Crítica | X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido

estrelas 4

O filme mais ambicioso dos mutantes até hoje, Dias de Um Futuro Esquecido é baseado no arco de mesmo nome da HQ The Uncanny X-Men. Não ouso comparar o longa com Os Vingadores, como muitos têm feito, por se tratar de um problema inteiramente diferente que envolve viagem no tempo e a divisão da carga dramática em dois centros. É uma obra que tem tudo para fracassar em proporções homéricas, mas o que vemos é o total oposto disso.

Nova Iorque, 2023. Vemos uma cidade completamente destruída, ocultada nas sombras de nuvens negras, algo similar ao presente de Matrix. Perante toda essa distopia, encontramos um grupo de mutantes lutando pela sua sobrevivência contra os terríveis Sentinelas – máquinas destruidoras capazes de se adaptarem aos poderes de seu oponente quase que instantaneamente. As esperanças pouco a pouco se extinguem até que Kitty Pryde (Ellen Page) consegue enviar ao passado a mente de Bishop (Omar Sy, de Intocáveis) para que este possa avisar aos outros sobre a vinda dos robôs. Não é a primeira vez que tal plano foi utilizado e logo ele se torna a única chance de sobrevivência do grupo.

Em seguida, os mutantes se encontram com Charles Xavier. De volta à sua velha aparência sem a menor explicação, este propõe que a sua mente seja enviada para o passado a fim de evitar sequer a aprovação da lei anti-mutantes que possibilitou a criação dos Sentinelas. O destino é 1973. Seu cérebro, porém, por mais poderoso que seja, não aguentaria tal viagem, cabendo a Wolverine (Hugh Jackman) a missão de evitar que aquele futuro passe a existir.

Bryan Singer conduz seu mais novo filme de maneira orgânica, utilizando Logan para unir as narrativas do futuro e passado. A desculpa empregada para trocar o papel de Kitty pelo Carcaju se encaixa perfeitamente dentro da trama, apesar de os poderes de Pryde não entrarem no conceito de viagem no tempo. Este é apenas o primeiro dos deslizes do longa que, por mais que afetem um fator central da trama, podem ser facilmente perdoados perante as qualidades da obra.

Utilizar Wolverine como elemento de coesão do filme, contudo, poderia trazer um grande problema: o foco exagerado no personagem que já conta para si com dois filmes solo, além de já ter recebido muita atenção em toda a trilogia original dos X-Men. Felizmente, o roteiro de Simon Kinberg, junto da montagem de John Ottman, permite que o foco flua de personagem a personagem sem tornar a narrativa confusa.

Quando paramos para perceber, Logan não é mais o foco da história. Chega a ser impressionante como é fácil entender toda a trama do longa, considerando que estamos tratando de diversos personagens e duas linhas temporais distintas. Ora acompanhamos Magneto no passado, ora vemos o grupo de mutantes no futuro, ou até mesmo Mercúrio, que conta com momentos somente para ele, roubando completamente a cena através não só da atuação de Evan Peters (de American Horror Story), como da própria retratação inesquecivelmente cômica dada ao personagem, que se encaixa perfeitamente dentro da proposta e personalidade do personagem em 1973.

É claro que, falando de atores, não podemos esquecer dos trabalhos de James MacAvoy e Hugh Jackman, que finalmente têm um bom roteiro para se destacar. MacAvoy, no papel do jovem Xavier, nos traz uma figura depressiva e viciada em seu tipo especial de droga, um homem cujos sonhos foram, aparentemente, destruídos e que não acredita nos propósitos nobres de outrora. Wolverine, por sua vez, atua surpreendentemente como a voz da razão, demonstrando uma grande evolução do personagem dentro de toda a franquia. É claro, porém, que não faltam momentos da clássica falta de paciência do Carcaju.

Por outro lado, a história não conduz bem personagens como o jovem Magneto (Michael Fassbender) e Trask (Peter Dinklage). O primeiro está inserido em situações demasiado forçadas pelo texto, que soam como desculpa para o desenrolar dos acontecimentos, enquanto que o segundo não ganha qualquer espaço, tornando-se mais um antagonista genérico dos filmes dos X-Men, algo como o Senador Kelly no primeiro longa-metragem.

Se Bolivar é uma figura sem força dentro da trama, temos, por outro lado, os Sentinelas. Estes sim são um elemento verdadeiramente ameaçador, criando uma expressiva tensão em todos os momentos em que aparecem. Tal fator se intensifica pela retratação sombria do futuro e o uso da violência, que nos faz sentir como se a vida de todos ali realmente estivessem em perigo. As cenas de ação entre os mutantes e as máquinas são consideravelmente bem conduzidas, em especial levando-se em conta os portais de Blink, que garantem uma dinâmica bastante criativa para as lutas. Os efeitos utilizados são impressionantes e mesclam bem com o live action. Minha única ressalva é quanto à Colossus, que aparenta extremamente artificial em sua forma de aço orgânico.

Tais cenas de embate, embora possam parecer desnecessárias para a trama, contribuem para a diferença de tom entre as duas épocas retratadas na obra. O que vemos no futuro são lutas sérias de vida ou morte, enquanto que, no passado, diversas sequências de ação contam com uma veia mais cômica, que, aos poucos, se torna mais séria conforme a narrativa progride. Neste sentido, vemos uma fórmula similar à utilizada em Primeira Classe, o que acaba gerando a sensação de que o papel de Magneto foi apenas reciclado neste novo filme.

Os deslizes do roteiro voltam a se apresentar, novamente, no encerramento, que não conta com toda a ousadia do quadrinho original, apresentando claramente o resultado da empreitada de Wolverine. É um final satisfatório, mas que perde a potência de um fim em aberto que poderia ter sido facilmente exibido.

Por fim, não posso deixar de comentar a trilha sonora da obra. John Ottman certamente nos traz melodias que captam toda a carga dramática do futuro e consegue transformar suas músicas a fim de captar a essência da tonalidade que vemos do presente. Ainda assim, não somos apresentados a músicas tão marcantes quanto em Primeira Classe. Em diversos momentos do longa, esperava ouvir a ameaçadora melodia do tema de Magneto, composta por Henry Jackman, mas ela se mostrou ausente.

Dinâmico, fluido e orgânico, Dias de Um Futuro Esquecido consegue mesclar não só duas linhas temporais, como dezenas de personagens e focos dramáticos. É um filme que não tem medo de deixar personagens grandes em segundo plano, a favor da história, conseguindo trazer um longa dos X-Men e não só de Magneto ou Wolverine. Tem sim seus deslizes de roteiro e uma trilha não tão marcante como poderia ser. Ainda assim é, facilmente, um dos melhores longas-metragens dos X-Men e que certamente abrirá caminho para uma nova geração de filmes dos mutantes. Definitivamente, a fita está longe de ser o desastre que poderia ter sido e que muitos esperavam.

Obs.: Fiquem até o final dos créditos.

X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido (X-Men: Days of Future Past – EUA / Reino Unido, 2014)
Direção: Bryan Singer
Roteiro: Simon Kinberg, baseado na história de Jane Goldman, Simon Kinberg e Matthew Vaughn
Elenco: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Halle Berry, Nicholas Hoult, Ellen Page, Peter Dinklage, Shawn Ashmore, Omar Sy, Evan Peters, Josh Helman, Daniel Cudmore, Bingbing Fan, Adan Canto, Booboo Stewart, Ian McKellen, Patrick Stewart, Lucas Till, Evan Jonigkeit, Mark Camacho. 
Duração: 131 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.