Crítica | Xerxes #1

Quando Os 300 de Esparta foi lançada em cinco edições ao longo de 1998, a graphic novel mostrou que Frank Miller, então já bem distante de sua Era de Ouro, ainda tinha gás para produzir uma obra memorável. Usando um texto simples, cheio de chavões e transformando o famoso episódio da resistência espartana contra os persas nas Termópilas (ou “portões quentes”), em 480 a.C. em um verdadeiro combate quase super-heroístico da pequena tropa comandada pelo Rei Leônidas contra o exército infinito de Xerxes, o Grande, Miller arrebatou a atenção dos leitores com seus visuais arrojados e seus momentos icônicos que, depois, em 2007, foram sensacionalmente bem adaptados para o cinema por Zack Snyder.

O tempo passou, o autor passou a ter problemas mais graves de saúde, sua produção diminuiu vertiginosamente e, em meio a anúncios de que o próprio autor faria um continuação de sua obra e do subsequente atraso no lançamento, o filme original ganhou um continuação menos inspirada e tardia, em 2014, sem base em qualquer obra de Miller, mas ainda galgada em uma versão exagerada da realidade, lidando com eventos paralelos aos de Termópilas. E, agora, em 2018, a quase mítica continuação em quadrinhos de Miller é lançada, não muito tempo depois de o autor finalmente acabar sua terceira incursão em seu universo bem particular do Batman. O formato é o mesmo: cinco edições com cada edição formada de páginas exclusivamente com orientação horizontal – ou spreads – que valorizam a dinâmica cinematográfica da ação.

E, por incrível que pareça, depois de sua arte ter decaído muito ao longo dos anos, Frank Miller mais uma vez surpreende e mostra que ainda não perdeu o jeito que o marcou. Mas que fique desde logo claro que, se o leitor não gosta da arte de Os 300 de Esparta, então também não gostará do que o autor faz aqui, pois seus traços são irmãos aos que vemos na graphic novel da década de 90. No meu caso, confesso que seu trabalho me agrada muito, pois Miller brinca com a caricatura e com o exagero extremo, ao mesmo tempo que estabelecendo uma dinâmica apurada, fluida e muito fácil de ler. Cada spread desta curta primeira edição de apenas 21 páginas é magistralmente manipulado de forma a condensar visualmente sua história, sem economizar na sanguinolência, pancadaria e em momentos literalmente surreais, como quando logo reparamos que o famoso escritor grego Ésquilo é transformado em um ninja que adora experimentar com armas exóticas, para o maior efeitos dramático em suas vítimas. E sim, Ésquilo combateu em Maratona e também ao longo de toda a leva da invasão Persa comandada pelo Rei Dario I, pai de Xerxes, em resposta ao envolvimento ateniense na Revolta Jônica. Portanto, o que Miller faz é, mais uma vez, inspirar-se na realidade para criar irrealidades muito divertidas.

Ésquilo, o dramaturgo ninja ou o ninja dramaturgo?

Como mencionado, o foco dessa edição é justamente na Batalha de Maratona, em 490 a.C., o que, pelo menos por enquanto, torna essa graphic novel um efetivo prelúdio da original. No entanto, considerando que o enorme subtítulo da publicação é, em tradução livre, A Queda da Casa Dario e a Ascensão de Alexandre, é possível notar que Frank Miller tem um projeto ambicioso em mãos. Muito ambicioso. Afinal, Xerxes somente ascendeu ao trono em 486 a.C. e Alexandre, o Grande, só assumiu o trono helênico em 336 a.C. Confesso que não sei como, em apenas cinco econômicas edições, Miller abordará todo esse período de tempo, a não ser que ele adote o formato de “semi-antologia”, dedicando cada edição a um momento icônico da rivalidade greco-persa.

Seja como for, aqui nesta primeira edição, focada no comecinho da invasão Persa com foco maior em Maratona, o roteirista consegue, mesmo fazendo novamente uso de chavões e clichês narrativos que estão lá para tornar seus personagens maiores que a vida, transformar a história tão agradável de ler quanto a original, ainda que os personagens, até agora, sejam menos memoráveis do que o Rei Leônidas e sua consorte Gorgo. Mas a já citada versão enlouquecida de Ésquilo, assim como as breves menções à interferência ateniense na Revolta Jônica, ao mito de Fidípides e a retratação do imponente e efeminado Milcíades, general que, alterado a milenar formação de batalha helênica, conseguiu uma vitória importante para os atenienses, resultam em um panorama surpreendentemente completo – ainda que fortemente ficcionalizado – do que efetivamente aconteceu nesse nascedouro da guerra as cidades estado gregas e a nação expansionista persa. O aspecto negativo é a impressão de “pouco acontecer”, algo que, provavelmente só será remediado – se for – depois da leitura integral da obra que, espero fortemente, não atrase muito como normalmente acontece com trabalhos de Miller.

As cores ficaram ao encargo do mexicano Alex Sinclair, que trabalhou em A Raça Superior e ficou evidente que ele tentou, acertadamente, manter uma harmônia em relação à HQ original, estabelecendo o padrão de alto contraste e uma paleta que usa cores básicas que emulam e fazem remissão à tropa de Leônidas. Mas vê-se que seu trabalho acompanha a menor quantidade de detalhes que Miller imprime em sua arte, com cores mais chapadas e sem os mesmos arroubos criativos de Lynn Varley na obra original, mas que fazem perfeito sentido aqui.

A primeira edição de Xerxes mostra que Frank Miller ainda tem traços daquilo que o transformou em uma lenda dos quadrinhos. É uma obra que diverte transmutando a Hístória (essa com letra maiúscula mesmo) em uma narrativa típica de HQs de super-heróis e atrai por sua arte. Faltam personagens que prendam os leitores e, talvez, a revelação da efetiva linha narrativa que o autor assumirá considerando o subtítulo que denota uma passagem temporal substancial.

Xerxes #1 (Xerxes: The Fall of the House Darius and the Rise of Alexander, EUA – 2018)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Cores: Alex Sinclair
Editora: Dark Horse Comics
Data de publicação: 04 de abril de 2018
Páginas: 21

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.