Crítica | Xerxes #5 (de 5)

Edição #5

Graphic Novel completa:

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Quando houve a confirmação de que Frank Miller finalmente lançaria sua aguardada “continuação” de Os 300 de Esparta, tive a mais sincera esperança, mesmo depois de ter lido a não mais do que mediana e extremamente atrasada graphic novel Batman – Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, de que viria coisa boa no horizonte. Depois, com a informação de que o autor cobriria praticamente todo o período das chamadas Guerras Greco-Persas, do Rei Dario I a Alexandre, o Grande, trepidei em dúvida diante da tarefa hercúlea, especialmente diante do diminuto tamanho da minissérie, com apenas cinco edições.

Afinal, se considerarmos o subtítulo da publicação, A Queda da Casa Dário e a Ascensão de Alexandre, estamos falando de um período de nada menos do que pelo menos 120 anos de história (de 490 a.C. a 330 a.C. sendo conservador), o que, claro, engloba também a Batalha de Termópilas retratada na graphic novel anterior (além da adaptação cinematográfica de Zack Snyder) e também a batalha naval de Salamina, que vimos na “continuação semi-paralela” 300: A Ascensão do Império. E isso sem contar que, começando por Dário I, rei persa, seria necessário passar por seus sucessores,  Xerxes I, Artaxerxes I, Xerxes II, Sogdianus, Dario II, Artaxerxes II, Artaxerxes III, Arses e, finalmente, Dario III, além do equivalente nos complexos e desunidos estados gregos que só seriam unificados sob a bandeira de Alexandre, o Grande. Somente aí é perfeitamente possível ver, de um lado, o potencial para um sem-número de magníficas graphic novels para fazer o queixo do leitor cair e, de outro, o potencial para algo que focasse em um ou dois grandes eventos e personagens, em uma também bem-vinda “revisão” histórica para que tudo coubesse no apertado espaço.

Infelizmente, porém, Miller não seguiu nem por um caminho, nem pelo outro, escrevendo uma “não-história”, com “não-personagens”. Se ele ensaia aproximar o leitor de Temístocles e Ésquilo nas duas primeiras edições, que lidam com a Batalha de Maratona, isso logo desaparece, com o número seguinte focando na origem do Purim (ainda com Xerxes I) e a quarta edição já pulando para Dario III e Alexandre já líder e estrategista das tropas gregas. A derradeira HQ é, apenas, o epílogo da meteórica ascensão do macedônio, com um panorama por alto de suas vitórias contra Dario III na Batalha de Gaugamela, depois na Babilônia e, finalmente, Persépolis. Não há uma narrativa, apenas “episódios” soltos sem nenhuma construção, nenhum detalhamento do que efetivamente está acontecendo e nenhuma tentativa de se fazer algo que não seja, apenas, a “versão Twitter” das vitórias de Alexandre sobre o Império Persa.

E o mesmo vale para os personagens. Lembram-se de Leônidas, o Rei de Esparta que é o foco de Os 300 de Esparta, do próprio Miller? Pois bem, por mais que ele fosse o típico personagem raso, o autor deu-se ao trabalho de criar um arco crível e lógico para ele, com começo, meio e fim, com o mesmo valendo para Gorgo, sua consorte e até mesmo para o espartano deformado e traidor Efialtes. Sentimos o drama dos personagens e compreendemos suas ações. Em Xerxes, Frank Miller desconsidera o conceito de arcos de desenvolvimento ou de narração e lida apenas com arquétipos e, pior, todos eles equivalentes. Afinal de contas, Temístocles não é retratado de maneira muito diferente do próprio Alexandre, assim como Xerxes I é praticamente igual a Dario III. Todos são como se fossem “esculturas de barro” sem forma, sem características especiais, sem algum traço memorável. Diria até mesmo que Alexandre, na edição #5, não é nem mesmo um personagem propriamente dito. Ele está mais para um figurante em uma HQ que leva seu nome (ainda que no subtítulo), ou, talvez, um observador sem qualquer estofo.

Notem bem que não exijo que escritores construam os detalhes de seus personagens. Mas uma coisa é milimetricamente abordar determinado personagem, outra completamente diferente é transformá-los em “etiquetas”, algo como “este é Alexandre, o Grande, lembrem-se de suas aulas de história na escola e preencham-no com esse conhecimento, pois não estou com vontade de dar-lhe uma personalidade mínima que seja”. A preguiça bateu forte em Miller, que conseguiu estragar um dos mais fascinantes personagens históricos do Ocidente e jogar por terra todos os seus esforços de continuar lidando com as Guerras Greco-Persas de maneira minimamente relevante.

Se a inexistente narrativa, com inexistentes personagens já não fossem suficientemente frustrantes, a edição sob análise ainda sofre com a pior arte de toda a graphic novel. E quem acompanha minhas críticas sabe que eu aprecio muito essa arte atual “mega-deformada” de Miller, então não é esse o problema. A questão é que, assim como os sinais de preguiça extrema estão dolorosamente presentes em seu “texto” (as aspas são mais do que justificadas aqui, pois de texto a edição nada tem), eles também se fazem presentes na arte. Traços apressados, inacabados, como se sua prancheta fosse explodir como os gravadores de Missão: Impossível se ele não acabasse em tempo pré-determinado. As primeiras páginas, então, focadas em Dario III, parecem um emaranhado pós-moderno daqueles que o leitor coça a cabeça para achar algum sentido, com desproporções corporais tão absurdas que, quando é possível percebê-las, a vontade que dá é de rir. Mas mesmo quando a arte melhora, ela perde o vigor, perde detalhamento, perde qualquer característica que a destaque de algo genérico e largado, realmente feito às pressas para cumprir prazo (e ele realmente cumpriu, sem absolutamente nenhum atraso, algo raro no caso do autor).

Se Xerxes começou razoavelmente bem, seu final foi trágico. E, olhando a graphic novel como um todo, em retrospecto, não sei nem se dá para classificar o trabalho como graphic novel de verdade. Está mais para uma sucessão de devaneios artísticos de Frank Miller que acha que está contando uma história. Realmente uma pena e um desperdício de possibilidades e talento.

Xerxes #5 (Xerxes: The Fall of the House Darius and the Rise of Alexander #5, EUA – 2018)
Roteiro: Frank Miller
Arte: Frank Miller
Cores: Alex Sinclair
Editora: Dark Horse Comics
Data de publicação: 1º de agosto de 2018
Páginas: 26

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.