Crítica | “ye” – Kanye West

Kanye West é uma das celebridades mais marcantes desse segundo milênio. Polêmico, sincero, autêntico. Gênio? Analisando puramente sua discografia, o termo cai bem. Mas, acima de tudo, Kanye virou o produto de uma mídia que descobriu uma fonte incessável de notícias de tabloids. Prestigiado por seu talento absurdo como produtor musical e repleto de devaneios que levam a crer que possui problemas mentais, é justo dizer que Kanye deve ser um dos poucos artistas atuais que chega próximo do que foi Brian Wilson na década de 60. Depois do lançamento de The Life Of Pablo e um 2017 conturbado, com notícias que falavam de um Kanye endividado e até mesmo de saúde debilitada, o produtor recentemente anunciou uma série de projetos para 2018, sendo ye o primeiro deles, disponibilizado quase de surpresa.

Kanye garante atenção imediata na abertura com I Thought About Killing You. Chega a ser irônico como a faixa, proclamada pelo rapper durante grande parte de sua duração, consegue passar a imagem do mesmo tanto como alguém forte quanto alguém extremamente frágil, chegando ao ponto de afirmar que pensou em suicídio. “Os pensamentos mais belos estão sempre próximos dos mais escuros”, afirma Kanye ao mesmo tempo que admite amar a si mesmo mais que tudo e realmente sofrer de problemas psicológicos. Yikes continua o caminho de desabafos do rapper, dessa vez sobre seu vício em drogas que o levou até mesmo a ser internado em um hospital no ano passado.

Em meio a tantas canções de caráter pessoal, All Mine é a canção mais deslocada do disco, com batidas e versos de temática sexual que podem soar como um rapper juvenil e amador, mesmo que possua algumas rimas extremamente sagazes. Já a excelente Would’nt Leave, em essência, é uma faixa sobre sua esposa, a socialite e modelo Kim Kardashian. Kanye utiliza diversos panos de fundo pra ilustrar a fidelidade de Kim a seu lado, citando desde suas dívidas até suas declarações mais polêmicas, seja sobre Trump ou sobre escravidão.

As três últimas canções retomam o caminho trilhado por Kanye no início da carreira, cheio de samples e instrumentais de soul dos anos 70. A dobradinha No MistakesGhost Town forma uma pérola preciosa do catálogo de produções do artista. Com direito a guitarras, beats de pegada gospel e soul, arranjo de vozes magnífico e uma variedade de efeitos, esta é facilmente a magnum opus de Kanye nesse disco. “I put my hand on a stove, to see if I still bleed/ Yeah, and nothing hurts anymore, I feel kinda free” – poucos artistas conseguiriam fazer um verso tão cafona soar tão empoderado, a ponto de levantar os punhos para o alto. Kanye é um desses poucos.

Violent Crimes já é uma canção de Kanye sobre sua filha e como a mesma o fez mudar. Sobre como a percepção que o rapper tinha sobre mulheres mudou desde que ele ganhou uma filha. É uma balada que evoca os momentos mais emotivos da discografia do produtor, como o injustiçado 808 and Heartbreak e um de seus melhores singles, Only One. Peca apenas pela inserção, logo ao fim, de uma mensagem de voz de Nicki Minaj totalmente fora de lugar que fecha o álbum de forma abrupta e um tanto perdida. No fim, fica a sensação clara que ye provavelmente é o álbum de Kanye pelo qual ele menos arrisca em termos de produção e sonoridade, mas nos revela um lado íntimo poucas vezes visto, assim como algumas de suas melhores rimas (que nunca foram seu maior forte) em anos.

“Eu odeio ser bipolar/ É ótimo” – a ironia estampada na capa de ye descreve um lado de Kanye comentado pelo público há tempos: seu psicológico imprevisível. Fãs e mídia discursam a possibilidade do rapper sofrer de distúrbios não é de hoje, porém, um comentário do próprio sobre o assunto nunca pareceu vir a tona como em ye. Conciso (ye é tão curto que tecnicamente deveria ser considerado um EP) e pessoal, estamos diante de um álbum onde Kanye mergulha, ao mesmo tempo, no que o fortalece e no que o fragiliza, mas, acima de tudo, no que o faz Kanye. O rapper ainda promete outros álbuns para 2018, incluindo um projeto colaborativo com Kid Cudi. Mesmo que muito longe de suas maiores obras, ye se prova uma manutenção de hype em relação a tudo que o produtor toca.

Aumenta: Ghost Town
Diminui!: All Mine

ye
Artista: Kanye West
País: Estados Unidos
Lançamento: 1 de junho de 2018
Gravadora: GOOD
Estilo: Hip-Hop

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, cantor de chuveiro e tocador de guitarra de ar. Seja através dos versos ácidos de Kendrick Lamar, a atitude de Bruce Springsteen, ou a honestidade de Tim Maia, por seus fones de ouvido ecoam ondas indistinguíveis. Vai do sangue de Tarantino à sutileza de Miyazaki, viajando de uma galáxia muito, muito distante até Nárnia. Desbravador de podcasts e amante de indie games, segue a vida com um senso de humor peculiar e a certeza de que tudo passa - menos os memes.