Crítica | X-Men: Season One

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É compreensível o quanto as grandes séries de quadrinhos (em sua maioria do subgênero super-heróico) tenham uma espécie de fascinação por revisitar as origens de seus personagens. Em uma mídia que dá aos (sempre alternantes) autores a relativa liberdade de transformar seus personagens das mais diversas formas – mas sem nunca se esquecer de apertar o botão de reset de tempos em tempos – o envelhecimento, a morte, as relações amorosas, o uniforme novo que ninguém gostou e os poderes recém-inventados que revoltaram os fãs saudosistas são todos questão de ponto de vista e quase que de gosto pessoal. Tudo muda, e ao mesmo tempo tudo está sempre igual. As histórias de origem dos personagens, por outro lado, são o que definem este ponto zero da continuidade, a linha de partida de onde se origina todo aquele universo e que frequentemente vai figurar nas adaptações para outras mídias daqueles personagens. Eles não existem se não passarem por ela. Mas isso não significa que elas sejam imutáveis: pelo contrário, exceto por alguns bastiões sagrados, a forma como tal personagem veio a existir é sempre aberta a novas interpretações.

Enquanto que os quadrinhos da DC Comics se beneficiam dos frequentes reboots universais, a linha deslizante de tempo da Marvel tenta jogar uma cortina de fumaça sobre o assunto, fazendo com que tenhamos heróis cujas origens canônicas ocorreram em meio a clubes de radioamadorismo nos anos 1960 e que hoje estão quando muito na casa dos 40 anos (isto é, se não mal envelheceram alguns poucos anos). Através de soft-retcons, muitas vezes inseridos indiretamente nas histórias, a editora muda alguns detalhes das histórias de origem dos personagens de modo a acomodá-las relativamente melhor para um padrão impossível de cronologia. Abordando o tema de maneira mais explícita (e provavelmente querendo pegar carona no bonde de Terra Um, da DC), a iniciativa Season One publicou, entre 2011 e 2013, dez graphic novels fechadas trazendo recontagens do início da carreira de seus principais personagens. X-Men: Season One se destaca como sendo o melhor material a ser publicado sob o selo, recontando de forma inspirada e cuidadosamente bem trabalhada o “Ano Um” da equipe mutante, que é bem eleito aqui como a fase de Uncanny X-Men que conta com o criador Stan Lee nos roteiros, iniciando, assim como o título original, com a chegada de Jean Grey na Mansão Xavier.

O interesse de uma iniciativa deste tipo não pode ser simplesmente fazer de Peter Parker, ao invés de um fotógrafo, um CDC da página de Facebook do Clarim Diário, nem de enfiar smartphones na mão de todos os personagens ou inserir temas, gírias e maneirismos que tentam atualizar mas acabam apenas servindo para re-datar a história – destino do qual a ainda assim interessante Os Filhos do Átomo sofreu ao recontar as origens da equipe mutante trocando 1963 por 1999. Não. O maior ganho a se ter em um remake deste tipo é se utilizar do desenvolvimento posterior dos personagens e da série em questão para enriquecer os sentidos da narrativa da origem. Usar do benefício do ponto de vista retrospectivo para remediar possíveis inconsistências e adicionar caracterização mais precisa em torno dos já conhecidos fatos. É exatamente isso que o roteiro bem centrado de Dennis Hopeless e a arte de Jamie McKelvie conseguem alcançar aqui.

O merecido enfoque em Jean é um dos pontos fortes da graphic novel.

A escolha por oferecer a narrativa a partir da perspectiva de Jean Grey não poderia ser mais acertada. A Garota Marvel é a adição mais tardia à equipe,  em parte por conta de ser acompanhada por Xavier há mais tempo e provavelmente devido às peculiaridades de seus poderes. Aliás isso é bem explorado de forma sutil aqui, com vários momentos mostrando como o Professor X dispensa uma atenção diferenciada a cada um de seus alunos, cuidando para guiá-los de acordo com suas necessidades individuais. Além disso, o lugar central da futura Fênix na cronologia de alguns dos mais grandiosos eventos da série faz com que seja muito interessante abordamos as origens de tudo a partir do olhar mais detido de uma perspectiva introspectiva da jovem, que infelizmente era tradicionalmente relegada ao estereotipado segundo plano nos quadrinhos dos anos 1960. Os pensamentos e diálogos da jovem são todos bastante enérgicos e bem-humorados, importando um pouco da futura Jean à sua versão mais jovem, que em alguns momentos chega a lembrar sua versão Ultimate, mas no geral se assemelhando mais à Jovem Jean deslocada no tempo de All-New X-Men.

Hopeless consegue nos apresentar com precisão todos os membros da equipe a partir da perspectiva da jovem, com cenas sucintas e eficientes abordando, normalmente sob um tom humorístico, os primeiros encontros entre ela e sua mais nova família. Aqui a escrita me parece debitária do ótimo trabalho de releitura dos personagens realizado por Jeff Parker nas minisséries de X-Men: Primeira Classe, desenvolvendo características pessoais dos jovens a ponto de retratá-los muito bem como adolescentes/jovens adultos críveis e bem dinâmicos em suas individualidades, se afastando de uma tendência errônea (provavelmente originada da escrita por vezes dura de Stan Lee e Roy Thomas) de achar que essa primeira formação era composta por jovens homogêneos e sem personalidades individuais bem definidas.

Enquanto que Hank e Bobby já vivem um dos mais subestimados bromances da história dos quadrinhos (que mané Magnum o que, Homem de Gelo é o verdadeiro BFF do Fera!), Scott se isola em suas inseguranças e obstinações com treinar para as missões de campo, deixando Warren como a figura mais receptiva e disponível para receber Jean em seus primeiros dias, uma mudança bem construída e que de quebra prepara de forma interessante a tensão romântica entre os dois que dará as caras por bastante tempo na série. Destaque para a sequência do circo, que deixa de ser o completo vexame da missão retratada em Uncanny X-Men #3 para ser relido aqui como uma pequena história divertidíssima focando a dinâmica interna do grupo e que de quebra já apresenta bem a complexidade das tensões inter-espécies, dando um sentido muito mais eficaz ao confronto inicial contra o Blob.

Enfrentando Unus, o Intocável!

A graphic novel também tem muito sucesso em trabalhar o conflito entre Professor X e Magneto, já sob a ótica dos retcons dos anos 1970 e 1980 que introduziram a importantíssima relação de amizade entre os dois, que ajudou a nuançar o conflito entre X-Men e Irmandade como duas faces da mesma moeda, duas respostas para a mesma questão. O roteiro consegue abordar o lado mais dissimulado e manipulador de Xavier sem no entanto demonizá-lo para aquém de suas intenções nobres, o que é raro de se ver principalmente nas histórias mais posteriores do personagem, e mostra mais um entendimento acertado de personagem por parte de Hopeless. Os disparates megalomaníacos de Magneto são retratados mais como uma irreverência do que como o fanático torcedor de bigodes que encontramos na clássica saga da inicial da Irmandade, o que também é uma mudança bem-vinda que com sutileza ajuda a emprestar mais consistência a esta versão inicial do vilão.

Conforme a história vai avançando a trama se revela mais como uma revisitação complementar às histórias originais do que como um remake propriamente dito delas, o que é uma decisão bastante acertada e funciona muito bem aqui. Temos alterações significativas à cronologia (em especial com um novo primeiro beijo entre Jean e Scott, muito antes do que havia ocorrido na série original), mas que conseguem aparar arestas de cronologia e combinar eventos até então não relacionados de forma fluída, lembrando um pouco das conhecidas reformulações de clássicos de John Byrne.

A viagem à Terra Selvagem, o encontro com Unus e o combate constante com a Irmandade são explorados a partir da perspectiva de Jean se habituando à vida na mansão, e avaliando a forma como se sente em relação aos seus colegas e ao Professor X ao longo do processo. É possível inclusive encaixar a novel como sucedendo diretamente a outra iniciativa “tapa-buracos” que se passa na mesma época, Os Filhos do Átomo, já que a minissérie de Joe Casey acaba com Jean sem saber que os colegas a salvaram, e a caracterização dos jovens X-Men é felizmente consistente entre as duas revisitações.

Ao invés de espancado no escuro, um coaching gratuito. Scott saiu ganhando desta vez!

A ótima arte de McKelvie, por sua vez, garante que a obra não decepcione nada no aspecto visual. Quem já leu The Wicked + The Divine (e se você é fã de X-Men e ainda não leu, deixe de se privar desta obra fantástica!) sabe que os traços de McKelvie conseguem detalhar feições com muita expressividade e precisão, sendo ideais para representar bem dinamicamente um grupo de adolescentes aprontando das suas. Mais do que isso, o cara também é capaz de criar designs sensacionais, como atestam por exemplo tanto a série com Kieron Gillen quanto os uniformes redesenhados desta exata equipe em X-Men Blue. Antes de criar os belíssimos uniformes novos das versões deslocadas no tempo dos X-Men originais, McKelvie faz aqui uma excelente atualização dos uniformes clássicos da equipe, adicionando um detalhamento que moderniza o amarelo-e-azul sem trair o design original de Jack Kirby.

Também ganham espaço, de forma complementar e no desfecho da história, outros pareamentos de personagens para além da perspectiva de Jean. É especialmente interessante a exploração da relação entre Ciclope e Bobby, que deseja ao mesmo tempo ajudar o colega com suas dificuldades sociais e aprimorar suas próprias habilidades para ficar mais próximo de seu potencial. A ideia de que Scott prefere treinar sua liderança com simulacros do que com seus próprios colegas de equipe diz muito de seu estilo de liderança e de suas limitações e dificuldades no papel.

Por sua vez, temos Fera descobrindo antes de todos os outros sobre a relação de amizade entre Xavier e Magneto, fato que é inserido na cena em que ele e o Homem de Gelo são perseguidos por uma turba enfurecida, em Uncanny X-Men #8O roteiro espertamente se usa disso para nuançar melhor e justificar a desistência de Hank da equipe (embora não melhore o sentido de sua máquina para derrotar Unus, e retire todo o elemento de luta-livre, o que é sempre uma pena), fazendo um serviço paralelo ao que faz a Xavier no sentido de deixar suas ações menos egoístas e mais alinhadas com um propósito.

É na passagem desta sequência da partida de Hank para o último ato que a história traz seu único escorregão, com uma passagem repentina e pouco justificada para um ponto mais adiante da cronologia (se fôssemos seguir à risca a cronologia original, bem adiante – exigindo supor que durante todo o ataque do Fanático e saga dos Sentinelas a equipe estava mal se falando, o que é bem estranho). A impressão que temos, neste ponto mais do que em qualquer outro do álbum, é a de que se tratava de uma minissérie adaptada para formato único de última hora, e a transição entre o retorno de Hank e o ataque de Magneto acaba não fluindo muito bem em termos temáticos. Por sorte, a narração de Jean ajuda a coisa toda a se amarrar em torno de suas impressões sobre os eventos.

Quando o Justin Bieber aparece para dar uma mão no treinamento da Sala de Perigo.

A parte final da graphic novel recria muito oportunamente o ataque de Magneto sozinho contra a mansão, mostrado em Uncanny X-Men #17 e 18, inclusive fazendo uma referência explícita à página em que Ciclope tenta lutar contra Magneto no escuro (da qual eu tanto falei bem na minha crítica!), desta vez transformando-na em uma interessante discussão entre o líder dos X-Men e seu arqui-inimigo a respeito do sonho de Xavier. O traço de McKelvie realiza muito bem as ótimas sequências de ação, com um estilo limpo e expressivo bem complementado pela arte-final. A batalha, assim como a original, conta com destaque para a chegada decisiva do Homem de Gelo, amarrando muito bem sua subtrama, ao mesmo tempo em que temos a narração de Jean fechando o ciclo e encaminhando para um inveitável final em aberto, daqueles que te deixa doido para pegar a próxima edição (e, por sorte, ao final desta história o leitor tem muitas próximas edições para explorar).

X-Men: Season One não desperdiça a chance de revisitar as origens da equipe mutante original, aproveitando-se da ocasião para recontar de forma brilhante algumas das passagens das primeiras aventuras dos X-Men com enfoque nos personagens. Embasando-se em alguns acontecimentos das edições originais, a produção toma algumas liberdades bem calculadas com o material de modo a propiciar uma revisitação que não se restrinja a um exercício burocrático. Oferecendo destaque a todos os membros da equipe e equilibrando bem humor, desenvolvimento de personagem e ação, o álbum é uma excelente pedida para os fãs da equipe original dos X-Men, e um bom complemento para a leitura da fase de Stan Lee nos roteiros, ao mesmo tempo em que deve servir ao propósito de introduzir o mundo mutante a um novo leitor, pelos interessantes olhos de Jean Grey sobre sua nova e estranha vida na Mansão Xavier.

X-Men: Season One  EUA, Março de 2012
Roteiro: Dennis Hopeless
Arte: Jamie McKelvie, Mike Norton
Capa: Julian Totino Tedesco
Editora: Marvel Comics
Editoria: Axel Alonso
Páginas: 100

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.