Crítica | X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (1981)

estrelas 4

É uma tendência que adaptações cinematográficas às histórias em quadrinhos tomem como referência arcos aclamados e bastante populares para que, dessa forma, o plot do roteiro não se inicie do ponto zero. Assim aconteceu com o incrível Coringa (Jack Nicholson) de Tim Burton em Batman (1989), inspirado no clássico A Piada Mortal de Alan Moore, bem como em O Espetacular Homem-Aranha, baseado na série homônima assinada por Stan Lee.

Na franquia X-Men não seria diferente. Do mesmo modo que os filmes anteriores tomaram como referência importantes núcleos do universo mutante, como a Arma X, a Resistência Mutante e até mesmo à Saga da Fênix – abordada da pior maneira possível em X-Men 3 -, o novo longa dirigido por Bryan Singer adapta a inovadora história X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido.

A história original idealizada por Chris Claremont e John Byrne foi uma publicação da Uncanny X-Men em 1981 e já serviu de inspiração para outros produtos. Dentre os mais conhecidos estão os dois episódios da série animada da década de 1990 X-Men e também para o roteiro de Wolverine e os X-Men, série exibida entre 2008 e 2009.

A história tem lugar em uma Nova Iorque distópica durante o ano de  2013. Neste contexto, a sociedade passa a ter três diferentes castas: a dos Humanos Normais que, desprovidos de genes mutantes, podem procriar; a dos Humanos Anormais, pessoas comuns portadoras dos genes mutantes que não podem procriar; e a dos Mutantes, que são caçados, perseguidos com o amparo da lei e, quando não mortos, obrigados a viver em campos de concentração.

Desde o seu surgimento, a história dos X-Men foi pensada de modo a elucidar metaforicamente as inúmeras questões sociopolíticas da sociedade atual. Discussões sobre a disparidade entre opressor e oprimido, revoltas da classe minoritária, ativismo social e intolerância aos mais diferentes comportamentos estão presentes em qualquer produção midiática da franquia. Em X-Men: Dias de Um Futuro essas questões são bem delineadas. O futuro ali representado, dialoga, por exemplo, com a política antissemita nazista, similar ao modus operandi que o governo determina aos mutantes.

Com o objetivo de reverter essa realidade pungente, os únicos X-Men que permaneceram vivos conseguem desenvolver uma maneira de enviar Kitty Pryde ao ano de 1980 para tentar impedir o assassinado do Senador Robert Kelly, evento determinante para a situação vigente em 2013. A Kitty do futuro já no seu corpo do passado, alerta os X-Men sobre o perigo que os aguarda e juntos vão à defesa do Senador.

Os confrontos são muitos. Se no futuro os X-Men lutam pela sobrevivência contra os Sentinelas, em 1980 a batalha se dá entre os dois grupos de mutantes (X-Men e a Nova Irmandade de Mutantes) e o exército civil, disposto a atirar em tudo que não é humano. É interessante observar a velha guarda sair de cena para que novas lideranças entrem em ação. Charles Xavier e Magneto são meros coadjuvantes na história. O que vemos são os X-Men sob o comando de Tempestade e a sede de vingança de Mística ao liderar a Nova Irmandade.

A história é bem amarrada e o roteiro não tem quebras ou furos. O problema está na atenção em demasia que é dada às cenas de luta. A própria consistência dos diálogos vai sendo aglutinada pelo relato desnecessário de golpes, estratégias de luta e poderes mutantes. O ponto alto da leitura está geralmente fora dos balões de diálogo, graças à excelente arte de John Byrne, meticulosa nos detalhes.

O equilíbrio entre futuro e presente é criado de maneira bem articulada. O tempo é um fator crucial em toda a temática e a velocidade com a qual os eventos se desenrolam é tão rápida que algumas cenas não ganham o peso que mereciam. Por maior que fosse a desvantagem dos X-Men no futuro, é decepcionante vê-los mortos de uma maneira tão simples. A morte de Wolverine pelas mãos de um Sentinela é algo que realmente não se pode esperar.

A trama chega ao fim quando Kitty consegue impedir que a mutante telepata Sina mate o Senador Kelly. A partir daí, um futuro paralelo é criado e não é mais possível saber qual realidade aguarda os mutantes em 2013.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido tem uma boa premissa precursora de diversas outras distopias famosas nos anos 80. O que talvez possa ser observado é que tanto em sua estética, quanto principalmente em seu enredo, é que, apesar de bem conduzidos, há uma superestimação em torno da história. Claremont e Byrne criam um argumento convincente, mas que não justifica tamanho enaltecimento.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past, EUA, 1981)
Publicação Original: Uncanny X-Men #141 – 142 (EUA, jan. – fev. 1981).
Publicação no Brasil: Superaventuras Marvel #45 – 46 (1986), X-Men Especial nº 2 (1990), X-Men Edição Histórica nº 3 (2003), Marvel 40 anos no Brasil (2007).
Argumento: Chris Claremont e John Byrne
Roteiro: Chris Claremont
Arte: John Byrne
Páginas: 50

FILIPE MONTEIRO . . . O exército vermelho no War, os indianos em Age of Empires, Lannister de Rochedo Casterly. Entrou em órbita terrestre antes que a Estrela da Morte fosse destruída, passou pela Alameda dos Anjos, pernoitou em Azkaban, ajudou a combater o crime em Gotham e andam dizendo por aí que construiu Woodburry. Em uma realidade alternativa, é graduando em Jornalismo, estuda Narrativas e Cultura Popular, gosta de cerveja e tempera coentro com comida.