Crítica | X-23: Inocência Perdida (X-23 #1 a 6 – 2005)

estrelas 4,5

A origem detalhada de Wolverine demorou uma eternidade a ser esmiuçada desde que o icônico personagem surgiu pela primeira vez em 1974, na páginas de O Incrível Hulk. O mistério sobre quem exatamente ele era fazia parte de seu charme e de sua construção como um dos mais famosos personagens da Marvel Comics e, antes de sua vida tornar-se um entediante livro aberto na série mensal Wolverine Origens, talvez seu mais importante arco nos dando um vislumbre de sua vida pré-X-Men tenha sido Arma X, publicado entre março e setembro de 1991 em que descobrimos, dentre outras coisas, como ele ganhou a camada do metal inquebrantável adamantium por sobre seu esqueleto.

Assim, seria ridículo se a editora tentasse a mesma coisa com X-23, a misteriosa clone dele que surgiu pela primeira vez em 2003, na animação X-Men: Evolution e, nos quadrinhos, no ano seguinte, na série limitada NYX: Aspirante. Portanto, X-23: Inocência Perdida é uma detalhada história de origem da personagem contada em seis edições em que aprendemos cada aspecto sobre ela: como ela é um clone de Wolverine, se é do sexo feminino; como ela tornou-se uma arma mortal, como ganhou o adamantium e como ela recebeu o condicionamento de estado berserk a partir do “cheiro de gatilho”. É uma trágica história que em muitos aspectos emula a de Wolverine, mas que tem elementos próprios e, olhando como um todo, é muito mais coesa do que a da fonte de seu material genético.

Aliás, falando em genética, a história, escrita por Craig Kyle e Christopher Yost, começa com um pequeno e misericordiosamente indolor retcon em Arma X. Vemos os últimos minutos do “nascimento de Wolverine” e como ele liquida todo mundo na instalação governamental canadense. Mas vemos, também, que, na verdade, havia um espião ali que furta o material genético de Logan, mas que é morto por ele do lado de fora da instalação. Inocência Perdida começa não muito mais do que poucas horas depois, com esse material sendo recolhido pelo Doutor Martin Sutter que deseja continuar o projeto ao mesmo tempo que lamenta a morte do amigo espião, passando a cuidar de seu filho, Zander Rice. Anos se passam e Zander torna-se um amargurado cientista que capitaneia o novo projeto de Sutter projetando ali todo seu obsessivo desejo de vingança pessoal contra Wolverine pela morte do pai, e que fica contrariado quando a fria geneticista Sarah Kinney é contratada para criar um clone de Logan a partir do que resta do material recolhido, já que todas as tentativas anteriores de se replicar o Fator X não deram certo.

Toda a aventura é narrada a partir da perspectiva de Sarah, em uma longa carta escrita para X-23, o que já deixa entrever o tom trágico que a história não demora a tomar. Por questões práticas, mas desobedecendo ordens de Sutter, Sarah acaba expurgando o cromossomo Y e criando uma versão feminina de Wolverine que Zander a obriga a levar a termo em seu próprio útero, gerando, assim, uma inevitável conexão entre mãe e filha, o que aos poucos vai degelando o coração frio de Sarah e dando a Laura algo que lembre – ainda que de longe – o amor maternal.

A partir daí, a minissérie rapidamente desenvolve e estabelece firmemente os conceitos que aprendemos antes sobre X-23, inclusive a auto-flagelação no braço que vemos em NYX. A menina é abusada de todas as formas – menos na variação sexual (algo possível, mas nem mesmo deixado nas entrelinhas) – tornando-se, no processo, uma máquina fria de matar ainda em tenra idade, sendo obrigada a cometer atos tenebrosos até mesmo contra pessoas que a tratam de forma mais humana, contra todas as regras. Nesse desenvolvimento, Kyle e Yost se mostram como dois autores profundamente cruéis, capazes de criar situações de revirar o estômago, mas que, infelizmente, não estão muito longe do que a natureza humana é capaz de conceber no mundo real. A pequena garota com garras de adamantium não é muito mais do que um instrumento mortal de precisão em forma humana.

O roteiro dos dois é circular e lógico, bebendo do melhor que a origem de Wolverine tem a oferecer e criando uma nova e perturbadora mitologia para X-23 que a definiria nos anos seguintes. A personagem é inteligentemente inserida no Universo Marvel e sedimenta suas bases ao ponto de, hoje, ela própria ser a substituta oficial de Wolverine, após sua morte (enquanto durar, claro).

A arte ficou ao encargo de Billy Tan, que cria algo funcional em termos de ação e de design de X-23 que ganha claramente contornos mais, digamos, infantis, o que amplifica o desconforto do leitor em vê-la cometer os atos que comete. No entanto, ele peca muito na uniformização dos rostos e corpos dos demais personagens, de Sutter e Zander, passando por Sarah e até mesmo um sensei japonês e soldados aleatórios presentes unicamente para morrer. Os momentos de luta com X-23 são bons, mas não exatamente espetaculares, pois o artista esconde mais do que mostra, o que poderia ser bom, mas, aqui, acaba tornando-se anticlimático em muitos momentos. De toda forma, o resultado final é coeso e bonito de se ver.

Inocência Perdida é uma mais do que sólida minissérie de origem que dá as bases narrativas para que compreendamos a profundidade do trauma e das habilidades de Laura Kinney. Leitura essencial para quem quer conhecer tudo sobre a personagem.

X-23: Inocência Perdida (X-23: Innocence Lost, EUA – 2005)
Roteiro: Craig Kyle, Christopher Yost
Arte: Billy Tan
Arte-final: Jon Sibal
Cores: Brian Haberlin
Letras: Chris Eliopoulos, Cory Petit
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: março a julho de 2005
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: abril a junho de 2006 (em três edições)
Páginas: 156

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.