Crítica | X-Men – O Filme

estrelas 3,5X-Men – O Filme foi a produção responsável por trazer novamente à tona o universo dos super-heróis para as telonas, e que anualmente, são lançados aos montes nos cinemas de todo o mundo. A primeira produção a atingir repercussão semelhante havia sido Superman – O Filme, de 1978 e dirigida por Richard Donner, e algum tempo depois, surgiu Tim Burton e sua versão de Batman. Após isso, este tipo de produção acabou por sumir dos cinemas, devido ao alto custo envolvendo realizações semelhantes, e também pela desconfiança dos estúdios sobre os valores que filmes como estes poderiam arrecadar.

Assim, foi no começo dos anos 2000 que o cineasta Bryan Singer (Os Suspeitos) “ressuscitou” o gênero ao trazer uma das equipes mais famosas dos quadrinhos para o cinema, através de um veículo inteligente, ágil, respeitoso e com discussões bastante atuais, permitindo uma grande identificação entre plateia e personagens. Mas tudo isto (e um pouco mais) será discutido mais adiante.

X-Men – O Filme não exerce a importância que têm por mero acaso. Não apenas sendo uma lenda das adaptações de quadrinhos, o roteiro de David Hayter segue uma forma arriscada, porém inteligente de se fazer cinema. Ao contrário de muitas adaptações atuais, que prezam pelo espetáculo pirotécnico, X-Men é dono de uma trama sólida, resultado de um roteiro adulto, inteligente e muito bem trabalhado. Ainda que careça de maior grandiosidade, tanto o roteiro de Hayter quanto a direção de Singer tombam para um tom mais realista, pé no chão, desenvolvendo seus personagens ao ponto de que seu público consiga gerar alguma identificação. Assim, muito mais do que uma simples aventura, o filme se mostra respeitoso para com a inteligência do espectador.

Mas que fique claro, X-Men – O Filme não é perfeito – e nem pretende ser. Apesar de todo o trabalho e preocupação na lapidação do roteiro, ficou difícil (ou melhor, impossível) desenvolver todos os personagens de maneira satisfatória. O número de mutantes que desfilam na tela é grande, sendo cada um bem definido sobre o lado ao qual pertence. Como resultado, os poucos mais de noventa minutos (minutos esses que passam voando) impedem que todos os personagens alcancem a tridimensionalidade almejada por Singer.

Apesar disso, é digna de louvor toda a construção do roteiro, feita de forma madura e cuidadosa. Isto pode ser visto, principalmente, no discurso proposto por Singer em meio às aventuras dos mutantes: o preconceito. Sendo gay assumindo, é possível enxergar o envolvimento pessoal de Singer no projeto, e aproveitando suas experiências pessoais no meio da sociedade machista em que vivemos, inseriu uma identidade única e bastante peculiar ao filme. Isto pode ser atestado nos conflitos dos principais personagens da película, que não apenas visam o respeito e a aceitação da sociedade, mas também buscam aceitarem a si mesmos. Magneto (Ian McKellen, exemplar) é atormentado pelas lembranças da época do nazismo, o que gera sua falta de respeito pela sociedade “normal”. Vampira (Anna Paquin, muito carismática) sempre busca manter distância de seus próximos, não apenas emocionalmente, mas fisicamente, já que sua mutação pode ser mortal diante de qualquer contato físico, e assim, sua relação forte com Wolverine é perfeitamente crível, já que ele foi o primeiro em quem ela pode se identificar e confiar.

E para este, aliás, reservo um parágrafo especial. Wolverine (ou Logan, como é seu nome verdadeiro) sempre foi um dos personagens mais queridos e conhecidos no universo das HQs, e aqui, devo confessar toda a minha admiração pela performance incrível de Hugh Jackman. Sendo considerado um dos rostos maus sexys da Hollywood atual, Jackman despontou no cinema por meio deste filme, provando ser a escolha mais do que perfeita para interpretar o mutante. Além da perfeita semelhança com o desenho original do mutante, Jackman esbanja um carisma invejável, deixando no chinelo outros nomes maiores do elenco, como Patrick Stewart e Halle Berry (esta entrando muda e saindo quase calada).

O que empalidece a produção (pelo menos, nos dias de hoje) diante de outros exemplares é a sua falta de ambição no que se refere a sua grandiosidade. Comparado aos filmes de super-heróis atuais, X-Men decepciona por suas seqüências de ação fracas e carentes de emoção. Não que este fosse o objetivo de Singer, sua verdadeira preocupação era criar um veículo cinematográfico de qualidade, mas é decepcionante assistir ao filme hoje e perceber como ele envelheceu, tecnicamente falando. Além das cenas de ação desinteressantes (com exceção do combate entre Wolverine e Mística), os efeitos especiais se mostram um tanto datados, longe do toque verossímil proposto por Singer. Assim também é a trilha sonora de John Powell, tímida e sem personalidade própria. São defeitos pequenos, mas que adquirem uma nova dimensão quando analisados diante da grandiosidade da Hollywood atual.

Isto não impede, entretanto, de que X-Men – O Filme permaneça no pódio dos grandes exemplares do gênero, mantendo sua importância para a onde de blockbusters baseados em HQs lançados nos dias de hoje. As discussões propostas por Singer permanecem atuais, e seus personagens ainda exalam um interessante fascínio. Isto deixa claro a força exercida pelo filme, que indo contra tudo o que é proposto pelo gênero, ainda se revela um produto cinematográfico exemplar. E os méritos devem ir, especialmente, para Bryan Singer.

X-Men – O Filme (X-Men, EUA, 2000)
Roteiro: David Hayter
Direção: Bryan Singer
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Famke Janssen, James Marsden, Halle Berry, Anna Paquin, Rebecca Romijn, Bruce Davison, Shaw Ashmore
Duração: 104 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.