Crítica | X-Men: Os Filhos do Átomo (1999)

“Professor, nós não te desobedecemos… Nós viemos porque acreditamos. Não é mais apenas o seu sonho agora. É o sonho de todos nós. Eu acho que você precisa de nós tanto quanto nós precisamos de você.” – Scott Summers

Lançada na virada do milênio, entre novembro de 1999 e setembro de 2000, no epicentro de um período transicional e nebuloso na Marvel Comics, Os Filhos do Átomo é a primeira do que se tornou uma tradição de minisséries roteirizadas por Joe Casey que propõem um retorno às origens das principais equipes e personagens da editora, recontando essas histórias não como remakes propriamente ditos, mas como uma espécie de preenchimento criativo de lacunas. No entanto, este experimento inicial permanece até hoje relegado a escanteio como uma minissérie de pouca relevância e deve ser menos que uma nota de rodapé na maioria das cronologias do universo mutante. Assim sendo, é de certa forma surpreendente que o autor tenha retornado ao modelo na relativamente bem-sucedida Vingadores: Os Heróis Mais Poderosos (que por sua vez deu origem a uma sequência), seguida de Quarteto Fantástico: Primeira Família e por fim Vingadores: A Origem. De todas essas minisséries, Os Filhos do Átomo se diferencia por ser aquela que toma mais liberdades sobre o material original, tanto em termos de cronologia e canonicidade, quanto em termos de tonalidade em relação ao que era apresentado nas edições clássicas. Mas isso trabalha a seu favor, ou será que já encontramos aí o motivo pela recepção tão fria a esta obra?

Se o leitor for buscar nesta minissérie algum tipo de revisitação nostálgica e autorreferente do conflito entre Charles Xavier e seu adversário filosófico Erik Lensherr e como ele levou à fundação do Instituto Xavier como medida pré-emptiva para preparar os jovens que viriam a formar os X-Men originais… Bem, ele certamente encontrará isso aqui! Só que na forma de uma narrativa que tenta emular algo do estilo de O Cavaleiro das Trevas (aparentemente Joe Casey entrou na fila em 1986, mas sua vez foi chegar só agora, 13 anos depois!), um afastamento significativo do que poderia se esperar de uma iniciativa do gênero. Convenhamos que praticamente nada nas histórias de Stan Lee com os X-Men originais clama por uma releitura à la Frank Miller. Mas não paramos por aí. Trata-se de emular O Cavaleiro das Trevas ao contrário (contando uma origem e não um futuro possível para os personagens), antecipando algo de Deus Ama, O Homem Mata para o ponto zero da cronologia dos X-Men, e ainda por cima fazê-lo através das lentes do já crescente movimento criativo da chamada Nu-Marvel, que viria a transformar profundamente os rumos da editora já a partir do ano seguinte!

Pode parecer muito, e a maluquice da coisa toda fica clara já desde as primeiras páginas, onde a narrativa se dá através de quadrinhos preenchidos por telas de televisão, com caption boxes nos informando do conteúdo das transmissões a respeito dos mutantes, seguida por uma introdução ao mundo dos (pré-)X-Men contada com aquele jeitão meio quadrinho indie, meio cinematográfico, cheio de referências estranhas (e agora já datadas para além da compreensão) à cultura pop e temas pesados randomicamente espalhados por entre as tramas regulares. Ou seja, Nu-Marvel. Por entre as páginas desse quadrinho, dá pra ver o brilho nos olhos de um Joe Quesada que tem conseguido moldar os rumos da editora através de sua iniciativa Marvel Knights, cuja influência se vê marcada aqui. Por outro lado, acompanhando a trama sobre o início da histeria anti-mutante, trata-se o tempo todo de tentar costurar as histórias de origem dispersas (e em sua maioria tediosas) dos X-Men originais, conforme apresentadas nos contos extras incluídos em Uncanny X-Men v1 #38-50.

O solitário início do Sonho de Xavier.

O resultado disso, como pode se imaginar, é uma mistura arriscada de identidades e estilos narrativos, com o toque indesejado do derivativo. A boa notícia, no entanto, é que Joe Casey é um bom roteirista, conseguindo se manter satisfatoriamente à altura do desafio que impôs a si mesmo aqui (ainda que com seus escorregões), e esse terreno no qual ele se propõe a trabalhar é justamente o seu forte. Auxiliado pela arte fantástica de Steve Rude, o que ocorre é que – ao menos de início – a iniciativa vá contra todas as expectativas e surpreenda como um quadrinho não apenas bom, mas uma leitura excelente. Uma história envolvente sobre o crescimento da onda anti-mutante, em paralelo às vidas colegiais dos insuspeitos futuros X-Men. “Por que, afinal de contas, essa minissérie é tão esquecida?” – pergunta-se o leitor, ainda na terceira edição. Pois bem…

A minissérie tem muito sucesso em estabelecer, com segurança e sem exageros, um novo cenário envolvente e suficientemente crível para o surgimento da equipe mutante. Temos quatro linhas narrativas centrais: as iniciativas misteriosas de Xavier (em meio às quais somos apresentados à jovem filha dos Grey e seus “problemas” telecinéticos), a escola Freeport e sua galeria de alunos atípicos, o playboy adolescente que secretamente luta contra o crime como um herói mascarado e a horripilante Milícia Anti-Mutante, grupo de neo-nazis que praticam crimes de ódio contra os mutantes, secretamente financiados pelo abominável William Metzger, híbrido de William Stryker com Adolf Hitler, criado unicamente para esta história e cuja única aparição acaba sendo aqui.

Alterando de leve o que é usualmente mostrado em suas origens individuais, aqui somos apresentados a Scott Summers, Hank McCoy e Bobby Drake como estudantes na mesma Freeport High School, ainda que não se conheçam ao início da história. Trata-de de uma escola daquelas – um local extremamente problemático, repleto de adolescentes caricaturalmente indiferentes a qualquer nível de decência e com professores e funcionários absolutamente desacreditados a respeito do futuro da humanidade. Scott é um rapaz franzino, observador a respeito de tudo a sua volta mas extremamente recolhido e acanhado, característica que logo ligamos à relação extremamente abusiva que sofre com o pai adotivo, o ladrão Jack Winters. Hank McCoy é o popular astro do futebol, sucesso entre as garotas e alvo de inveja dos rapazes, curiosamente esconde sua inteligência acima do normal, fazendo-se de burro para evitar que chame mais a atenção do que já o faz. Bobby Drake, pobre e humilde Bobby, é apenas um cara que não consegue parar de tiritar de frio e congelar o ar à sua volta – seu objetivo é apenas sobreviver, permanecer quente o suficiente para continuar vivo. Temos ainda na Freeport os representantes da juventude nazista local, os odiadores de mutantes Chad e Starkey. Neste meio atípico, eis que surge para ajudar a figura misteriosa do novo conselheiro escolar, Charles “Alexander”, PhD em manipulação mental.

Monica Lewinsky, Anjo sem camisa e Adolf Hitler, na mesma página. Essa é a Nu-Marvel.

É difícil não achar um tanto creepy o papel de Charles, que acaba fazendo um recrutamento de adolescentes para sua milícia mutante ardilosamente disfarçado de counseling – mas, como a história futura nos atestará, o agir ético definitivamente não é uma das virtudes do velho Professor X. Pelo menos acompanhar suas peripécias no lidar com o FBI e com a família Grey ajudam a contextualizar um pouco suas ações. Casey efetua aqui o resgate do agente federaI Fred Duncan, personagem dos anos 1960 há muito esquecido. Contato de Xavier no FBI, Duncan é como que uma versão prototípica de Valerie Cooper, servindo não apenas para justificar a possibilidade de Xavier organizar certas coisas relativas à fundação de sua escola (dando-lhe toda cobertura legal necessária, em nome de seu interesse na questão mutante), mas cumprindo também papel como um personagem interessante pelo seu próprio direito, trazendo uma necessária dinâmica política às ações de Charles. Por sua vez, vemos que o Professor X acompanha de perto e com especial preocupação o desenvolvimento dos poderes da jovem Jean Grey (quase como se suspeitasse que, por exemplo, um pássaro cósmico de fogo e fúria encarnados pudesse dar as caras por ali), contando com a rara compreensão de seus pais, que confiam no misterioso professor para sua ajuda (se confiam mesmo, ou se são sugeridos a confiar, já são outros quinhentos).

As três primeiras edições conseguem unir com precisão as origens individuais de Ciclope, Fera e Homem de Gelo, que são de certa forma fiéis ao que fora mostrado nos contos originais. Jack Winters, o terrível pai adotivo de Scott, ladrão profissional que se usava de seus poderes para ajudá-lo em seus assaltos, acaba sendo o primeiro inimigo a ser vencido por Ciclope, com a ajuda do Professor X. Ao contrário do que ocorre no conto original, não temos a transformação de Jack em Diamante Vivo, e ele aparenta morrer aqui como humano sem poderes. Na origem de Fera, é dado destaque à forma como uma turba anti-mutantes se forma com a descoberta de seus poderes, sendo que com isso temos uma recontagem mais fiel ao que é mostrado em Uncanny X-Men #15 do que na releitura feita em Uncanny X-Men #49, que adiciona na jogada o terrível vilão Conquistador. Estranhamente, a origem do Homem de Gelo, que contava com uma perseguição de uma multidão que tenta o espancar, acaba sendo deixada de lado aqui, e seu recrutamento ocorre por conta do descontrole de seus poderes. Todas essas histórias são trabalhadas de forma empolgante, intercaladas com a subtrama da Milícia Anti-Mutante, com tudo encaminhando para uma apresentação épica dos primeiros X-Men, sob o traço não menos que fenomenal de Rude. Mas eis que tudo cai por terra na edição #4.

Como é possível que Warren seja mais maneiro ANTES de ser um X-Men? Não era pra ser o contrário?

Algo de terrível acontece na quarta edição, e a trama multifacetada e envolvente que vinha sendo tão bem trabalhada simplesmente desaba na frente dos olhos do leitor que, aos poucos, vai se dando conta do porque, afinal de contas, essa minissérie caiu no limbo do esquecimento. Roteiro e arte simplesmente vão embora. Da parte de Casey, é notória a forma como a trama deixa de amarrar diversas pontas soltas, dando lugar a uma arrastada intercalação de cenas alongadas que avançam a trama aos solavancos, após uma sequência de três edições com enredos repletos de eventos bem construídos e sem descompressão. O fato de que isso ocorre justamente após acompanharmos Scott despertando pela primeira vez na Mansão Xavier é extramamente frustrante. Após preparar muito bem os aperitivos, o prato principal descamba pra um texto genérico e sem inspiração. O sequestro de Jean é até interessante, com o roteiro trabalhando bem uma situação crível em que os X-Men lutam para salvá-la sem no entanto se encontrarem efetivamente com ela, estabelecendo um precedente interessante que dá um novo tom ao encontro inicial entre eles, que ocorre imediatamente após o quadrinho final desta mini. Fora isso, no entanto, o roteiro deixa a desejar abandonando completamente as subtramas da relação entre Anjo e Magneto e do agente Fred Duncan, do qual ficamos sem saber absolutamente quem era o interlocutor em seus misteriosos relatórios a respeito de Xavier.

A trama da Milícia Anti-Mutante também acaba praticamente dando em nada, com um final clichê de onde se salva apenas o desenvolvimento muito bem acertado da relação entre os alunos e Xavier, que já dá aqui o primeiro escorregão, fazendo cair sua persona de “sábio no controle da situação”, revelando seu lado apavorado e inseguro que dará frequentemente as caras nos momentos de crise da equipe em seus primeiros anos. É interessante como a inconsistência do personagem nas aparições iniciais (não consigo achar que o faziam ser tão babaca de propósito) é bem aproveitada por Casey aqui, talvez com mais sutileza do que autores mais consagrados que, posteriormente, fariam de Xavier simplesmente um hipócrita amoral que se usa de seus poderes para não se responsabilizar pela série infinita de sacanagens que colecionou ao longo da carreira.

Quem é esse? Xavier? Wolverine? Não, é o Magneto mais feio que eu já vi!

Se no roteiro as coisas desandam dessa forma, na parte de arte a transformação é ainda mais brusca. Da mesma forma que inesperadamente entregou visuais sensacionais, Steve Rude desaparece sem deixar rastros, dando lugar a uma arte inconstante tanto em termos de lápis quanto de arte final. Uma colcha de retalhos entre estilos diferentes e desconexos, indo do cartunesco ao hachurado de mangá, passando por uma tentativa de imitar os saudosos traços de Rude, o que temos são visuais muito abaixo do medíocre e que terminam de arrastar a história toda para a lama. Revoltado, fui descobrir quem era o responsável por essa afronta. Esad Ribic. Fiquei literalmente chocado com a revelação. Simplesmente um dos meus artistas preferidos da atualidade. Como pôde, Sr. Ribic? Pelo menos as três edições finais devem servir pra você, que não sabe desenhar, se motivar. Desenho não é só talento nato, dá pra aprender. Dê uma olhada na arte de Ribic nessa mini, e depois espie a Fabulosa X-Force. É, realmente, dá pra aprender…

Os Filhos do Átomo perde a chance de ser uma recontagem definitiva da origem dos X-Men. Após abrir de forma genial com três edições excelentes, a minissérie comete uma série de erros imperdoáveis que rapidamente tornam a leitura da coisa uma tentativa de resgate do que ainda se salva. Mesmo assim, a série consegue ser tão boa quanto acerta que merece uma recomendação, ainda que as ressalvas a respeito do final corram o risco de deixar cair por terra o que havia de bom nas edições iniciais. O leitor fica a imaginar o que poderia ter sido, caso as três edições finais dessem uma sequência à altura do que fora apresentado inicialmente. Provavelmente vítima das reestruturações internas da editora, do conhecido atraso e inconstância de Casey e provavelmente também do próprio Rude (que raramente faz trabalhos mais longo do que três edições), a empreitada acaba desperdiçando uma boa oportunidade e caindo no esquecimento onde permanece até os dias de hoje. Não deixa de ser notável o quanto a produção destoa dos quadrinhos mutantes de sua época, alinhando-se muito mais ao estilo da ainda vindoura fase de Grant Morrison do que ao desastre que recheava as páginas da mensais na época de sua publicação. Em mais esse sentido a mini se prova inusitadamente visionária, e conserva um valor histórico interessante ao leitor que se interessa por este período da série.

Mas sério mesmo, Ribic… O que foi que aconteceu aqui?

X-Men: Os Filhos do Átomo (X-Men: Children of the Atom #1-6 / “Children of The Atom”)  EUA, novembro de 1999 a setembro de 2000
Publicações no Brasil: X-Men: Os Filhos do Átomo (Ed. Abril, Outubro/2001); Os Heróis Mais Poderosos da Marvel #10 – X-Men (Ed. Salvat, Junho/2015)
Roteiro: Joe Casey
Arte: Steve Rude, Esad Ribic
Capa: Steve Rude, Esad Ribic
Editora: Marvel Comics
Editoria: Bob Harras
Páginas: 192

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.