Crítica | X-Men: Apocalipse (Sem Spoilers)

estrelas 4

Bryan Singer deve ter sido a melhor coisa que já aconteceu com os X-Men. Com os dois sólidos primeiros filmes (sendo o segundo uma obra-prima de seu gênero) e um terceiro longa abaixo da média comandado por Brett Ratner, Singer retornou ao universo mutante na produção de X-Men: Primeira Classe, comandado com firmeza pelo excepcional Matthew Vaughn. Então, Singer de fato retornou à cadeira de direção com X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, filme que deu um novo rumo à franquia que continua agora forte como nunca com Apocalipse.

A trama dá um salto temporal de uma década após o anterior, colocando a ação em 1983. Charles Xavier (James McAvoy, hein Deadpool?) mantém com eficiência sua Escola para Superdotados, que vai crescendo cada vez mais com a chegada de novos mutantes, incluindo a telepata Jean Grey (Sophie Turner) e o ainda descontrolado Scott Summers (Tye Sheridan). Os eventos aqui coincidem com o despertar do primeiro mutante da História, um ser conhecido como Apocalipse (Oscar Isaac), que parte reunindo seguidores para “salvar” a Terra de seus líderes cegos e falsos deuses.

Novamente roteirizado por Simon Kinberg, este é sem dúvida o mais denso e dramático filme dos X-Men. Até sua extensa duração de 143 minutos o coloca como o longa mais comprido da série, e o que vemos em cena é uma pura definição de épico e grandiosidade. O prólogo do filme nos leva a uma fantástica introdução ao personagem-título, com um imponente trabalho de design de produção para imaginar Egito no qual seres mutantes pudessem habitar, assim como a operática trilha sonora de John Ottman – que adota um coral ritualístico marcante. Todo o discurso do vilão acaba soando um tanto redundante, já que se trata de um personagem mais de palavras do que de ação, ainda que Isaac esteja ótimo e a maquiagem e figurino marcante do mutante sejam extremamente ameaçadoras.

Porém, a presença de Apocalipse aqui é um símbolo. Uma representação de destruição e recomeço, temas muito presentes nos arcos dos personagens. O Magneto de Michael Fassbender é responsável pelo arco mais trágico e bem explorado aqui, já que o outrora terrorista agora é um homem de família vivendo em segredo na Polônia. Quando ele é radicalmente retirado de seu cotidiano pacato, vemos um dos melhores momentos de Fassbender no papel, em uma cena que imediatamente nos remete à sua performance shakesperiana em Macbeth, e a forma como grita aos céus – à Deus – que ser um homem cruel é seu destino, é poderosa e só nos comprova a inteligência de Singer como diretor – vide a sutileza da fotografia de Newton Thomas Sigel em equilibrar tons quentes e frios em uma cena pivotal para o rumo de Magneto, sendo ainda mais relevante pelo fato de Apocalipse se considerar um Deus.

Se havia alguma desconfiança sobre a Mística de Jennifer Lawrence raptar o filme para si, ela é brutalmente desmentida durante a projeção. A mutante transmorfa tem um papel significante na trama, mas é apenas um importante elemento do quadro-geral: este é provavelmente o filme no qual os personagens encontram-se melhores distribuídos, deixando bem evidente que o protagonismo do longa é inteiramente da equipe dos X-Men. As apresentações dos novos Jean, Scott, Tempestade (Alexandra Shipp) e Noturno (Kodi-Smit McPhee) são ótimas, e ainda têm o luxo de terem intérpretes excepcionais para cada um deles e arcos bem definidos e amarrados ao longo da projeção; principalmente com Jean abraçando a natureza de sua habilidade, Scott aceitando o papel deixado por seu irmão, Alex (Lucas Till) e Tempestade enfim definindo o tipo de líder que quer seguir.

Nessa organização de personagens, a montagem do próprio John Ottman (não devem existir muitos compositores que também atuam como montadores em seus filmes) e Michael Louis Hill merece aplausos, já que até mesmo a obrigatória presença do divertidíssimo Mercúrio (Evan Peters) funciona. Aliás, Singer e sua equipe se superaram ao criar uma sequência musical para demonstrar os poderes do personagem que é ainda mais ambiciosa do que aquela vista em Dias de um Futuro Esquecido, e me peguei tão boquiaberto agora quanto em 2014.

Não é uma experiência perfeita, já que a própria redundância do discurso de Apocalipse acaba tirando um pouco de sua força (ainda que reforce que impacto de sua presença é mais simbólico), além de algumas coincidências e golpes de sorte do destino, principalmente quando a figura de Striker (Josh Helman) e seu projeto Arma X entram em cena. Alguns personagens adorados pelos fãs também acabam desfocados, como a Psylocke de Olivia Munn e a Jubileu de Lana Condor, rendendo mais um um fan service do que uma participação realmente memorável.

O retorno da Moira MacTaggert de Rose Byrne também não oferece muita relevância para o andamento da trama, mas é importante por manter uma conexão vívida com Primeira Classe (o uso de clipes dos outros filmes também fortalece a catarse de alguns personagens) e pelo apelo emocional de Charles Xavier, que continua sendo vivido com intensidade por James McAvoy, dessa vez com uma persona mais forte e determinada do que o Xavier emocionalmente perdido que encontramos no anterior.

Mas no fim, X-Men: Apocalipse é um filme denso e que coloca o desenvolvimento de seus personagens em primeiro plano, partindo para explorar o tema do símbolo e a da ideologia religiosa nesse vasto e colorido universo mutante, que parece cada vez mais interessante a cada filme. Com Bryan Singer no comando e o talentoso elenco em mãos, espero ainda sair satisfeito do cinema muito mais vezes.

X-Men: Apocalipse (X-Men: Apocalypse, EUA – 2016)

Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg
Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Evan Peters, Olivia Munn, Sophie Turner, Tye Sheridan, Alexandra Shipp, Kodi Smit-McPhee, Rose Byrne, Lucas Till, Ben Hardy, Josh Helman, Landa Condor, Hugh Jackman
Duração: 143 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.