Crítica | Xampu – Vol. 1

estrelas 5,0

Roger Cruz é um dos desenhistas mais conhecidos do nosso país. Antes dessa excelente geração que atua hoje na nona arte ganhar relevância, Cruz já galgava seu espaço nas maiores editoras do ramo. O artista, que começou como letrista, trabalhou por muito tempo nos títulos de X-Men, desenhando X-Men Alpha, Omega, Patrol e muitos outros.

Os desenhos de Cruz já eram surpreendentes na época que o artista trabalhava nos mutantes da Casa das Ideias. Porém, nunca pensei que aquilo que Roger produzia poderia melhorar, até que li Xampu, uma obra autoral que, se colocarmos X-Men Alpha do lado, nunca diríamos que aquilo tem o mesmo desenhista, mas deixemos os traços e linhas para mais tarde.

Xampu é um quadrinho que conta as loucuras de uma geração que decidiu levar o lema sexo, drogas e Rock n’ Roll a sério. A obra se passa entre os anos 80 e 90, uma decisão muito sábia por parte de Roger não pontuar a data da HQ, deixando-o mais livre em sua criação. Aqui vemos as aventuras e desventuras de uma turma de amigos, todos possuindo os mesmos cabelos, quilos, roupas e, principalmente, o amor pelo metal.

Não se pode dizer que o quadrinho possui uma narrativa linear, conseguimos sim definir o que é inicio, meio e fim. Porém o caminho até o terceiro ato é lotado de paradas, curvas e visões diferentes. O que faz muito sentido, afinal não vemos um protagonista. Como a obra retrata uma turma, ou melhor, uma geração, é correto termos vários narradores. Nos tornamos amigos de todo o grupo, o autor consegue situar tão bem seu leitor que, até o caos dos personagens, feito na maioria das vezes em um apartamento, consegue ser divertido e harmonioso.

Cruz já era um excelente roteirista no quadrinho Quaisqualigundum, vencedor do premio HQMiX. E em Xampu vemos algo muito diferente de sua obra anterior, em uma palestra, o autor se refere a HQ como “algo quase autobiográfico”. Parece fácil narrar fatos na primeira pessoa, nós, diariamente, contamos causos vividos para uma plateia, seja de amigos ou desconhecidos. Entretanto, Roger conta muito mais que apenas a sua história, ele faz um retrato lotado de camadas de uma das gerações mais explosivas e gritantes, isso é muito mais complexo do que contar histórias de pescadores.

Já é sabido que esse é apenas o primeiro volume de três edições, isso fica claro, não apenas no número da lombada, mas também em toda a narrativa construída por Cruz, que, apesar de ter um final, consegue deixar muitas lacunas que serão preenchidas nas edições que ainda virão. Fiquemos na espera!

Agora é a hora de falarmos da arte. Roger já se mostrava um ótimo artista nos seus trabalhos para a Marvel e DC, porém seu traço não era tão característico. Xampu nos apresenta algo totalmente diferente, não que a qualidade dos desenhos de Cruz caíram, muito pelo contrário, tudo aquilo que já era bom em X-Men, Homem-Aranha e Batman, melhorou muito na obra aqui em questão.

As páginas lotadas de informações, os traços carregados, utilizando apenas o preto e o branco, fazem com que o desenho rime com o roteiro apresentado. Pode-se dizer que só com a sua arte Roger já conseguiria passar a loucura da geração anos 80/90. Por vários momentos me vi deliciando por longos minutos a arte de Xampu e não posso afirmar mas, parece que Cruz está fazendo aquilo que sempre quis desenhar.

Liberto dos formatos americanos e das sombras das grandes editoras, Roger Cruz escreve e desenha um quadrinho ímpar. Com um roteiro simples, mas que passa muito bem a mensagem a qual o autor quer transmitir e uma arte totalmente característica, que é reconhecida não por repetir chavões dos quadrinhos, mas sim por sua singularidade. O quadrinho foi publicado originalmente pela editora Devir, mas foi relançado e, chega para os leitores por uma parceria entre a Stout Club e a Panini. Xampu é mais uma obra que mostra o quão criativo, divertido, inventivo e inteligente o quadrinho nacional pode ser.

Xampu – Vol.1 — Brasil, 2016
Roteiro: Roger Cruz
Arte: Roger Cruz
Cores: Roger Cruz
Letras: Roger Cruz
Editora original: Stout Club, Panini Comics
Data original de publicação: Setembro de 2016
Páginas: 84 páginas

PEDRO CUNHA . . . Com corpo e alma de Hobbit, sou um eterno Padawan e aprendiz. Amigo dos ursos, dos elfos e das águias. Nativo de Krypton e apreciador da sétima, nona e de TODAS as artes. Quando tentado sempre rebato; "sou um Jedi, como meu pai antes de mim".