneadas de dois metros de comprimento, peitos volumosos e perfeitos, armas pesadíssimas e quase nenhuma roupa, Earp é a hilária epítome da mulher objetificada desenhada tendo nerds babões como alvo (não que isso seja exclusividade dos anos 90, claro, vide Sonja, a Guerreira). E, antes que venham de dedo em riste, saibam que não vejo nada particularmente errado com isso e a leitura da minissérie é até absurdamente agradável em razão disso e do resto das trasheiras que Smith reúne em seu arremedo de roteiro.

Figurinos perfeitos para trucidar monstros!

Sem perder tempo, Earp é apresentada como uma temida xerife federal de uma divisão que enfrenta ameaças sobrenaturais. Ela atira primeiro e depois pergunta bem no estilo Dirty Harry, fala por meio de chavões como Marion Cobretti e contorce-se sensualmente como Jane Fond em Barbarella, Pamela Anderson em Baywatch ou como qualquer atriz de filme pornô (não que eu tenha visto algum na vida, claro, he, he, he…) ao enfrentar vampiros e múmias em histórias feitas para permitir que Joyce Chin e Pat Lee gastem seus lápis para desenhar páginas que berram, urram e vociferam na cara do leitor. O ataque sensorial é o equivalente visual a ser espancado por Rocky ao longo de 12 rounds e não há muito o que fazer a não ser tentar apreciar cada soco.

Em termos de história, não há muito o que falar. Na verdade, a minissérie não conta apenas uma aventura da heroína, mas sim duas, em dois mini-arcos. O primeiro, composto pelas histórias Red Necks, White Corpuscles and Blue Ribbon BeerThe Bloody Badge of the Law e Death Sucks, coloca Wynonna Earp no interior dos EUA contra um grupo de vampiros traficantes de uma droga experimental que transforma os viciados em monstros, com a ajuda conveniente – mas desnecessária, já que Earp não precisa de auxílio para absolutamente nada – de dois caçadores de recompensas que, logicamente, são lobisomens. O resultado é o banho de sangue usual, com personagens com tanto músculo que quase não cabem nas páginas. Já o segundo arco, composto de Refried Dead e Wrap Party, tenta parecer um pouco mais sofisticado, deslocando a ação para Nova York e envolvendo o assassinato de diversões chefões do crime por uma múmia (que, para a surpresa de ninguém, também é musculosa…) e um plano surreal de dominação mundial. Há, de fato, mais refinamento aqui, com um pouco de passado para Earp e violência mais, digamos, comedida, em um resultado menos histérico, mas que não renega a origem.

Depois de ler tudo que escrevi, provavelmente o leitor concluirá que detestei a minissérie, mas isso não é verdade. Há um elemento importante aqui que deixei propositalmente para o final: Beau Smith tem um bom grau de auto-consciência sobre o tipo de história que escreve e, com isso, consegue deixar as piscadelas para que o leitor possa ler tudo com um salutar ar de deboche e auto-crítica. É Smith basicamente dizendo que, se meus colegas vendem revistas a rodo com sangue, peitorais e pernas, então porque não fazer o mesmo. Infelizmente, porém, ele perde algumas boas oportunidades, nesse processo, de explorar o sobrenome famoso de sua personagem, que fica sem função a não ser chamar a atenção do leitor que souber ligá-lo à história e lenda de Wyatt Earp e de dar um pouquinho mais de estofo para ela, de forma que sintamos algo por Wynonna que não seja oriundo de seus atributos físicos e de sua violência extrema.

Originalmente publicada em preto-e-branco, o que torna a arte um pouco mais interessante e menos lugar-comum noventista, a minissérie, depois, ganhou cores por Nathan Lumm que acompanham a pegada original da época em que ela foi escrita. O resultado é o que se pode esperar da década que, por si só, deveria ganhar algum nome especial como Era Forma Sobre Substância.

Wynonna Earp, nesse seu começo, é uma personagem que nem de longe marcará o leitor para além de sua voluptuosidade. Diverte, sem dúvida, mas não satisfaz de verdade.

Wynonna Earp (Idem, EUA – 1996/7)
Contendo: Wynonna Earp #1 a 5
Roteiro: Beau Smith
Arte: Joyce Chin, Pat Lee
Arte-final: Mark Irwin, Danny Bulanadi, Luke Rizzo
Cores: Nathan Lumm
Letras: Amie Grenier
Editoria: Rachelle Brissenden, Mike Rockwitz
Editora original: Image Comics
Data original de publicação: dezembro de 1996 a abril de 1997
Páginas: adsfs

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.