Crítica | Xerxes #2

  • Leia, aqui, a crítica das demais edições. 

Interessante o modelo que Frank Miller propões para sua saga prelúdio de Os 300 de Esparta. Com o subtítulo “A Queda da Casa Dário e a Ascensão de Alexandre“, em tradução livre, ele pretende cobrir um enorme período de tempo em apenas cinco edições, especialmente considerando que ele começa ainda na Batalha de Maratona, no começo da invasão persa às cidades-estado helênicas. No segundo número, por incrível que pareça, ele começa de onde parou, abordando a batalha seguinte, ou seja, a invasão pelo mar da frota comandada diretamente pelo referido rei, focando muito na liderança de Temístocles, personagem que ele introduz somente nesta edição.

O autor, porém, vai a passos largos e oferece uma visão geral e “aérea” dos acontecimentos, basicamente repetindo a fórmula da primeira edição e demonstrando que seu avanço no tempo será feito de forma episódica, com cada edição praticamente fechada em si mesma. Aqui, vemos a efetiva queda da Casa Dário e, como a chegada de Xerxes, seu filho, às cidades-estado anos depois já foi objeto da graphic novel original, ainda que apenas em relação aos Portões de Fogo, é de se imaginar que Miller vá focar pouco no herdeiro vingativo do rei Dário e já lidar com a ascensão de Alexandre, uma vez que o espaço temporal entre uma coisa e outra é considerável.

De toda forma, a segunda edição desaponta justamente por manter a estrutura formular apresentada na primeira. Vem um ataque, algum líder brilhante monta um plano ousado, o plano é executado – e novamente com participação fundamental do dramaturgo “ninja” Ésquilo, o Batman grego – e tudo é “resolvido” muito rapidamente, em uma lição “histórica” meteórica (as aspas justificam-se pela forma como a queda literal de Dário se dá, sem nenhuma relação com os fatos) em apenas 21 páginas de muito estilo sobre pouca substância. Claro, continua sendo divertido ver os exageros de Frank Miller que recorre a muitas frases de efeito e muita pose de seus soldados tanto atenienses quando persas, com direito a belas splash pages horizontais, formato padrão da publicação, com silhuetas sombreadas. Aqui, cabe o velho parênteses de sempre: este é o Miller moderno, que desenha sem se preocupar com a física e com o físico, exagerando movimentos e proporções em um resultado que muitos consideram grotesco, mas que eu vejo como parte de sua narrativa hiperbólica e cheia de testosterona.

No entanto, fazendo uma comparação entre as edições, diria que, nesta segunda, Miller deixou mais a desejar nas expressões faciais de todo os envolvidos, trabalhando muito pouco os detalhes, com um Temístocles, por exemplo que, quando visto em close-up, parece apenas um esboço apressado que as cores digitais de Alex Sinclair tenta corrigir, mas sem conseguir completamente. Não é algo gritante, já que o foco está mesmo nas panorâmicas cinematográficas, mas fica aquela impressão de desleixo, especialmente para quem tiver a oportunidade de ler a edição em seu formato digital, que permite ampliação da arte.

Confesso que, por maior que seja o poder de concisão de Frank Miller, não sei como ele conseguirá encerrar sua narrativa a contento, sem glosar anos e anos a fio ou sem repetir o que já fez na GN original ou mesmo o que vimos no sidequel 300: A Ascensão do Império. Além disso, com exceção do super-Ésquilo, que de tão surreal não dá para levar muito a sério, mais nenhum personagem se repete e, com isso, o leitor não tem tempo de conectar-se com nenhum deles, o que, de certa forma, detrai do conjunto, mesmo que a leitura seja fácil e agradável no final das contas, com belos momentos de extremo exagero como nos acostumamos a ver nos trabalhos do roteirista e desenhista.

Xerxes sem dúvida é interessante. Mas, talvez, não tão interessante assim para justificar sua existência. Claro que há três edições pela frente ainda e é possivelmente cedo para ser muito incisivo sobre esse aspecto. Veremos o que a chegada de Xerxes – e a ascensão de Alexandre – trará para esse contexto.

Xerxes #2 (Xerxes: The Fall of the House Darius and the Rise of Alexander #2, EUA – 2018)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Cores: Alex Sinclair
Editora: Dark Horse Comics
Data de publicação: 02 de maio de 2018
Páginas: 21

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.