Crítica | X-Men Origens: Wolverine

estrelas 2,5

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Com a popularidade da trilogia dos X-Men perante o público (por mais que o terceiro capítulo tenha dividido opiniões), seria um tarefa impossível para os produtores e para o estúdio deixar os mutantes de lado a partir do momento em que os primeiros filmes tivessem seus arcos fechados. Assim, os realizadores recorreram a um artificio mais do que previsivel: reboots. E para tentar manter a franquia viva, nada melhor do que recontar a origem do mutante mais popular dos filmes, Wolverine, que, na pele do australiano Hugh Jackman, ganhou bastante carisma nas telas. A iniciativa era interessante, uma vez que Wolverine, um personagem complexo, havia visto suas origens serem apenas pinceladas na tela, especialmente nos dois primeiros filmes de Bryan Singer.

O tiro saiu pela culatra. Em linhas curtas, X-Men Origens: Wolverine é o pior filme da franquia realizado até o momento, e isto sem precisar tecer comparações com os filmes antecessores. De fato, a própria trajetória do projeto parecia indicar que a coisa não ia acabar tão bem, uma vez que o diretor Gavin Hood (do oscarizado Infância Roubada) ainda não possuía tanta voz em Hollywood, além do fato de que seu trabalho pouco agradou ao estúdio, o que certamente acarretou em diversos cortes em mudanças na visão pessoal do diretor.

Com roteiro de David Benioff (Tróia, A Passagem, O Caçador de Pipas) e Skip Woods (Hitman – Assassino 47) visa construir uma trajetória que ressalte a complexidade emocional de Logan vista nos primeiros filmes, mas falha lamentavelmente nessa tradução. Se os filmes de Bryan Singer (e em menor escala, o terceiro capítulo de Brett Ratner) sabia criar uma aliança funcional entre o desenvolvimento de seus personagens e a ação empolgante, o filme de Hood acaba se prendendo excessivamente ao segundo ponto, e por mais que seja divertido neste sentido, não deixa de ser uma falha grave, já que aquele que deveria ser o principal objetivo do longa acaba ficando em segundo plano.

De fato, X-Men Origens: Wolverine é uma produção pra lá de descuidada. No roteiro de Benioff e Woods, tudo é motivo para pancadaria, explosões e o que mais possa partir disto. Entende-se que Wolverine é uma figura impetuosa e guiada pelo instinto, mas em determinado momento, isto parece ultrapassar o limite do aceitável, com Logan apenas dificultando sua própria jornada em busca de respostas. Da mesma forma, a produção técnica do filme apresenta uma evidente precariedade no uso da computação gráfica, com efeitos especiais que parecem ter saído de algum filme do início dos anos 90, tamanho o artificialismo visual de diversas cenas. Consequentemente, o efeito da ilusão é deveras insustentável devido a toda essa artificialidade gritante, e a impressão é de que o espectador poderá ver uma tela verde ao fundo a qualquer momento.

Há também um grande excesso de personagens que, aos poucos, vão surgindo durante a narrativa, mas pouco acrescentam à busca de Logan. Embora a aparição de Gambit (Taylor Kitsch) seja compreensível, uma vez que sua ausência foi sentida e criticada pelos fãs na trilogia original, o personagem se revela uma presença absolutamente dispensável, deixando claro que está ali apenas para saciar a sede de alguns dos admiradores mais xiitas. Da mesma forma, a inserção de um Ciclope mais jovem deixa claro a tentativa desesperada em tentar conceder algum espaço para um personagem completamente ignorado nos primeiros filmes, algo o qual os fãs também criticaram veemente.

A exceção fica por conta de Dentes-de-Sabre, numa caracterização surpreendente de Liev Schreiber, até então, um ator bastante limitado. Embora o parentesco entre Dentes-de-Sabre (que descobrimos se chamar Victor) e Logan possa soar estranho logo de início, o personagem é o que tem os conflitos melhor delineados, o que permite que o espectador consiga compreender sua fúria explosiva, algo ressaltado pela interpretação de Schreiber. Hugh Jackman também segue excepcionalmente bem como Wolverine, conseguindo oscilar com eficácia entre seus sentimentos explosivos e os mais serenos, algo surpreendente em um personagem/atuação já suficientemente explorado na tela.

Mas no fim das contas, X-Men Origens: Wolverine não passa de um equívoco da parte de seus realizadores. Como um simples filme de ação, é funcional e diverte com suas sequências movimentadas, mas também não deixa de ser um filme pra lá de mal aproveitado, repleto de excessos, e cujas ambições mercadológicas, ao falarem mais alto do que outras necessidades, acabaram por prejudicar consideravelmente o resultado final.

*Crítica originalmente publicada em 07 de maio de 2014.

X-Men Origens: Wolverine (X-Men Origins: Wolverine, EUA, 2009)
Roteiro: David Benioff, Skip Woods
Direção: Gavin Hood
Elenco: Hugh Jackman, Liev Schreiber, Danny Huston, Will i Am, Lynn Collins, Kevin Durand, Dominic Monaghan, Ryan Reynolds, Taylor Kitsch
Duração: 107 min.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.