Crítica | Xerxes #4

  • Leia, aqui, as críticas das demais edições. 

Não sei mais o que Frank Miller está fazendo com essa pseudo-continuação de seu Os 300 de Esparta. O enorme e ambicioso subtítulo – que tenho deixado de fora das postagens, mas que consta da ficha técnica aqui embaixo – deixa evidente que ele queria abordar os eventos anteriores à graphic novel, passando por ela e chegando até a ascensão de Alexandre, o Grande, tudo em meras cinco edições, tarefa que desde o começo reputei impossível. Pelo menos impossível se o que Miller pretendia era contar uma história de verdade e não fazer saltos temporais gigantescos e glosar 90% dos acontecimentos de uma ponta a outra.

A questão é que o autor atira para todos os lados, com as duas primeiras edições contando uma história apenas sobre a Batalha de Maratona e os acontecimentos ao redor, debilmente construindo personagens como Miltíades, Temístocles e o dramaturgo Ésquilo, que ele divertidamente transforma em um ninja. Mas a edição seguinte já varre todos esses personagens para debaixo do tapete e, do nada, sem que uma coisa tivesse qualquer conexão com a outra, ele parte para contar a origem do Purim, data comemorativa do calendário judaico e que se relaciona com Xerxes. Vejam bem: as duas abordagens são interessantes, mas o problema é que elas não formam uma história. Seu novo trabalho, portanto, parece muito mais contar episódios interessantes reunidos debaixo do guarda-chuva temático das guerras greco-persas do que uma narrativa que justifique o termo graphic novel ou mesmo arte sequencial, se considerarmos que não há exatamente uma sequência entre cada edição, sendo muito mais uma sucessão de one-shots do que qualquer outra coisa.

Aliás, nem isso, pois one-shots normais não se furtam de lidar pelo menos com o desenvolvimento de personagens e Miller não parece preocupado com isso também, jogando nomes que são historicamente relevantes, mas que não nos dizem nada além disso. São personagens rasos demais, ao ponto de não ligarmos para absolutamente nenhum deles. E o exemplo máximo disso é a quarta edição, objeto da presente crítica.

Em primeiro lugar, ela deve ser lida somente após a (re)leitura de Os 300 de Esparta (e talvez também o filme 300: A Ascensão do Império, com ação paralela e complementar à graphic novel), já que, entre a edição #3 e a #4, Xerxes invadiu as cidades-estado que viriam a formar a Grécia e foi derrotado. Quando o penúltimo número de sua nova HQ começa, Dario III (que mais parece o Apocalypse) já está no poder e já unificou o Império Persa mais uma vez sob uma bandeira. Dois anos se passam e Alexandre, o Grande já é apresentado como um grande guerreiro com vitórias que ecoam pela Ásia Menor sem que Miller se dê ao trabalho de sequer explicar que vitórias são essas e, pior ainda, simplesmente ignorando a reunião dos estados gregos sob seu comando, momento histórico importantíssimo e chave para o futuro da região. Além disso, Alexandre não é exatamente um personagem, mas sim muito mais um símbolo, quase que como um deus, assim como Dario III, o que mais uma vez impede qualquer conexão do leitor com aquelas pessoas desenhadas ali nas páginas. A primeira lembrança que me vem à mente é o quão bem o próprio Miller trabalhou o Rei Leônidas de Esparta em sua primeira GN e, aqui, não consegue fazer o mesmo pela magnífica figura que foi Alexandre, o Grande.

O restante da história são páginas quase mudas em que vemos as vitórias mais importantes do exército grego sob o comando de Alexandre, sobre os persas, com Dario III retrocedendo com seu exército, o que marca, historicamente, o começo do fim do Império Persa e a expansão grega por grande parte da Ásia e África. Mas os saltos temporais e a recusa de Miller em tratar as coisas pausadamente, em desenvolver personagens, em criar situações que pelo menos pareçam contar uma história com começo, meio e fim, insistindo em páginas e mais páginas de violência extrema e estilizada só porque ele quer, torna seu esforço vazio e quase que indecifrável para quem não souber bem os fatos históricos da época nessa região do mundo.

Mesmo que a última edição tenha o triplo do tamanho regulamentar (algo que muito provavelmente não acontecerá), Miller não conseguirá fazer algo relevante aqui. E é frustrante ver que ele potencialmente desperdiçará vários excelentes momentos históricos em uma sucessão de páginas inteiras desenhadas para fazer o leitor soltar “ooohhhhs” e “aaahhhhhs” e nada mais. Violência por violência, prefiro a que conte uma boa história. E o pior é que Miller já provou dezenas de vezes que sabe muito bem fazer isso. Ou sabia, pelo menos…

Xerxes #4 (Xerxes: The Fall of the House Darius and the Rise of Alexander #4, EUA – 2018)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Cores: Alex Sinclair
Editora: Dark Horse Comics
Data de publicação: 04 de julho de 2018
Páginas: 28

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.